27/10/2026

Uma mulher chamada Olive Kitteridge

A protagonista que dá título à série OLIVE KITTERIDGE é uma mulher que todos chamariam de difícil. Sem qualquer trava na língua, egoísta e mesquinha, ela seria insuportável, não fosse a tremenda dose de humanidade que a atriz (e produtora do programa) Frances McDormand traz para ela – algo que já estava presente no “romance em contos”, de Elizabeth Strout, que ganhou o Pulitzer para ficção em 2009.

 

Dirigido por Lisa Cholodenko, a série, em 4 episódios, acompanha alguns anos na vida de Olive, professora de matemática, numa pequena comunidade costeira. O primeiro capítulo começa com ela, com um semblante desesperado, estendendo uma toalha numa clareira, ligando um rádio de pilhas, e preparando um revólver com o qual (aparentemente) irá se matar. A trama, então, votará no tempo para contar o que aconteceu nas últimas décadas para chegar até ali.

 

Deixando completamente de lado, ou tocando de leve, em alguns personagens e tramas coadjuvantes do livro, a série traz Olive como o seu fio condutor, como a observadora e juíza solitária para si mesma daqueles que a cercam. O que dita o ritmo aqui é o fluxo da vida com seus altos e baixos, e momentos inesperados – por isso talvez tanto personagem morre sem muito avisar (especialmente no 1o episódio).

 

Frances que comprou o direito de adaptação do livro assim que saiu está (como sempre) magnífica como essa mulher (aparentemente) sem muito amor no coração, mas que, no fundo, é tão perdida na vida quanto todos os outros que a cercam.

O menino é o pai do homem no romance "Aos 7 e aos 40"

AOS 7 E AOS 40 é um livro bonito, um livro que se lê rápido – li numa tarde – com sua prosa fluida e honesta, e, por isso mesmo, parece difícil falar dele. O primeiro romance do contista João Anzanello Carrascoza se constrói em duplicidades, como já implicado no título. Em suas páginas verdes – sim, as folhas são verdes e o texto disposto de forma pouco convencional - constrói dois momentos da vida de um personagem sem nome.
 
Como sabemos, o menino é o pai do homem, e experiências da infância irão reverberar no presente, tudo visto pelo prisma de um narrador que parece bastante familiar com essa figura, mas, ao mesmo tempo, mantém um olhar quase documental. Os capítulos se alternam com títulos como Depressa, Devagar; Dia, Noite; Silêncio, Som, e assim por diante - o que me parece criar uma espécie de amarrar para estabelecer a dinâmica de pontos e contrapontos, que não me parece chegar a um dialética.
 
O que mais me agrada é a prosa seca, quase dura, de Carrascoza que materializa na forma uma ambição de seu personagem, a de “ler as pessoas”. O lirismo do texto vem exatamente da sua contenção, de uma narração que não se desvia, que não se seduz por palavras poéticas. Mais do que de forma dicotômica, o autor constrói a narrativa de forma circular, e ao final, tenta juntar das duas pontas do título.

Um romance mexicano colaborativo

Não fosse um tremendo livro, THE STORY OF MY TEETH, da mexicana Valeria Luiselli, já seria interessante por sua concepção. Conforme ela conta num posfácio, o romance é resultado de um projeto colaborativo entre ela e trabalhadores da fábrica de suco Jumex nos arredores da Cidade do México. Ela escrevia os capítulos, mandava para eles, que liam e discutiam, e a gravação era mandada de volta para ela em Nova York, e ela mexia no que já foi escrito, e avançava na narrativa. O processo é todo detalhado, mas ela resume numa fórmula: Dickens + mp3 ÷ Balzac + jpge. O romance é composto, então, por histórias contadas pelos trabalhadores e também imagens, tudo isso moldando pelas mãos e imaginação da escritora.
 
Não bastasse tudo isso, ela escreve muito bem. Acho que uma pessoa de 30 anos (a idade dela quando lançou em 2013) não tem o direito de escrever tão bem assim. Imagina. Mas, enfim, ela escreve, e como em seu Rostos na Multidão prossegue com uma investigação sobre a fragmentação dos nossos tempos. Composto originalmente de 6 blocos, o romance narra a história de Gustavo Sánchez Sánchez, mais conhecido como Highway, um leiloeiro de sucesso no México, que trocou todos os seus dentes estragados por os de Marilyn Monroe, que ele comprou num leilão. Com sua arcada, fez um outro leilão, dizendo que os dentes são de figuras famosas, como Platão, Petrarca e Virginia Woolf.
 
É fácil entender como as pessoas caem no papo do sujeito, porque ele é bom de conversa, e bom de contar história – e isso fica claro ao longo do romance em 1a pessoa. Ele resgata toda sua trajetória desde funcionário de fábrica de sucos (sim, aquela mesma) até o presente com os (supostos) dentes da diva na boca. Luiselli, por sua vez, investiga um esvaziamento da historicidade simbolizado nos lotes que o protagonista leiloa.
 
A edição em inglês é traduzida por Christina MacSweeney, que também compôs um capítulo final, uma cronologia (tomara que a edição brasileira, prevista para sair ainda esse ano também traga), que não está no original mexicano. Conforme diz a autora no posfácio, ela prefere chamar de versão, ao invés de tradução, pois ela mesma revisa e modifica, junto com a tradutora, ressaltando o carácter colaborativo desde a origem deste romance. 

A Euforia de uma antropóloga

Deviam ser interessantes os primórdios da antropologia, quando cientistas procuravam e encontravam uma tribo para chamar de sua, e depois apresentariam ao mundo civilizado a “cultura bárbara”. Em EUPHORIA, a escritora americana Lily King se inspira numa figura importante desse período, a antropóloga Margaret Mead, cujo “Coming Age in Samoa”, de 1928, chocou e confrontou os EUA com seus relatos sobre o amadurecimento sexual de adolescentes da ilha de Ta’u. O que a pesquisadora e essa ciência fizeram foi apresentar ao mundo um modo de vida completamente diferente daqueles que conhecia.
 
A protagonista de King é Nell, jovem antropóloga em viagem com o marido, Fen, quando conhecem Bankson, que também é o narrador. Todos são antropólogos, e todos buscam desvendar mistérios de sociedades “primitivas”. Só ela, no entanto, até agora teve algum sucesso cujo livro causou alvoroço não apenas no meio acadêmico. Esses personagens são inspirados em Mead e seu segundo e terceiro marido.
 
Enfim, quando encontram uma tribo, os três acabam confinados ao mesmo ambiente por algum tempo, e surge uma tensão sexual entre eles. Isso é o que parece pautar a narrativa, mas não é o real interesse da autora. Sua investigação é sobre as dinâmicas sociais e individuas que aproximam e afastam as pessoas, e o quanto o trabalho do cientista social é capaz de perceber isso.
 
King, enfim, busca um paralelo entre a literatura e antropologia no sentido de ambos desvendar arranjos sociais – a primeira, na forma –, e a função do escritor e cientista em meio a tudo isso. O trio cria uma tabela chamada de Grid, no qual dividem as pessoas, as sociedades, as civilizações em 4 tipos. É uma classificação mais pragmática do que reveladora ou analítica. A questão é que mais tarde, contado por um velho Bankson, en passant, o mesmo Grid foi usado pelos nazistas visando a eugenia – o que o fez renegar a tabela, e pedir que fosse removido de todos os lugares onde aparecia.
 
Esse relato final de Euphoria revela, então, as verdadeiras intenções de autora ao questionar os critérios e classificações que determinam o que seria civilizado e o que seria primitivo. E suas consequências, desde as pesquisas dos protagonistas nas comunidades até num plano maior com a ascensão dos regimes fascistas.

Pessoas na multidão

“Cuidado! Se brinca de fantasma, em um se transforma”, diz a epígrafe atribuída à Cabala de ROSTOS NA MULTIDÃO, da mexicana Valeria Luiselli. Seu romance polifônico, meio pós-moderno e empolgante vai jogar exatamente com isso: com a vida e a morte, e a morte em vida. Composto de segmentos, o livro acompanha uma escritora-narradora que mora na Cidade do México relembrando sua história de quando morava em Nova York, e se dedicou à pesquisa sobre a vida do obscuro poeta mexicano Gilberto Owen, que mora em Nova York. Ao mesmo tempo, a narrativa – todas em 1a pessoa – acompanha o próprio, enquanto ela mesma tenta escrever um romance meio autobiográfico, meio metalinguístico.
 
A descrição de Rostos na Multidão pode fazer parecer um romance intelectualóide, mas se tem uma coisa que a escritora não tem é pedantismo. Pelo contrário, sua prosa é clara e honesta, e seus jogos narrativos se justificam na medida em que sua trama é em si um jogo entre realidade e ficção, mas, acima de tudo, construção de realidades. Quem é Owen? Quem é essa narradora sem nome que tenta organizar tudo? Seria ela Valeria? Mas existe uma outra narradora que, certamente, escreve uma ficção. Seu livro é como bonequinhas russas, só que mexicanas.
 
Enquanto medita sobre a posição da literatura norte-americana em relação à literatura do centro do capitalismo – especialmente em tempos de World Literature –, a escritora evita todos os clichês que se costuma esperar do “gênero”. Seu assunto não são as drogas, nem a pobreza dessa parte do continente. Nem quando se vale de uma fantasia, se aproxima de García Marquez. Seu realismo mágico é diferente.
 
Já próximo do final do livro, Owen fica obcecado com o fato de que está se transformando num fantasma. Todos os dias se pesa, e sempre emagreceu. Ele não está morrendo. Está sumindo. Evaporando. É a cartada final de Luiselli e da narradora-personagem-escritora sobre a fugacidade das relações humanas e da literatura. O ponto em que o poeta efetivamente desaparece pode ser tão meditado quanto aleatório – tal qual o final de uma narrativa.

Romance francês dá voz aos silenciados de O Estrangeiro

THE MERSAULT INVESTIGATION (no francês original, “Mersault, contre-enquête”), do jornalista argelino Kamel Daoud, é, geralmente, chamado de uma releitura de O ESTRANGEIRO, de Albert Camus, mas eu acho que a palavra ‘resposta’ é mais honesta. Publicado na França em 2013, o romance dialoga com a obra original ao contar uma história a partir do ponto de vista daqueles que lá são silenciados. Aqui, o narrador/protagonista/foco narrativo é o irmão do personagem chamado apenas de O Árabe no livro original, que irá contar a história de vida de seu irmão e o que aconteceu com sua família depois do assassinato.
 
A estrutura estabelece um diálogo do narrador com o leitor – que se materializa na figura de um estudante com quem ele conversa num bar (algo parecido com o que Moshin Hamid fez em THE RELUCTANT FUNDAMENTALIST). Num fluxo que combina diversos momentos do passado dele e sua família, ele vai e volta no tempo, e resgata numa intertextualidade discreta a narrativa do Estrangeiro. Daoud não faz de seu romance um espelho do de Camus, não, ele cria uma trama própria, mas que, a partir de agora, deve ser impossível reler o original sem ler este.
 
Escrevendo em francês, Daoud toma a língua do colonizador para si, e faz dela o seu instrumento, esmiuçando um passado colonial, e um futuro e um presente de incertezas. No momento em que vivemos – especialmente com a xenofobia crescente – a voz do autor surge com força, levantando questionamentos e clamando uma revisão histórica.
 
Creio que muita atenção se deu ao livro de Houellebecq, SUBMISSÃO, mas acho que esse, sim, é o livro importante, que merece ser lido e entrar para a posteridade. Está previsto para ser lançado no Brasil ainda esse ano.

A Pureza do novo romance de Jonathan Franzen

Em PURITY, Jonathan Franzen exibe o que há de melhor e pior em sua literatura. Como já se percebera em The Corrections e Freedom, ele é obcecado em escrever The Great American Novel – mas como já disse genialmente Frank Norris: “the Great American Novel is not extinct like the dodo, but mythical like the hippogriff.” E para ele, essa criatura mítica se parece com um gigantesco romance realista do século XIX. Não à toa há sempre algo meio empoeirado em seus livros – por mais que ele situe esse no nosso presente, com vazamentos de informação na internet, denúncias e um dublê de Assange. Há momentos que beiram a genialidade – especialmente nos diálogos com frases ácidas, respostas rápidas – mas, como é comum em seus livros, falta um editor com colhões para cortar, para tirar os excessos.
 
A questão central para o autor – e só agora percebo com bastante clareza – são teias familiares (mais do que laços de família). São as relações que se estabelecem e pesam na formação e ação de suas personagens – especialmente, aqui, Purity ‘Pip’ Tyler, a protagonista que some durante meia parte do livro, mas que serve como liga para todas as tramas. É seu livro mais bem resolvido em seu achatamento da história ao fazer uma ponte entre o desmantelamento da Alemanha comunista e a era das informações vazadas digitalmente. Mas também acho que dá para notar as gotas de suor do esforço de Franzen lapidando o texto.
 
Ainda assim – apesar de todas as falhas – é um livro que se lê com certo prazer. Creio que isso está exatamente ligado a essa prosa realista que flui fácil, e mantém as páginas correndo. Curiosamente, a personagem central é a menos interessante, menos complexa. Daí é de se pensar que o título se refira mais à pureza das ações – boas ou ruins das personagens – do que à garota.

Não é fácil ser Deus, uma grande ficção científica russa

“Hard to be a God”, de Aleksey German, é um pesadelo do qual eu não queria acordar. Não é um filme ruim – pelo contrário, é genial, por isso queria que durasse mais (3 horas não me bastaram!). Sua parte pesadelo é porque se passa na Idade Média, com tudo aquela “mitologia”, que criamos sobre o período – gente e ambiente sujos, cadáveres em decomposição, lama, doenças etc. Mas o filme não se passa na Terra – está situado no planeta Arkanar, onde um grupo de cientistas terráqueos foram mandados para o estudar – “por ser mais próximo, por ser menor do que outros planetas”. Só podem observar, não podem interferir – daí o título, pois o protagonista, Dom Rumata, não pode fazer nada para que aquelas pessoas se afundem ainda mais, ele é um deus que apenas observa e se aflige. Ainda assim, quando os intelectuais são ameaçados, ele toma partido.


Talvez seja um filme sobre a razão e a cientificidade, mas também é um filme sobre o obscurantismo – e, claro, vai ecoar em nosso tempo. Não temos a peste negra, mas temos outros tipos de pestes causadas pelo sono da razão. Estamos, dentro da narrativa, tão perdidos como Rumata, pois esse mundo lembra o nosso, mas não *é* o nosso.


Baseado num romance dos Strugatsky – os mesmos autores cujo Roadside Picknick serviu de base para STALKER – essa ficção científica traz uma câmera que parece testemunhar as cenas, mas do que enquadrar – personagens olham para as lentes como quem olha para uma mancha na parede, com uma feição inquisitiva, em outros momentos ficam em frente, tapando a visão etc. É o inferno de Dante – como apontou Umberto Eco – e também o último filme do diretor que morreu no processo de montagem.


Sua narrativa barroca pouco explica, só nos joga o meio desse inferno na “Terra”, nossa solução e se “aliar” a Rumata – teríamos outra opção? Ele é o foco narrativo aqui... – e explorar esse universo. German deixou um testamento sobre o mundo e sobre o papel da arte e razão num tempo que essas se esvaziam – mas com esse filme, prova que ainda há fissuras de onde elas podem emergir.

Da improdutividade e a falta de saúde: o caso de "Para Sempre Alice"

Em Para Sempre Alice, há uma cena que passa quase despercebida, mas que é bastante reveladora. Da trama, todo mundo sabe o ponto de partida: linguista brilhante e professora universitária é diagnosticada com Alzheimer e sua vida – qual sua memória – começa a desmoronar. O momento a que me refiro no filme acontece um pouco antes da metade, quando a protagonista precisa contar o que está acontecendo com ela ao chefe do departamento da universidade onde leciona. Depois de alguma hesitação – quando ele mostra para ela o feedback negativo dado pelos alunos no final do semestre sobre as aulas dela – Alice assume a sua condição, e uma das primeiras reações do seu colega é: como ela poderá dar aulas nesse estado? Bem, conclui ele, ela não poderá.
 
A questão que emerge então do filme é: na sociedade em que vivemos só temos valor enquanto somos produtivos?Num mundo competitivo como o acadêmico, Alice desapareceu por não poder mais dar aulas, publicar artigos, participar de congressos. Todo seu trabalho pregresso – que, assume-se é (era?) bastante respeitado – parece evaporar. O grande problema para a maioria das pessoas que a cercam – excetuando sua família – é que não será mais capaz de trabalhar. Não há dúvida de que o trabalho é uma esfera bastante importante da vida social e privada, e, no caso de Alice, seria uma motivação a mais, mas, reduzir toda uma vida a essa questão é reduzir a existência de uma pessoa.
 
Alguns anos atrás, Longe Dela, protagonizado por Julie Christie, trazia uma personagem com a mesma condição. Como ela tinha mais idade do que Alice, a questão era outra: qual era seu lugar na sociedade? A problemática central do filme – inspirado num conto da Nobel canadense Alice Munro – era sobre o casamento, sobre a dissolução da relação entre a personagem e o marido.
 
A produtividade – especialmente para o modelo de sociedade americano – se tornou a questão central do nosso mundo, vide a quantidade de cursos, livros, manuais que falam do universo do trabalho, que explicam como tirar mais proveito do tempo de trabalho etc. Uma pessoa como Alice está condenada – menos por seu problema de saúde e mais por não poder trabalhar. O filme, no entanto, se concentra na relação dela com a família e os cuidados que isso implica. Novamente o trabalho é um problema que interfere: quem poderá abandonar “sua vida” para cuidar da mãe debilitada? Seu marido/professor, médico renomado, se esforça, mas tem ambições concretas demais para deixar tudo de lado. Caberá à filha atriz abrir mão de seus projetos para mudar de Los Angeles para Nova York, e cuidar de Alice.