09/09/2026

Duas cidades e um grande romance

The City and The City, já lançado aqui como A Cidade e a Cidade (pela Boitempo), é uma das coisas mais sofisticadas e complexas que se pode ter. China Mieville é um dos grandes escritores do nosso tempo – e nem entro na questão de gênero: SF, weird fiction, que não importa aqui. Ele é grande, e ponto. Ele é um escritor de geografias, de construção e ocupação de espaços – e, nesse sentido, cria universos próprios que são uma versão distorcida, aumentada do nosso próprio. Aqui a geografia são duas cidades que ocupam exatamente o mesmo espaço. Custa um pouco a entender – e nem sei se entendemos mesmo a dinâmica. Beszel é melancólica, decadente, enquanto Ul Qoma é vibrante, repleta de vida e perspectivas. Quando um corpo de uma mulher é encontrada na primeira, um detetive local começa a investigar, e percebe que o assassinato envolve o trânsito entre as duas cidades. Há também um poder pouco conhecido, chamado de Brecha (nome mais sugestivo!), que monitora as ações entre as duas cidades.
Cada pessoa que vive numa delas não pode ver os cidadãos da outra, nem as ruas, nem transitar – é preciso passaporte e visto. Quando eventualmente vê alguém, é preciso “desver” – surge aí o paradoxo como ignorar aquilo que já se tem ciência? Ver alguém é um crime. Acho que é nesse paradoxo que a trama caminha: como lidar com o outro, como aceitar. A narrativa segue mais ou menos os moldes de procedimento policial, e encontre uma trama sórdida de fundo político.
Acho TC&TC tão complexo e bonito quanto Perdido Street Station – meu livro favorito do ano passado. Aqui, o romance é uma mistura de Philip K. Dick com John le Carré, e em si faz uma observação sobre a necessidade de convivência com o outro – ao contrário de algumas de suas obras mais famosas, os personagens não são pós-humanos, alienígenas ou que seja, são todos humanos, o que só faz do livro algo mais contundente.

Um Saramago que não foi acabado

“Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas” é o romance inacabado de José Saramago que encontraram no computador dele, e a Cia das Letras publicou no final do ano passado – a razão disto, para mim, não fica clara. O romance é o que é: menos de 50 páginas de uma obra em andamento na qual o autor mexeu pouco – como fica claro nas 10 entradas de diário (de agosto de 2009 a fevereiro de 2010) publicadas aqui no livro. Parece-me mais uma publicação caça-níqueis – não pelo Saramago, é claro, que dali poderia sair um grande romance se ele não tivesse morrido antes de acabar.

Para justificar o preço, há três ensaios assinados por Fernando Gómez Aguilera, biógrafo do escritor português, Roberto Saviano (escritor italiano, “Gomorra”) e o brasileiro Luiz Eduardo Soares, especialista em segurança pública, e autor de “Elite da Tropa”, entre outras coisas. Sinceramente, esperava que os ensaios acrescentassem algo, justificassem o volume, afinal o romance-inacabado não o faz. Mas, não. Boa parte do tempo ficam tergiversando sobre a obra de Saramago, as entradas do diário e o quanto ele faz falta. Não que sejam mal escritos, longe disso, mas nenhum pega o touro pelos chifres, e enfrenta de verdade o fragmento de romance que acabamos de ler. As ilustrações de Günter Grass servem apenas para aumentar o número de páginas sem dizer a que vieram. Não vejo muito a quem possa interessar essa obra (quanto será que está aqui: 10%, 30% do que seria o livro pronto?), a não ser a pesquisadores do romancistas. Em todo caso, poderia muito bem ser disponibilizada num pdf gratuitamente no site da Fundação José Saramago, mas, né... Numa última nota: o final do livro ia ser genial. Se o português não mudasse o que planejou terminaria com um sonoro “Vai à merda”, proferido por uma personagem.

Meus Melhores do Ano

 

 

 

Nacionais:

  1. O Menino e o Mundo
  2. Riocorrente
  3. Eles voltam
  4. O Mercado de notícias
  5. Em busca de Iara
  6. De Menor
  7. Hoje eu quero voltar sozinho
  8. Avanti  Popolo
  9. O Lobo atrás da porta
  10. Ozualdo Candeias e o Cinema

 

Estrangeiros:

  1. Sob a pele
  2. Amantes Eternos
  3. Inside Llewyn Davis
  4. Amar, beber e cantar
  5. Nebraska
  6. Cães errantes
  7. Grande Central
  8. O Gebo e a Sombra
  9. The Rover – A Caçada
  10. O Congresso futurista

Menções honrosas – Boyhood, Ela, Guardiões da Galáxia, A imagem que falta, Instinto Matern, O Grande Hotel Budapeste

A Balada de McEwan

Ian McEwan pode até continuar em sua zona de conforto no seu novo romance “The Children Act”, lançado aqui recentemente como "A Balada de Adam Henry", mas eu a acho interessante e substancial o bastante para lhe render mais alguns livros.

O tema que se repete em sua obra é o fracasso do projeto de modernidade na Europa. Ainda tenho“Atonement” como seu grande livro – é no qual ele melhor figura essa derrota, e na forma, vai ao encontro do pós-modernismo. Aqui, o escritor está mais 'recatado', o livro é menos ambicioso, mas nem por isso menor. A questão central envolve uma juíza julgando o pedido de um hospital para fazer uma transfusão de sangue num adolescente Testemunha de Jeová, que sofre de leucemia. Tanto os pais, quanto o garoto, negam a transfusão, sem a qual o rapaz não deve sobreviver.

Mais do que as questões morais e éticas, o embate entre o público e o privado, a religião e a razão, o escritor fala do mal estar, da sobrevida de um mundo agonizante – tal qual o jovem, talvez.

Jorge Furtado dá show novamente – agora em documentário

 
Mais conhecido por seus longas de ficção – geralmente engraçados, cínicos e reveladores, como Saneamento Básico, O filme – o cineasta gaúcho Jorge Furtado participa do Festival É Tudo Verdade com seu documentário O Mercado de Notícias – na mesma medida engraçado, cínico e revelador que suas obras.
 
Aqui, o tema é a imprensa brasileira. Logo no começo do filme, o diretor explica que esse assunto lhe interessa, mas ao invés de ficar falando mal, resolveu entrevistas jornalistas contemporâneos a quem admira. O longa parte de uma peça inglesa do século XVII, de Ben Jonson, The staple of News, que o próprio Furtado traduziu com Liziane Kugland. Uma crítica à imprensa que ainda engatinhava, uma excelente encenação do texto (montada exclusivamente para o filme) pontua o documentário e mostra que nesses séculos a imprensa não mudou tanto assim, não.
 
Jornalistas como Mino Carta, Luis Nassif, Bob Fernandes, Geneton Moraes Neto, Jânio de Freitas e Renata Lo Prete compõem um painel investigativo da presença da mídia no cotidiano brasileiro, suas influências (positivas e negativas) e seus acertos, erros e manipulações (sutis e descaradas).
 
Furtado faz um filme instigante que deve gerar muita discussão – será ótimo se o gerar – que é obrigatório para jornalistas e estudantes de comunicação. A estreia no Festival acontece hoje, às 21h, no Cine Livraria Cultura. Confira a programação http://etudoverdade.com.br/br/filme/983-O-Mercado-de-Noticias

O fim do mundo passa por aqui

Há uma imagem bastante forte e bastante divulgada do filme Riocorrente, de Paulo Sacramento– premiado pelo júri da Abraccine na Mostra –, que traz um rio coberto em chamas cruzando São Paulo. Essa cena, que também é o pôster do longa, impressiona não apenas pela qualidade dos efeitos especiais, mas, especialmente, por sua contundência e seu sentido apocalíptico. Já O Rio nos Pertence – também exibido no festival –, de Ricardo Pretti, a imagem simbólica mais marcante é o Rio de Janeiro coberto por uma bruma que a tudo engole e consome.

Num certo sentido ambos são filmes pós-apocalípticos e, como é típico nos melhores representantes do gênero, figuram o mal-estar da contemporaneidade, o esmaecimento de nós mesmos, sujeitos e sujeitas pós-modernos engolidos pela fragmentação e incompreensão. Também, conforme é comum, nenhum dos longas traz o fato em si que desencadeia o “fim do mundo”. Muito além de não importar o ponto de partida, há também nossa incapacidade de compreender, de figurar o começo o fim – ou, pior ainda, já acabou e não percebemos.
O crítico e professor norte-americano Fredric Jameson diz em seu Archeologies of the Future, um estudo sobre utopia e ficções científicas, que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. E é exatamente essa contenção que se materializa nos dois filmes. A incapacidade – não apenas dos longas, não apenas das artes, mas de todos nós – de ir além do mundo em que vivemos e conhecemos.
Riocorrente tem como protagonistas um trio: Renata (Simone Iliescu), o jornalista Marcelo (Roberto Audio) e o ladrão de carros Carlos (Lee Taylor). Todos numa espécie de crise existencial. Acrescenta-se a eles um garoto de rua, chamado de Exu (Vinícius dos Anjos), que fica sob os cuidados de Carlos, com quem pratica pequenos roubos. Cada um deles, a seu modo, tem uma (in)capacidade de lidar com o fim do mundo que parece se aproximar.
Sacramento, que também assina o roteiro, lida com o realismo durante boa parte do filme, porém, a medida em que se aproxima de seu clímax, a realidade parece não bastar, e a fantasia (um tanto doentia) é a saída, enquanto o fogo, uma espécie de catalisador.
Esse é o mesmo caminho que Pretti – também autor do roteiro de seu filme – percorre em O Rio nos Pertence. Marina (Leandra Leal) se ausentou de sua vida por 10 anos. Foi outra pessoa, abandonou amigos e a única irmã (Mariana Ximenes), conheceu novas pessoas, fez novos planos com um americano. A chegada de um postal onde se lê o título do filme é o que a faz voltar ao seu antigo mundo, retomar laços. Aos poucos, a personagem se revela, é construída com sutileza pelo talento da atriz e a sensibilidade do diretor-roteirista.
O Rio do filme passa longe dos dois extremos retratados no cinema – o de cartão postal e o das favelas. É uma cidade etérea, transfigurada, borrada por uma neblina que esconde os contornos e deixa tudo manchado – tal qual o emocional dessa personagem fragmentada como o seu tempo presente. Quem são esses ‘nos’ a quem o Rio pertence? E porque Marina tem tanto medo deles?
Se o capitalismo, que não morre, nunca é escancarado nos filmes, ele ainda é a lógica que dita as regras das vidas dessas pessoas – assim como das nossas, é claro. Ele se faz presente em sua ausência, em sua sombra que paira sobre os personagens, sobre o Brasil, ao qual narrativas não mais explicam. De certa forma, Riocorrente e O Rio nos Pertence são o passo seguinte a O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, exibido na Mostra do ano passado e em circuito no começo do ano.
Podemos ler cada um dos dois filmes como uma ficção-científica, que, citando novamente Jameson, “não nos dá ‘imagens’ do futuro (…) mas desfamiliariza e reestrutura nossa experiência do nosso próprio presente”. Uma outra cena bastante marcante em Riocorrente traz ratos devorando pilhas de um dos maiores jornais de São Paulo. Num outro momento, um banca de jornal é, para usar uma palavra da moda, vandalizada. Sacramento transforma em imagens a descrença quase generalizada nas fontes de informação convencionais – o que não é nada exagerado, basta ver a manchete de capa da Folha de S. Paulo de 8 de novembro que induzia ao erro ao omitir o prefixo ‘ex’ da palavra ex-prefeito.
Como em O Som ao Redor, nesses dois filmes, os finais não apontam caminhos, soluções. Atestam apenas que os seus sujeitos pós-modernos são as figuras de nosso tempo, em suas complexidades e complicações. Dois filmes que ainda têm muito a ser discutidos.
 
Texto originalmente publicado em http://abraccine.wordpress.com/

Os sons de Depois de Maio

Em meu texto sobre Depois de Maio, falo da trilha sonora, segue aqui, um link para ela completa:

lhttp://www.allobo.com/en/soundtrack-apres-mai-24070.html

 

E abaixo algumas das bandas e cantores citados:

 

 

 

 

Meus favoritos de 2012

Sem qualquer preâmbulo, aí vão:

 

 

 

 

 

 

Estrangeiros

1.  Mistérios de Lisboa

2.  Cosmópolis

3.  Fausto

4.  L’Appolonide - Os amores da casa de tolerância

5.  As quatro voltas

6. A invenção de Hugo Cabret  

7.  Deus da carnificina 

8. O espião que sabia demais

9. Aqui é o meu lugar

10. Moonrise Kingdom

Menções honrosas (em ordem alfabética) – , A guerra está declarada, Habemus PapamDriveO homem da máfia, Jovens Adultos, Precisamos falar sobre o Kevin, Shame e Um alguém apaixonado.

 

Nacionais

 

1.       Febre do Rato

2.       Sudoeste

3.       Raul – O início, o fim e o meio

4.       Marighella

5.       Tropicália

6.       Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

7.       Luz nas trevas

8.       Girimunho

9.       Era uma vez Eu, Veronica

10.   Mr Sganzerla - Os signos da Luz

 

Menções Honrosas (em ordem alfabética) Gonzaga – De pai para filho, Uma longa viagem, A música segundo Tom Jobim, Paralelo 10 e Xingu

Pra continuar tocando Raul por muito tempo

 
Não bastasse o documentário Raul – O início, o fim e o meio ser excelente, o DVD do longa – que acaba de ser lançado pela Paramount – traz um disco repleto de extras, um livreto e a trilha sonora completa em 2 CDs. Entre os extras estão entrevistas que ficaram de fora da montagem final do longa – como Paulo Coelho contando como ficou sabendo da morte de Raul.
 
Mas, o mais curioso mesmo é uma cópia do manuscrito de Gita, e de uma carteirinha de Raul de quando ele fez parte do Clube do Rock na adolescência.
 
O DVD, assim como o filme, com seus depoimentos não só ilumina a figura de Raul Seixas e nossa música, mas faz o retrato de uma geração e uma época quando ser do contra não era para estar na moda, era a única via que valia a pena.