Sem tempo para ressaca pós-Oscar

Segunda-feira pós-Oscar é sempre como uma ressaca, ainda mais com tantas expectativas projetadas sobre O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, com suas quatro indicações nobres, e ainda outro brasileiro, Adolpho Veloso, lembrado pela belíssima fotografia de Sonhos de Trem. Mas não deu.
A falta de prêmios tem algum significado maior? É motivo de desânimo? Acho que não.
Acompanhei a impecável trajetória de O Agente Secreto desde seu lançamento mundial no Festival de Cannes, em maio de 2025, arrebatando dois prêmios de uma vez, direção e ator para Wagner Moura - o que em tese nem seria possível pelo regulamento (a dupla premiação). Mas foi, porque júri é soberano - e este era presidido por ninguém menos do que a estrela Juliette Binoche.
Depois disso, feito cometa, o filme pernambucano só ascendeu, conquistando dezenas de prêmios mundo afora, inclusive o muito celebrado Globo de Ouro para o baiano Wagner Moura, orgulho nacional.
Claro que as expectativas eram altas e todo mundo aqui queria que o Brasil emplacasse um bicampeonato de filme internacional, após a conquista inédita de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, em 2025.
Mas perder era uma forte possibilidade, diante do favoritismo explícito do norueguês Valor Sentimental, de Joachim Trier, um belo filme mas, a meu ver, o mais fraco dos cinco concorrentes, entre os quais constava o impactante A Voz de Hind Rajab, da tunisiana Kaouther Ben Hania, um avassalador libelo da causa palestina, e o iraniano Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, que com todos os méritos levou a Palma de Ouro. Sirât, de Oliver Laxe, na minha opinião, não devia nem estar na lista, e sim o potente sul-coreano A Única Saída, do veterano Park Chan-wook, uma devastadora autópsia do capitalismo selvagem.
Então, como ficamos? Muito bem, porque temos futuro. O cinema brasileiro vem conquistando espaço e visibilidade à altura da cada vez melhor produção cinematográfica do País. Prova disso é a agenda cheia de todos os envolvidos. Kleber já prepara a produção de um novo filme ambientado em Recife, desta vez recuando para a década de 1930. Wagner Moura tem engatilhados: o remake de Gosto de Cereja, premiado drama de Abbas Kiarostami; a ficção científica 11817, de Louis Leterrier, ao lado de Greta Lee; o drama The Last Day, de Rachel Rose, uma livre adaptação de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, em que contracena com Alicia Vikander; The Outsider, cinebiografia da fotógrafa Cláudia Andujar, dirigido por sua mulher, Sandra Delgado; e colocar sua voz na série de animação Star Wars: Maul-Shadow Lord, como o detetive intergaláctico Brander Lawson. Alice Carvalho já começou a viver Marta, a nossa incrível jogadora de futebol, na cinebiografia Rainha do Futebol e vai estrelar a segunda temporada da série Cangaço Novo, da Prime Video. Gabriel Leone é o protagonista do drama Barba Ensopada de Sangue, de Aly Muritiba, com estreia prevista para abril, e está no elenco da segunda temporada da série Citadel, da Prime Video. E a incansável Tânia Maria foi escalada para A Adoção, novo filme de Allan Deberton, da série Delegado, do Canal Brasil, e está no elenco de Yellow Cake, ficção científica de Tiago Melo que participou do mais recente Festival de Rotterdam.
Ou seja, ninguém vai ter tempo nem disposição para ficar chorando pelos cantos, nem ressuscitar aquele velho e mofado complexo de vira-lata. Bora lá!

Tive a sorte de acompanhar a estréia mundial de
Um dos últimos expoentes do Cinema Novo, Cacá Diegues atravessou trabalhando como diretor e produtor seis décadas de cinema brasileiro: tarefa para os fortes, num cenário marcado por uma ditadura militar, o fechamento da Embrafilme, a reconstrução democrática do País e da indústria cinematográfica e inúmeros embates culturais, ideológicos e mercadológicos.