08/09/2026

Duas vidas em um romance

Patricia era adolescente no quando da 2a Guerra Mundial, na qual perdeu o pai e o irmão. Anos mais tarde, ela entra em Oxford, e conhece Mark, que a pede em casamento depois de ele passar por uma frustração acadêmica. Ela aceita. Ou não. MY REAL CHILDREN, de Jo Walton, se abre em duas narrativas a partir desse pedido. Numa delas, Tricia (mais tarde Trish) aceita; na outra, Pat não aceita. Acompanhamos, então, em capítulos intercalados duas vidas distintas.
 
Tricia vive um casamento feliz, abusada emocionalmente pelo marido pedante frustrado, tem várias gravidezes, alguns filhos sobrevivem. Pat se torna autora de guias de viagem, e passa viver uma relação com uma professora universitária, e tem alguns filhos. Qual das duas é a história real de Patricia?, se pergunta a protagonista no presente, senil numa casa de repouso.
 
Conhecida por ficções-científicas e fantasias, Jo Walton se aventura por um gênero híbrido de História Alternativa. A questão que interessa aqui a autora é como o movimento da história interfere na vida das pessoas comuns. Em nenhuma das duas narrativas os fatos históricos são como conhecemos – numa delas, JFK morre envenenado, na outra, nem morre; em uma, a conquista espacial é um fator importante, na outra, o mundo vive sob constante tensão de guerras nucleares (inclusive uma entre Brasil e Uruguai).
 
O estilo lembra o realismo dos contos Alice Munro – no qual muito mais se conta do que se mostra – com a história alternativa de Philip K. Dick. Walton constrói dois romances sobre fé, o acaso e o destino, buscando uma intersecção entre narrativa histórica e narrativa pessoal, investigando o papel e as possibilidades da mulher em dois tipos de mundo – nenhum deles muito favorável a elas.

O romance de Gonçalo M. Tavares

Para mim, Gonçalo M. Tavares é um dos melhores nomes da geração jovem da literatura portuguesa contemporânea. Seu quarteto O Reino é excepcional – em especial JERUSALÉM –, uma das melhores coisas escritas em português nesse século. Sua série O Bairro – pequenas narrativas protagonizadas por escritores como Brecht, Walser, Calvino e Eliot – é de uma inventividade e experimentalismo ímpares. Seu mais recente romance, UMA MENINA ESTÁ PERDIDA NO SÉCULO À PROCURA DO PAI, no entanto, não me parece chegar à mesma grandiosidade, mas também está longe de ser um livro ruim. É apenas um pouco mais convencional.
 
Numa Europa destroçada pouco depois da 2a Guerra, um homem, Marius, encontra uma menina portadora de trissomia 21 (Síndrome de Down), Hanna, sozinha no meio da rua com uma caixa com fichas de aprendizado, um método que visa ensinar autonomia a ela. Ele tenta descobrir algo, mas ela dá poucas informações, e quando lhe pergunta sobre o pai, alega não poder dizer nada, se não lhe “arrancarão os olhos e a língua”. Marius também está em fuga, mas nunca sabemos do que ou de quem.
 
Essa é uma das raras vezes em que Tavares se entrega às regras do romance sem qualquer pudor – não que precisasse o ter, claro. Sua narrativa é uma saga do homem e da menina em busca desse pai, que ele nem sabe se existe. Cruzam seus caminhos uma Berlim destruída, um hotel cujos quartos têm nomes de campos de concentração, e tipos bastante estranhos.
 
O que essa Europa destruída do passado e essas duas personagens (fora as tantas outras que parecem mais tipos do que pessoas) têm a nos dizer? Tavares sempre foi de situar sua narrativa pelo mundo. Nascido em Luanda e criado em Portugal, o escritor transmite à sua produção uma sensação de fronteiras esmaecidas, mas que, no fundo, são mais demarcadoras e excludentes do que se estivessem ali, de forma precisa. Berlim é um palco estranho, um pesadelo kafkiano. Mesmo lidando com as formalidades do romance, ele subverte aqui e ali, conforme pode (mais no começo do que na reta final), e resulta numa narrativa repleta de bons momentos – alguns grandes – mas sem o brilho de que ele é capaz.

O Futebol, no É Tudo Verdade

Estreia hoje no É Tudo Verdade, o documentário O FUTEBOL, de Sergio Oksman, brasileiro radicado em Madri. Em 2014, a Copa do mundo serviu de "desculpa" para um reencontro dele com o pai, Simão, que não via há 20 anos. Os dois têm uma história triste de abandonos, encontros e desencontros, e o cineasta vê a oportunidade passar um tempo com o pai.
O filme acompanha esses dias, então, um tanto melancólicos. Existe a tentativa de diálogo entre os dois - mais por parte do filho do que do pai - mas quase sempre frustrada. Vemos muito a nuca dos dois, numa câmera fixa no banco de trás do carro. As conversas são, em boa parte do tempo, sobre futebol, o único ponto em comum que pai e filho parecem ainda ter. Mas o passado, vez por outra, se materializa (seja numa pergunta ou num filme caseiro).
Mas o documentário, enquanto gênero, é como o futebol, por mais que se esforce, não existe controle. O documentarista tem seus planos, mas o acaso (uns felizes, outros, não) tiram as expectativas do eixo. É preciso saber lidar com o inesperado, na arte, no esporte, e na vida. Oksman faz um belo filme sobre sua experiência pessoal, mas também sobre o ofício de se fazer filmes. É, por fim, um filme sobre a tentativa de retomar o controle do descontrole. Lembra do 7 a 1? Então, ele simboliza muito dentro da narrativa do longa. Simbolize até, vai saber, o destino de um país.
O longa tem previsão de estreia para a próxima semana, 21/04.
No É Tudo Verdade:
13/4- 21h - Cinearte SP
14/4 - 13h - Cinearte SP
15/4 - 21h - Estação Botafogo RJ
16/4 - 13h - Estação Botafogo RJ

Chicago Boys, no É Tudo Verdade

Não deve existir um documentário mais assustador no É Tudo Verdade de 2016 do que esse chileno sobre os CHICAGO BOYS, o grupo de economistas formados na Universidade de Chicago que fizeram o plano econômico do usado na ditadura Chilena. Apesar do vasto material de arquivo, o que mais impressiona são as entrevistas da diretora Carola Fuentes (codirigido com Rafael Valdeavellano) com alguns dos Chicago Boys realizadas especialmente para o filme.

Quatro décadas depois, eles não dão o braço a torcer, e não assumem as consequências negativas da política econômica que formalizaram e foi executada pelo ditador Augusto Pinochet. Pioneiros no pensamento Liberal, anteciparam medidas que foram tomadas por Margaret Thatcher anos mais tarde. Fuentes constrói o filme entre a dialética do passado e do presente, o “milagre econômico” da ditadura e as manifestações dos dias de hoje, que tomam as ruas do país, contestando assim os supostos argumentos dos Chicago Boys.

Talvez o que mais assusta – mais do que a frieza e falta de compaixão desses economistas, e eles não fazem questão de disfarçar; um deles diz várias vezes que o Chile era um país de merda, graças a Salvador Allende – é a conjuntura que promoveu e propiciou o golpe militar em 1973, e seus paralelos com o Brasil contemporâneo; embora eu ache que esse tipo de comparação serve apenas para gerar um alarmismo desnecessário nesse momento (o que não quer dizer que não se deve ficar atento).

Com direito a vídeos educativos de Milton Friedman, CHICAGO BOYS é um filme que, em última instância, tece um comentário sobre a política econômica de toda a América Latina que reverbera até hoje, mesmo passadas mais de quatro décadas.

SESSOES no ÉTV

Domingo 10 - 22h - no Reserva Cultural (SP)
Terça - 12 - 19h - Espaço Itaú Botafogo – Sala 6 (RJ)
Quarta - 13 - 19h - CINEARTE (SP)
Quarta - 13 - 22h - Espaço Itaú Botafogo - Sala 3 (RJ)

http://etudoverdade.com.br/br/filme/42087-Chicago-Boys-
 

Jonas e o Circo sem Lona, no É Tudo verdade

 

Delicado é uma palavra que reluto em usar, porque já perdeu o sentido – na verdade, acho que ganhou sentidos demais que beira o pejorativo. Mas, não consigo pensar em outra palavra para se começar a falar em JONAS E O CIRCO SEM LONA, documentário da estreante Paula Gomes, que tem sua primeira sessão no país no festival É Tudo Verdade. O filme é sobre um garoto que no quinta de sua casa, na periferia de Salvador, monta uma espécie de circo com outras crianças, para realizar espetáculo com ingressos baratos. Porém, quando acabam as férias, ele se vê sozinho, e com seu sonho esvaziado.

 

Paula Gomes tem uma percepção delicada e aguçada daquele menino e daquela realidade. Acompanhamos a crônica de um sonho perdido. O filme se constrói na dualidade entre o barulho da alegria e o silencio do desolamento.  De certa forma, a breve trajetória de Jonas, como “dono de circo” me lembrou a do PT no poder, com um começo esfuziante e cheio de alegrias até o abandono e solidão. A história do garoto, no entanto, termina com uma nota de otimismo – a outra, não sabemos.

 

Exibições do filme no É TUDO VERDADE - ENTRADA GRATUITA -

 

Rio de Janeiro:

- Sáb, 09/04, às 21h no Espaço Itaú Botafogo (DCP)

- Dom, 10/04, às 13h, no Espaço Itaú Botafogo (DCP)

 

 

São Paulo:

- Seg, 11/04, às 21h, no Cinearte/Conjunto Nacional - (DCP)

- Ter, 12/04, às 13h, no Cinearte/Conjunto Nacional - (DCP)

Uma vida pequena, de Hanya Yanagihara

Não há dúvida de que Hanya Yanagihara sabe escrever. Sabe escrever até demais – mas seu editor parece não saber editar. Nada justifica as mais de 800 páginas de seu segundo romance A LITTLE LIFE – que título mais irônico. Centrado em torno de um grupo de 4 amigos em Nova York, por algumas décadas, seu começo indica algo à la The Group, de Mary McCarthy. E as (mais ou menos) 150 primeiras páginas são bastante promissoras e muito boas, indicado que virá um retrato panorâmico ou algo assim.
 
Estranhamente, pouco depois, a autora deixa tudo isso de lado, para se concentrar em Jude St. Francis – realmente, a pessoa mais problemática do livro, deixando de lado os demais, eventualmente contando o que aconteceu com eles a mero título de ilustração. No começo Hanya parece estar querendo lidar com políticas de identidades, seus avanços e contenções. JB é negro, filho de uma imigrante haitiana e tenta obter sucesso com artista plástico. Malcolm é o mais rico (muito mais rico, podre de rico), filho de pai branco e mãe afro-americana, tenta se encontrar como negro – embora enfrente problemas por não ser “negro o suficiente” para JB. Williem é bonito, mas pobre, e tenta ser ator. Amável e educado, é querido por todos, e tem um passado conturbado com um irmão com problemas mentais e país pouco amáveis – todos mortos agora. Aí sobra Jude. Jude é atrativo demais enquanto personagem, e seu passado doloroso é revelado pouco a pouco, o que explica seu inúmeros problemas físicos e emocionais.
 
Não é difícil entender como Jude sequestra a narrativa para si, mas não é de se concordar com a autora de abrir mão de tudo o que parecia construir para se dedicar apenas a ele, cuja história de dor e tentativas de superação é tão forte que beira o exagero. O sofrimento de Jude se torna o fetiche-mor do livro, continua-se a ler para saber o quanto mais ele sofreu, e ainda irá sofrer, porque o sofrimento não para.
 
A LITTLE LIFE, cuja tradução está prometida pela Record para ainda o primeiro semestre de 2016, é um catálogo do sofrimento humano cuja conclusão da trama dá para se notar a quilômetros de distancia. Garth Greenwell escreveu um ensaio (http://goo.gl/YI1gDz) no qual compara a autora a Almodóvar e Proust, pois, segundo ele, ela, como os outros dois, está ligada à tradição estética de modos chamados queer, como melodrama, ficção sentimentalista e ópera. Ele identifica os laços entre os amigos como aqueles que uniram a comunidade LGBT como uma resposta à crise da AIDS. Estes comentários são o que de melhor pode se dizer sobre o livro – embora, é claro, o ensaísta está exagerando muito.
O que ele não percebe – mas alguns outros comentaristas também perceberam – é a ausência de matéria, ou momento, que seja, histórica dentro da narrativa. Passam-se mais de três décadas, num tempo inexistente, onde não há crises econômicas ou políticas, não há 11 de setembro, não há movimento da história. Pelo seu comportamento, os personagens de Hanya parecem habitar outro planeta – em um dado momento, um deles compra um manual de sexo para descobrir como dar mais prazer ao parceiro. Sério, na da internet alguém comprando (se é que alguém vende) manual de sexo?!
 
Mas a certa altura A LITTLE LIFE se torna refém de sua própria empreitada. É preciso fazer seu protagonista sofrer – mais, mais e MAIS!! – porque é a isso que o livro propõe: um retrato da crueldade do que o ser humano é capaz. Nessa empreitada, acaba arrancando até algumas lágrimas, mas é a custo muito alto: se tornando um livro inócuo.

A elite devassa de Beatriz Bracher

Em AZUL E DURA, Beatriz Bracher cria um retrato cínico e melancólico de uma elite devassa cujo modo de vida encerra-se em si mesma. A protagonista e narradora do romance Mariana, uma escritora que, numa viagem com os filhos adolescentes, revê seu passado, e um acidente que é serve como uma espécie de epicentro para sua percepção de mundo, e de sua posição no mundo: aquela que tudo pode.
 
Tudo em torno do acidente – se é que foi acidental – é nebuloso, e resultou na morte de uma garota com problemas mentais que vivia numa cadeira de rodas, cuidada pelo pai negligente e a mãe infeliz. O contraponto começa pelos dois mundos: o rico e glamoroso de Mariana em enfrentamento àquele seco, triste e sem perspectivas da menina e sua família, a quem a protagonista conhecia relativamente bem.
 
Em poucas páginas, e numa prosa cortante, a autora investiga o despertar de sua protagonista, que se dá conta do horror do abismo social país a partir do seu plano pessoal. Ela não sai, é claro, incólume da experiência, mas também não abre mão de sua posição privilegiada – se é que teria como.
 
Bracher é uma das autoras mais interessantes produzindo literatura no Brasil atualmente - ela também escreveu os roteiros de Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi, e O Abismo Prateado, de Karim Aïnouz. Aqui, vemos o que há de melhor em sua prosa que investiga a projeção não plano pessoal do universo social que cerca seus personagens.

As desilusões perdidas de Dana Spiotta

O romance EAT THE DOCUMENT, da americana Dana Spiotta, é uma investigação sobre dois momentos da contracultura de seu pais: no começo dos anos de 1970 (a ressaca da década anterior) e no final dos 1990 (o refluxo do neoliberalismo dos anos de 1980). Sua heroína é uma moça que em 1972 muda de identidade (uma estratégia típica de personagens americanos, desde seus fundadores, passando por Gatsby). Pouco sabemos sobre ela quando a narrativa começa – apenas que precisa se reinventar depois de uma ação guerrilheira. Sua primeira ação: tingir o cabelo de loiro.

Na outra ponta da trama, está Jason adolescente atípico do fin de siècle, que sente uma nostalgia pós-moderna de uma era que não viveu: os anos de 1960. Isso se materializa em sua obsessão pela música daquela época, colecionando não apenas álbuns oficiais, mas também bootlegs raros – especialmente dos Beach Boys.

Spiotta investiga as possibilidades dos movimentos políticos e culturais dos dois momentos. No passado (1960s-1970s), havia um senso utópico contra o sistema, havia comunidades e a tentativa de uma união – nem que fosse imaginária. No presente (1990s), a solidão consome as pessoas, diversos grupos de desconhecidos se reúnem numa livraria alternativa para discussões que não servem para nada, que não chegam a lugar algum. A grande diferença está talvez que no passado as pessoas agiam (para o bem e para o mal), e agora apenas discutem (colocando quase nada em prática).

Como é bem simples juntar os pontos, e deduzir os ecos do passado no presente da narrativa, percebe-se que não é o objetivo da autora construir um suspense – por isso, quando a “grande revelação” se dá no final é pouco surpreendente. O que a interessa são os impulsos históricos que estão por trás da ação de seus personagens. O que não está na trama, mas é o rolo compressor que separa os dois extremos é o neoliberalismo dos anos de 1980, que se materializa em sua ausência. O rapaz do presente cheio de desilusões com uma rebeldia ingênua é o resultado de uma força anterior a ele que aniquilou (sem que ele mesmo saiba) suas utopia (ou, ao menos, as possibilidades delas). Spiotta fez, em Eat the Document, um romance as desilusões perdidas, e os sonhos aniquilados.

O discreto modernismo tardio do escritor Tom McCarthy

A letra “C” do título do romance de Tom McCarthy (homônimo do diretor de “Spotlight”) pode se referir ao sobrenome do protagonista (Serge Carrefax), ou à cocaína (seu vício), ou ao CQ (do rádio amador da tecnologia que fascina o seu pai), ou, enfim, ao elemento químico Carbono presente em toda matéria orgânica, e também importante quando a trama se desloca para o Egito.
 
Nascido na virada do século XIX para o XX, Serge é filho de uma era, é uma criança que cresce cercada pela modernidade e excentricidade de seu pai – um inventor amador e diretor de escola para surdos (sua mãe é um ex-aluna) – num vilarejo na Inglaterra chamado Versoie. De equipamentos “eletrônicos” (a chegada de um rudimentar tipo de cinema rende uma das melhores cenas do romance) a tradições antigas (o teatrinho dos alunos é revelador) servem para moldar a personalidade inquisidora, inquieta e aventureira do rapaz, que logo irá para a Europa Continental e inclusive à Guerra.
 
McCarthy não é apenas escritor – é também autor de instalações e fundador da International Necronautical Society (uma organização semificcional, que ele criou com filósofo Simon Critchley, “devotada a projetos alucinantes que fariam pela morte aquilo que o Surrealismo fez pelo sexo”). Mas, como escritor, ele é um devoto e seguidor do modernismo.
 
Seu romance é inventivo, e trabalha de forma sutil com a linguagem (existe nele um discreto modernismo tardio), mas seu grande interesse está mesmo no projeto da modernidade enquanto uma espécie de mola propulsora da humanidade. O autor crê nisso em boa parte do tempo, mas há também um discreto cinismo de sua parte, e alguma desconfiança que é muito bem vinda. Com “C”, de 2010, McCarthy se consolidou como um dos escritores experimentais mais importantes da literatura inglesa contemporânea.