08/09/2026

A fragmentação do presente no romance de Rachel Cusk

OUTLINE, da inglesa Rache Cusk, não poderia ser um romance mais sincronizado com as narrativas do nosso tempo, aquelas que se dão pela disputa. Como indica o título, o romance é composto de pequenos “esboços” do que poderiam ser outros romances centrados em diversos personagens. A protagonista e narradora é uma escritora inglesa em Atenas, onde ministra um curso de escrita criativa.
 
Ao longo dos capítulos, essa mulher se encontra e interage com diversas pessoas – desde o homem da poltrona vizinha no avião até seus alunos. Cada encontro é um capítulo e uma pequena história que pode ser uma biografia ou apenas um episódio da vida desses personagens. É a polifonia de um coro grego que estrutura a narrativa. Aos poucos também descobrimos mais sobre essa protagonista, mas tudo nas entrelinhas.
 
E assim se dá o romance de Cusk sobre a pós-modernidade, na qual narrativas disputam o centro do palco, mas nenhuma é forte o bastante para ser a vencedora. Nem a da narradora/protagonista, cuja própria narrativa é a um fiapo que serve como substrato para as demais. É nessa fragmentação com começo, meio e fim que temos uma visão do presente: período de incertezas e inseguranças.

A cerveja nossa de cada dia num romance português

Cerveja é o pão na forma líquida, então Jesus Cristo e seus apóstolos certamente bebiam cerveja. Vinho era bebida de soldados romanos, dos invasores. “Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores [...] mas a dos pobres, das putas e dos pecadores. Isso que era cerveja, um símbolo do povo”, argumenta um professor num momento climático de JESUS CRISTO BEBIA CERVEJA, do português Afonso Cruz.
 
É nessa zona de estranhamento que se desenvolve a narrativa do romance, situado numa pequena aldeia do Alentejo, e povoado por tipos exóticos, no limite do realismo fantástico, mas que nunca se concretiza. É aquele tipo de literatura melancólica e dura – que me parece tão comum na produção portuguesa – numa região que parece perdida no tempo. Talvez o romance seja exatamente sobre isso, o fracasso de inclusão da modernidade.
 
A personagem central é Rosa, jovem que cuida da avó com Alzheimer, e sonha ir a Jerusalém, mas como elas não tem dinheiro, e mesmo que o tivessem, a mulher não teria condições de ir, a moça recria – com ajuda de um professor – a Terra Santa numa aldeia ao lado. Isso, que parece ser o acontecimento central do livro, não rende muito, na verdade. É curioso como esse fato que é tão alardeado na capa ocupe tão pouco dentro da narrativa.
 
Cruz escreve bem, mas uma coisa que me incomoda – não só no romance dele, em vários – é a busca exagerada e onipresente pelo exotismo de personagens. As figuras não podem ser apenas comuns, elas precisam de um algo de diferente para marcarem dentro da narrativa. Esse flerte, nunca assumido com o fantástico – especialmente na atmosfera – em alguns momentos, soa meio artificial.
 
Há passagens excelentes – como o “avião” usado para “levar” a avó à Terra Santa – mas que nem sempre se desenvolvem com toda sua potencia. É como se o autor fosse removendo tanto, tanto para fazer algo que beira o minimalismo, que algumas cenas parece me parecem mais o esboço daquilo que realmente poderiam ser.

Políticas da pós-modernidade em Estação Atocha

LEAVING THE ATOCHA STATION (no Brasil, “Estação Atocha”; trad. Gianluca Giulando), do americano Ben Lerner, é uma comédia melancólica com um subtexto político sutil sobre um jovem poeta americano, Adam Gordon, vivendo em Madri pouco antes do ataque terrorista de 2004 e as eleições poucos dias depois, das quais Zapatero saiu vitorioso.
 
Vivendo de uma bolsa para aprender espanhol e estudar a poesia do país pós-Franco, o protagonista passa o tempo fumando haxixe, visitando museus e olhando pinturas – sem avançar no seu espanhol ou pesquisa, que, na verdade, foi uma mera desculpa. Mentiroso compulsivo, Adam é uma personagem numa crise emocional profunda, mas com dificuldade de encarar isso, e, dessa forma, se deixa levar pelos outros, por suas próprias mentiras e dúvidas.
 
Sua vida é a materialização do mundo contemporâneo, onde uma espécie de simulacro substitui a experiência real, e apenas se acumulam sensações, em lugares de experiências. Seu vazio está nisso, na sua incapacidade de acessar a fonte primária – simbolizada por seu bloqueio em aprender espanhol e ler as poesias no original, por exemplo. A busca de sentido, para o personagem, passa pela arte e a política – diversas vezes Bush, presidente dos EUA no quando, é lembrado, assim como Franco e a polarização da Espanha naquelas eleições.
 
Lerner é poeta, e esse é seu primeiro romance, e o que é mais importante não é o que diz sobre seu personagem ou a Espanha, mas sobre os Estados Unidos. Não é preciso se deter no superficial e óbvio – o comum desinteresse americano pela cultura alheia é uma dessas coisas, e rende um comentário preciso do personagem num debate sobre “literatura hoje”. Leaving Atocha Station é o The Sun Also Rise do século XXI – com a diferença de que Lerner me parece melhor prosador do que Hemingway, entre outras coisas. Em sua busca vazia pelo preenchimento de seu vazio emocional e político, Adam materializa em si a jornada do herói rumo à perda da inocência.

O realismo fragmentado de Renata Adler

No posfácio da reedição de 2013, da New York Review of Books, de SPEEDBOAT, de Renata Adler, Guy Trebay diz que “os anos de 1970 foram a manhã seguinte dos anos de 1960 – a ressaca”. Publicado originalmente em 1976, o romance é a ressaca da ressaca. Composto mais de fragmentos narrados por uma repórter observadora, o livro é uma tentativa de compreender o vazio existencial que se abateu na década posterior àquela dos protestos e do espírito revolucionário – quando se imaginava que o mundo era passível de mudança.
 
Em seu realismo fragmentado, Adler – jornalista experiente que entrou na New Yorker em 1962 – figura as possibilidades do fracasso das utopias do passado. Seus personagens, a maioria sem nome, que figura em algo não muito maior que uma anedota, são pessoas de classe média, acadêmicos, gente de cinema, jornalistas, boêmios, hippies tardios, empresários e afins. Em seus mundinhos, ilustrados por historietas, a maioria cômicas, vemos desmoronar os projeto de um mundo mais igualitário e generoso que possa ter existido nos anos anteriores.
 
A fragmentação na narrativa materializa o aspecto individualista que começa a se fomentar, e irá se decantar na década seguinte. Speedboat é um excelente romance que cristaliza em si a pós-modernidade, que ele mesmo ilustra. Estão em sua narrativa a ausência de historicidade (quando se passam as historinhas? Quando é passado? Presente? Futuro?), a fragmentação, entre outras coisas. É um romance de observação sobre um mundo em ressaca, em transformação, tentando lidar com a frustração das utopias abortadas. É, por fim, um romance melancólico, especialmente se tivermos em mente o que veio na década seguinte.

Um extraterrestre meio hippie

Parafraseando a famosa frase de Jameson, em CHOCKY, é mais acreditar acreditar que seu filho está possuído por um alienígena do que pensar em mudar o mundo. Matthew tem um amigo imaginário chamado Chocky. No começo, seus pais, não se importam muito, pois a irmãzinha dele também já teve um, e acabou esquecendo. O problema é que Chocky começa a fazer perguntas estranhas, elabloradas demais para a pouca idade do garoto, que também passa a ter um comportamento estranho, com atitudes que não condizem com sua idade.

Nesse romance, publicado em 1968, John Wyndham cria uma fábula sobre a nossa capacidade de conceber uma utopia e os limites de nossa imaginação e avanços. É curioso que o livro esteja na contramão do que foi típico nos anos anteriores nos romances sobre contatos e possessão alienígena: o extraterreste aqui é totalmente do bem – ao contrário de, por exemplo, Os Invasores de Copos/The Body Snatchers, de Jack Finney, publicado em 1954.

Chocky, que é uma criatura de outro planeta, não tem forma – explicitando nossa dificuldade em lidar com o Outro – e seus conselhos ecológicos parece, muitas vezes, em sintonia com a cultura hippie. Wyndham encontra uma forma muito interessante de explicitar o avanço da outra civilização em relação aos terráqueos: na linguagem. Matthew não é capaz de verbalizar ou compreender tudo o que ela diz, e até quando ela o toma, e “fala” por meio dele, o pai do garoto – narrador do romance e voz da razão – não consegue entender algumas palavras, no livro, grafadas como xxxxxxx.

Steven Spielberg comprou, uns anos atrás, os direitos para adaptar o romance – e é algo que faz muito sentido dentro da obra e dos interesses dele (contato extraterreste, a transformação da criança...) – tanto que ele já fez um filme, que, senão inspirado em Chocky, ao menos, influenciado pelo livro: E.T.

Sula, de Toni Morrison

 
É curioso que SULA leve o nome da personagem que custa a aparecer no romance, some, e volta só para fazer o mal. Não deve ser por acaso, claro, que a escritora Toni Morrison (que completa 85 anos hoje) a escolheu para ser a protagonista da narrativa, que acompanha cerca de 50 anos num lugar chamado de The Botton – apesar de ficar no topo de uma montanha – lugar dado a um ex-escravo, porque a terra lá nada valia, e levou esse nome porque quando Deus olha para eles, Ele olha para baixo, e os vê antes dos brancos, por estarem num região mais alta. Esse é o argumento dado ao homem para aceitar a terra. 
 
Sula e Nel se tornam amigas na infância, mas não poderiam ser mais diferentes. Seus destinos se cruzam e se afastam ao longo dos anos. Sula vem de uma família repleta de tragédias e figuras estranhas – beiram algo do realismo mágico -, e é neta de uma avó que enriqueceu de forma inexplicável. Já Nel é de uma família de trabalhadores, e assim continuará para sempre.
 
Narrado de forma episódica o romance vai de 1919 até 1965 – ano do assassinato de Malcolm X, da Marcha de Selma a Montgomery, entre outros acontecimentos importantes para o movimento. É claro que Morrison não escolheu esse ano por acaso. O último capítulo começa “Things were so much better in 1965. Or so it seemed.” Talvez o que a autora queira – com as paixões desenfreadas, os esforços para adaptação social de algumas personagens – é criar uma alegoria para os caminhos de um movimento que está para eclodir no fim da narrativa. Acho que nem sempre ela sucede muito – em seu primeiro romance, THE BLUEST EYE, o resultado é bem melhor. Ainda assim, sua prosa precisa – ao mesmo tempo lírica e cortante –, no entanto, é capaz de transcender gênero, ao mesmo tempo que levanta bandeiras.

A duplicidade nos Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende

A voz da narradora de OUTROS CANTOS, novo romance da premiada escritora Maria Valéria Rezende, é sedutora. Seduz com suas idas e vindas entre passado e presente num fluxo de memória e observação. Acompanhamos dois momentos da vida dessa mulher chamada Maria.

 

Quatro décadas atrás foi para o Sertão do nordeste, numa pequena cidade para onde ninguém queria ir, para implementar educação para jovens e adultos. Porém, os tramites legais demoram, e ela trava amizade com os moradores e até trabalha com eles. No presente, essa mesma mulher está numa viagem de ônibus para visitar esse mesmo lugar, e puxa, pelo fio da memória, esse passado e outros mais distantes, na Argélia, México.

 

É nesse diálogo entre o onírico e o real que se constitui a trama narrativa de Outros Cantos. Há uma figura que a acompanha desde sua juventude, quando o conheceu no Rio, e deixou-lhe um pequeno souvenir de sua Harley-Davidson. Ao longo dos anos, ela o reencontrou – e sempre deixa um pequeno objeto. No Sertão não foi diferente. Guarda tudo em uma caixinha, e são suas lembranças mais caras. Sobre essa figura, é claro, pairam dúvidas: existe mesmo, sempre é ele, aqueles objetos foram realmente deixados para ela ou apenas perdidos.

 

Enquanto traça essa jornada pessoal – que beira uma amorosa – Maria Valéria paralelamente retrata as mudança nos 40 anos dessa região esquecida no mundo. São pequenos detalhes – como já ocorria em seu premiado QUARENTA DIAS – que dão conta dessas transformações sociais e culturais. Nesse sentido, chega a ser um livro político, seja no trabalho da professora quando jovem com seu idealismo numa região marcada pelos mandos e desmandos de coronéis e afins, ou pela mudança de um presente em transformação.

 

Outros Cantos se constrói, então, pelas dicotomias de tempo, de ponto de vista (de uma mesma narradora), de um lugar. Faz o retrato de um Brasil em transformação, e todas as consequências – positivas e negativas – disso tudo. A prosa de Maria Valeria é certeira, e seu olhar nos torna cúmplices desse retrato.

Um grande romance russo contemporâneo

O romance russo THE BIG GREEN TENT, de Ludmila Ulitskaya (Trad. Polly Gannon), é sobre livros e o seu poder libertador e subversivo. Num dos capítulos, uma jovem, ao invés de mandar o dinheiro para os avós, compra um dos últimos pares de bota numa loja em liquidação. O calçado ficou grande, e para seus pés não ficarem dançando lá dentro, arranca todas as folhas de um livro, faz bolinhas para encher as botas. Horas depois, a KGB está em sua casa em busca de material subversivo de seu padrasto. Revira tudo, e depois de horas, não encontra nada. Quando vão embora, o padrasto espantando diz para a família: “Mas havia um exemplar do Arquipélago Gulag debaixo da mesa?!”, algo que certamente acarretaria em sua prisão. Apenas nós, leitores, e a garotas sabemos do destino do livro. Algo que ela fez de errado acabou salvando sua família.
 
Esse é só um dos exemplos dos episódios domésticos, ao longo de quase 600 páginas, que compõem um painel histórico da vida na Rússia Soviética até próximo de seu desmantelamento. Os protagonistas são três amigos de infância – que se intitulam o Trianon – e suas idas e vindas, desde a época da morte de Stalin. Mas, por boa parte, a autora os deixa fora de cena, dando voz a diversas outras figuras de outros extratos sociais, e com destinos variados.
 
Não são apenas os personagens que ganham um tratamento diferenciado aqui. O tratamento que Ludmila dá ao tempo da narrativa é muito peculiar. Um certo capítulo, por exemplo, pode conter a vida inteira de uma personagem – culminando em sua morte. O que não impede a escritora de dissecar outros episódios dessa figura ao longo da narrativa posterior, causando um efeito de desorientação temporal, que parece cristalizar algo parecido com que ela mesma enfrentou nos passado, quando a União Soviética parecia viver num tempo e ritmo próprios.
 
A estrutura panorâmica do livro lhe dá a chance de investigar a vida, os tempos e o destinos de todos os personagens, até os mais coadjuvantes. É como se todos aqui tivessem um momento de protagonismo e a chance de ir até o proscênio e narrar a sua história.

Uma mulher chamada Olive Kitteridge

A protagonista que dá título à série OLIVE KITTERIDGE é uma mulher que todos chamariam de difícil. Sem qualquer trava na língua, egoísta e mesquinha, ela seria insuportável, não fosse a tremenda dose de humanidade que a atriz (e produtora do programa) Frances McDormand traz para ela – algo que já estava presente no “romance em contos”, de Elizabeth Strout, que ganhou o Pulitzer para ficção em 2009.

 

Dirigido por Lisa Cholodenko, a série, em 4 episódios, acompanha alguns anos na vida de Olive, professora de matemática, numa pequena comunidade costeira. O primeiro capítulo começa com ela, com um semblante desesperado, estendendo uma toalha numa clareira, ligando um rádio de pilhas, e preparando um revólver com o qual (aparentemente) irá se matar. A trama, então, votará no tempo para contar o que aconteceu nas últimas décadas para chegar até ali.

 

Deixando completamente de lado, ou tocando de leve, em alguns personagens e tramas coadjuvantes do livro, a série traz Olive como o seu fio condutor, como a observadora e juíza solitária para si mesma daqueles que a cercam. O que dita o ritmo aqui é o fluxo da vida com seus altos e baixos, e momentos inesperados – por isso talvez tanto personagem morre sem muito avisar (especialmente no 1o episódio).

 

Frances que comprou o direito de adaptação do livro assim que saiu está (como sempre) magnífica como essa mulher (aparentemente) sem muito amor no coração, mas que, no fundo, é tão perdida na vida quanto todos os outros que a cercam.