Alysson Oliveira
Letras e fotogramas
A cerveja nossa de cada dia num romance português
- Por Alysson Oliveira
- 16/03/2016
Políticas da pós-modernidade em Estação Atocha
- Por Alysson Oliveira
- 14/03/2016
O realismo fragmentado de Renata Adler
- Por Alysson Oliveira
- 07/03/2016
Um extraterrestre meio hippie
- Por Alysson Oliveira
- 25/02/2016
Parafraseando a famosa frase de Jameson, em CHOCKY, é mais acreditar acreditar que seu filho está possuído por um alienígena do que pensar em mudar o mundo. Matthew tem um amigo imaginário chamado Chocky. No começo, seus pais, não se importam muito, pois a irmãzinha dele também já teve um, e acabou esquecendo. O problema é que Chocky começa a fazer perguntas estranhas, elabloradas demais para a pouca idade do garoto, que também passa a ter um comportamento estranho, com atitudes que não condizem com sua idade.
Nesse romance, publicado em 1968, John Wyndham cria uma fábula sobre a nossa capacidade de conceber uma utopia e os limites de nossa imaginação e avanços. É curioso que o livro esteja na contramão do que foi típico nos anos anteriores nos romances sobre contatos e possessão alienígena: o extraterreste aqui é totalmente do bem – ao contrário de, por exemplo, Os Invasores de Copos/The Body Snatchers, de Jack Finney, publicado em 1954.
Chocky, que é uma criatura de outro planeta, não tem forma – explicitando nossa dificuldade em lidar com o Outro – e seus conselhos ecológicos parece, muitas vezes, em sintonia com a cultura hippie. Wyndham encontra uma forma muito interessante de explicitar o avanço da outra civilização em relação aos terráqueos: na linguagem. Matthew não é capaz de verbalizar ou compreender tudo o que ela diz, e até quando ela o toma, e “fala” por meio dele, o pai do garoto – narrador do romance e voz da razão – não consegue entender algumas palavras, no livro, grafadas como xxxxxxx.
Steven Spielberg comprou, uns anos atrás, os direitos para adaptar o romance – e é algo que faz muito sentido dentro da obra e dos interesses dele (contato extraterreste, a transformação da criança...) – tanto que ele já fez um filme, que, senão inspirado em Chocky, ao menos, influenciado pelo livro: E.T.
Sula, de Toni Morrison
- Por Alysson Oliveira
- 18/02/2016
A duplicidade nos Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende
- Por Alysson Oliveira
- 15/02/2016
A voz da narradora de OUTROS CANTOS, novo romance da premiada escritora Maria Valéria Rezende, é sedutora. Seduz com suas idas e vindas entre passado e presente num fluxo de memória e observação. Acompanhamos dois momentos da vida dessa mulher chamada Maria.
Quatro décadas atrás foi para o Sertão do nordeste, numa pequena cidade para onde ninguém queria ir, para implementar educação para jovens e adultos. Porém, os tramites legais demoram, e ela trava amizade com os moradores e até trabalha com eles. No presente, essa mesma mulher está numa viagem de ônibus para visitar esse mesmo lugar, e puxa, pelo fio da memória, esse passado e outros mais distantes, na Argélia, México.
É nesse diálogo entre o onírico e o real que se constitui a trama narrativa de Outros Cantos. Há uma figura que a acompanha desde sua juventude, quando o conheceu no Rio, e deixou-lhe um pequeno souvenir de sua Harley-Davidson. Ao longo dos anos, ela o reencontrou – e sempre deixa um pequeno objeto. No Sertão não foi diferente. Guarda tudo em uma caixinha, e são suas lembranças mais caras. Sobre essa figura, é claro, pairam dúvidas: existe mesmo, sempre é ele, aqueles objetos foram realmente deixados para ela ou apenas perdidos.
Enquanto traça essa jornada pessoal – que beira uma amorosa – Maria Valéria paralelamente retrata as mudança nos 40 anos dessa região esquecida no mundo. São pequenos detalhes – como já ocorria em seu premiado QUARENTA DIAS – que dão conta dessas transformações sociais e culturais. Nesse sentido, chega a ser um livro político, seja no trabalho da professora quando jovem com seu idealismo numa região marcada pelos mandos e desmandos de coronéis e afins, ou pela mudança de um presente em transformação.
Outros Cantos se constrói, então, pelas dicotomias de tempo, de ponto de vista (de uma mesma narradora), de um lugar. Faz o retrato de um Brasil em transformação, e todas as consequências – positivas e negativas – disso tudo. A prosa de Maria Valeria é certeira, e seu olhar nos torna cúmplices desse retrato.
Um grande romance russo contemporâneo
- Por Alysson Oliveira
- 11/02/2016
Uma mulher chamada Olive Kitteridge
- Por Alysson Oliveira
- 10/02/2016
A protagonista que dá título à série OLIVE KITTERIDGE é uma mulher que todos chamariam de difícil. Sem qualquer trava na língua, egoísta e mesquinha, ela seria insuportável, não fosse a tremenda dose de humanidade que a atriz (e produtora do programa) Frances McDormand traz para ela – algo que já estava presente no “romance em contos”, de Elizabeth Strout, que ganhou o Pulitzer para ficção em 2009.
Dirigido por Lisa Cholodenko, a série, em 4 episódios, acompanha alguns anos na vida de Olive, professora de matemática, numa pequena comunidade costeira. O primeiro capítulo começa com ela, com um semblante desesperado, estendendo uma toalha numa clareira, ligando um rádio de pilhas, e preparando um revólver com o qual (aparentemente) irá se matar. A trama, então, votará no tempo para contar o que aconteceu nas últimas décadas para chegar até ali.
Deixando completamente de lado, ou tocando de leve, em alguns personagens e tramas coadjuvantes do livro, a série traz Olive como o seu fio condutor, como a observadora e juíza solitária para si mesma daqueles que a cercam. O que dita o ritmo aqui é o fluxo da vida com seus altos e baixos, e momentos inesperados – por isso talvez tanto personagem morre sem muito avisar (especialmente no 1o episódio).
Frances que comprou o direito de adaptação do livro assim que saiu está (como sempre) magnífica como essa mulher (aparentemente) sem muito amor no coração, mas que, no fundo, é tão perdida na vida quanto todos os outros que a cercam.
