09/09/2026

Dira Paes e o Rei

A gente já ama Dira Paes não só porque é linda, inteligente, carismática e uma tremenda atriz. Mas ao vê-la contando de sua experiência de cantar com o Rei no especial de Natal de 2009 é impossível não amá-la ainda mais.
 
Dira é naturalmente engraçada, e quando conta desse episódio – como ontem durante uma entrevista sobre o filme À beira do caminho – fica ainda mais divertida. “Eu não estava em mim. Acho que era outra pessoa. Eu entrei no palco jogando beijos pra plateia! Imagina, tipo uma Miss. De onde tirei isso?”, gargalha.
 
Ela também disse que passou a entender o que é ser um superstar. “Imagina, você está no palco e tem 8 mil pessoas gritando na sua direção. Aquilo é uma coisa, uma energia... Agora eu entendo porque quem deixa de ser uma estrela fica doente, sente falta disso. É algo muito forte”.
 
O convite para participar do especial veio na época em que ela fazia Norminha, na novela “Caminho das Índias”, e o Rei era fã da personagem. Dira conta que ele é um gentleman – e até o imita.
 
No filme, que estreia no dia 10, música de Roberto Carlos dá o tom à trama, que gira em torno de um caminhoneiro e um menino a quem ele dá carona. Dira faz uma ex-namorada do protagonista, vivido por João Miguel.
 

Quem precisa de vilões? Não o Batman.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mais do que fazer filmes de super-herói, com seus filmes do Batman, Christopher Nolan faz comentários sobre nossos tempos. No filme anterior, que dialoga com o conto Tema do traidor e do herói, do argentino Jorge Luis Borges, ao falar dos mitos criados e da manipulação nesse processo de criação. Tudo depende um ponto de vista. Em O Cavaleiro das Trevas surge, o diretor – que também assina o roteiro com seu irmão Jonathan e David S. Goyer – há mais crítica política do que possa parecer num primeiro momento.
 
Há o senso de justiça do personagem, claro, mas, não deixa de ser, de certa forma, deturpado. Ao longo do filme, uma espécie de rebelião é arma, construída aos poucos que, a certa altura, colocará Gotham num estado de caos – político, social e econômico. Batman, é claro, trabalha no sentido de silenciar esses insurgentes – sem, no entanto, perceber que, ao fazer isso, ele apenas está fortalecendo outro vilão mais forte. Se ele conseguir acabar com qualquer tipo de rebelião, está apenas favorecendo a manutenção do sistema e do poder. Quem ganha, claro, é a minoria rica que se mantém no topo.
 
Para alguns autores, porém, o sentido de culpa, é bem maior. Batman, como muitos filmes produzidos em Hollywood, é bancado por um grande conglomerado, a Warner. Pois bem, seria estranho ver uma dura crítica ao Capitalismo num filme como esse. É praticamente impensável o triunfo do caos, ou das vozes dissonantes. Ideologicamente falando, a ideia é mostrar que somos muito felizes da forma como vivemos – mas, e isso não é dito, somos também, na mesma medida, culpados.

Trilogia de quantos?

A moda agora é fazer trilogia de quatro – vide Crepúsculo e Jogos Vorazes, cujos últimos capítulos serão divididos em dois. Harry Potter foi uma heptalogia de oito. Diz a lenda que esse será o *último* Batman. Por isso, entende-se o último, derradeiro, depois dele acabou-se o que era doce.
 
Mas, peralá, o terceiro Homem Aranha também era o “último” até os caras da Sony chegarem dizendo que iriam começar uma nova trilogia (de três ou de quatro?) e fizeram um Homem Aranha completamente novo – ou mais ou menos, afinal, não dá para se inventar tanta novidade assim quando é um personagem pra lá de manjado. Isso tem um nome in English: reboot, como quando o computador trava e a gente tira da tomada e depois religa. Mas, ainda assim, é mais fácil que inventar um personagem completamente novo.
 
Batman, já está encerrando sua segunda trilogia (2005, 2008, 2012, todas sob os cuidados de Christopher Nolan). A primeira trilogia – que nem levava esse rótulo – era de 1989 e 1992 (ambos de Tim Burton) e 1995 (de Joel Schumacher). E a terceira trilogia (de quantos?) pode estar a caminho – tudo depende do sucesso do filme que estreia no próximo dia 27. Alguém duvida?
 
Tudo bem que uma das facetas de nossa pós-modernidade é a fragmentação. Mas dividir um filme em dez mil partes para ganhar dinheiro em cima disso tem outro nome.

Dancin’ days are here again – ora, pois

O canal de televisão português SIC ousou fazer o que a Rede Globo, prudentemente, não fez (até hoje): um remake atualizado de Dancin’ Days. Vendo umas cenas no youtube dá para entender o porquê de não se atualizar algo como essa novela. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que ela não é datada – basta a assistir em DVD, que foi lançado no ano passado. O folhetim é, na verdade, o retrato de uma época, de uma geração. Como todas boas novelas elas dialogam com seu tempo e espaço, por isso, costumam envelhecer rápido. Essa é a qualidade de uma produção de TV: seu imediatismo. Se a revemos tempos depois e ainda gostamos, é mais por uma memória afetiva do que pela relevância.
 
Atualizar Dancin’ Days não faz lá muito sentido. Exibida no final dos anos de 1970, ela captava o boom da era disco, alavancado especialmente pelo filme Os Embalos de Sábado À Noite. Dançava-se disco, usava-se meias lurex, e muito brilho. O primeiro capítulo da Dancin’ Days lusitana abre com uma festinha que mais parece uma rave simplinha do que o frenetic.
 
 
A cena não se decide entre o saudosismo ou o fingimento. Estamos revivendo o passado no presente? Ou estamos fazendo de conta que o passado não existiu e o presente quer ter cara de 35 anos atrás?
 
E, nacionalismos à parte, não existirá outra Júlia Matos que não Sonia Braga – saindo da prisão, ao som de Amanhã, de Guilherme Arantes ou dançando e fazendo história na pista do Dancin’ Days, só mesmo Sonia.
 
E, sem querer bancar o chato, mas essa abertura portuguesa está mais para Lazy Days. Absolutamente nada a ver com o brilho da original tupiniquim.

 
E no Brasil até inspirou um filme, que não deu muito certo.
 
Fato: não se deve mexer com o que é sagrado.

Um ano de Abraccine

 
Num domingo ensolarado, em pleno Festival de Paulínia de 2011, foi criada a Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Não foi uma organização que surgiu do nada. Antes disso, houve algumas tentativas que não deram certo e muita discussão ao longo de 2010 para se idealizar, criar um estatuto, planejar e tudo mais.
 
Um ano depois, nesse 10 de julho, a associação dá seus passos com firmeza, marcando presença em festivais nacionais com premiações e coberturas, além de manifestações políticas, como contra a censura ao Serbian Film (que aconteceu há quase um ano) e que, coincidentemente, acaba de ser liberado.
 
 
O principal canal de comunicação da entidade é o seu blog, no qual são postados além de comunicados oficiais, premiações e dossiês sobre assuntos relevantes, como festivais e personalidades.

Sobre o tempo e o espaço

 

Curiosamente, dois filmes que estreiam em São Paulo nessa sexta têm ao centro a mesma investigação: a relação entre o tempo e o espaço. No entanto, a forma como cada um dos dois elementos se dá em cada filme é diferente. No chinês Memórias de Xangai, o tempo transforma o espaço. Enquanto no brasileiro Histórias que só existem quando lembradas, o espaço é força de resistência ao tempo.
 
Jia Zhang-ke, diretor de filmes como O Mundo e Em Busca da vida, coloca ao centro sua cidade, e, por meio de depoimentos constrói um filme pós-moderno calcado na fragmentado e na soma – função desempenhada pelos diversos depoimentos que cobrem a história de moradores (e por consequência da cidade e da China) por décadas. Xangai sucumbe ao tempo, mas este também não a engole. Ela é como uma amante que finge fazer as vontades do seu mestre, mas, no fundo, ele a ‘obriga’ a fazer exatamente o que ela quer. É uma relação de submissão que transita de um lado para outro.
 
No brasileiro, dirigido por Julia Murat, há a ficção – mas também há um certo toque, um certo distanciamento documental, quando a câmera parece sempre observar de longe, parece sempre se esconder para ‘não atrapalhar a vidinha daquelas pessoas’ de uma cidadezinha do interior que parece, exatamente, perdida no tempo. Nesse filme, o espaço se recusa a se transformar. Os personagens fazem tudo sempre igual há anos, e o cemitério está fechado porque ninguém morre. As pessoas se recusam a morrer. O elemento dissonante é uma jovem que chega ao local e se hospeda na casa de uma moradora.
 
Tanto Julia quanto Jia propõem uma pesquisa sobre a resistência diante das transformações. Em Xangai, o antigo convive com o contemporâneo, e a leitura pós-moderna do filme causa, a princípio, estranhamento, mas este vem ao encontro da proposta do diretor. No interior do Brasil, o antigo parece devorar o contemporâneo – para mais tarde, ser engolido por este.
 
A memória se torna a ferramenta mais importante para descobrir a influencia do tempo – tanto que é indicada nos dois títulos. Se no chinês é mais evidente (a palavra está presente), no brasileiro, depreende-se que, uma vez esquecidas, as histórias deixarão de existir. O filme – isto é o cinema – é a forma de se perpetuar uma narrativa (real ou ficcional) – assim como um diário. Acontece que na tela, mais do que num papel, a presença do espaço se torna uma questão tão importante quanto o tempo. Assim, os dois diretores colocam suas câmeras vagando – ora com interesse, ora quase como um zumbi – pelas ruas.
 
Jia é um diretor experiente, sabe articular a imagem como consequência – e não a causa de suas ambições. Os planos bonitos de seus filmes não parecem gratuitos, são trabalhados, mas esse labor fica escondido. Julia é uma jovem cineasta de talento, mas ainda fica claro em seu filme a preocupação mostrar algo bonito – beira a estetização, mas isso ao tira os méritos de Histórias... . Apenas indica que a diretora pode trilhar um caminho interessante. Fiquemos de olho em seus próximos trabalhos.

Campo de batalha: Alma

Na primeira cena de Fausto, de Aleksandr Sokurov, o personagem-título (Johannes Zeiler) faz uma necropsia num cadáver em decomposição e entra num debate com seu assistente sobre a alma. “Ela desce para os pés depois que a pessoa morre”, alega um deles.  Não é ao acaso que tal discussão acontece logo na abertura do filme – afinal, a alma (sua posição, sua finalidade e, acima de tudo, sua propriedade) é o centro do filme, baseado na obra de Goethe.
 
De certa forma, o russo Sokurov reinventa o arquétipo, traz ao filme todos os elementos já conhecidos – pacto com o diabo (Mefistófeles), e em troca recebe a paixão pela técnica e o progresso –, só para mais tarde o esvaziar. Não é um filme fácil, seja dito, e ver mais de uma vez é necessário – não apenas pela beleza hipnótica, mas sua verborragia distrai e dificulta – e isso, claro, é uma decisão meditada.
 
É como se, no momento em que começamos a entender ao filme, Sokurov retira exatamente os elementos que permitiram tal compreensão e nos deixa no vazio. O que, ao fim, fica é a beleza visual, além da sensação de estranhamento que percorre o filme do começo ao fim.
 
No Brasil, a releitura mais famosa é de Guimarães Rosa, que em Grande Sertão: Veredas leva os personagens para o interior perdido de Minas Gerais, em meio a jagunços e questionamentos sobre sexualidade.
 
Cada releitura – Thomas Mann, também na literatura; diversas composições clássicas – toma para si o arquétipo, reinventa-o, adapta-o, mas, em si, mantém sua essência: a batalha pela alma humana.

Esse cometa chamado Carlão

Carlão Reichenbach foi um cometa que passou pela cultura brasileira. Sua marca – como cineasta, cinéfilo, amigo de tanta gente – vai ficar. Seu conhecimento e sua curiosidade permitiram formar algumas gerações de cinéfilos que descobriram cineastas e filmes obscuros – mas não menos interessantes – graças ao garimpo dele.
 
Em sua obra soube como poucos dar voz aos desfavorecidos, com sagacidade, questionamento e poesia. Filmes como Anjos do Arrabalde, Lilian M, Garotas do ABC, e, seu último, Falsa Loura – assim como toda sua obra – vão ficar para sempre em nossos corações.
 
A dívida que temos com ele é enorme. A melhor forma de o homenagear é continuar a cinefilia curiosa e de mente aberta a todos os tipos de filme, como ele tanto nos instigou.

Os perigos de Meryl Streep

Que Meryl Streep é grande, superlativa, não há dúvidas. Ela é uma das maiores atrizes da atualidade. E não precisa provar nada a ninguém – e isso pouco tem a ver também com as quase duas dezenas de indicações ao Oscar e as duas estatuetas, rumando à terceira. Sua capacidade de se transfigurar em outra pessoa chega a ser atormentadora. Como essa mulher consegue? Agora ela É Margarteth Thatcher. Para o bem e para o mal, Meryl faz a Dama de Ferro no cinema.
Se há uma pessoa que sai ganhando com o isso é a verdadeira ex-Primeira-Ministra do Reino Unido. E também, é claro, a diretora de A Dama de Ferro, Phyllida Lloyd, que já demonstrara no constrangedor Mamma Mia! que ainda estava descobrindo para que serve uma câmera. Agora, ela descobriu para o que serve – só falta aprender a usar. Bem, tá bem, nem tanto, ela faz um filme direitinho do ponto de vista técnico, mas como ignorar – ou facilitar – todo o contexto, subtexto e entretexto político da história dessa mulher poderosa do século passado – hoje uma velhinha ranheta e meio esquecida, conforme mostra o longa.
No filme, Mrs Thatcher é uma vovozinha simpatiquinha e piradinha, uma jovem idealista (interpretada por Alexandra Roach) e a Dama de Ferro – mais ou menos nessa ordem, porque Phyllida parece achar que contar uma história com idas e vindas no tempo lhe dará mais propriedade. O filme beira uma nulidade, não fosse a interpretação de Meryl que, mais uma vez de novo, mostra que e por que é grande.
Mas exatamente aí reside um problema do longa. Ao se colocar uma atriz tão competente capaz de mimetizar a própria biografada corre-se o risco de higienizar a verdadeira história. Quem está na tela, claro, é Meryl, mas como é Meryl, a gente se esquece de que ela é Meryl e começamos a pensar que é Mrs Tatcher. E, puxa, a Meryl-Thatcher não é tão ruim assim. Ela massacrou mineiros grevistas pelo bem da Nação Inglesa. Ela mandou atacar centenas de argentinos (e os matou) durante a Guerra das Malvinas por amor à Pátria, para defender o Grande Império Britânico, com seu fog, seu sotaque e dentes ruins. E ainda manda cartas para as famílias dos soldados ingleses mortos em combate. Esqueça a Rainha da Inglaterra. Mrs Thatcher é a protetora dos britânicos. Não por acaso, suas roupinhas azuis podem remeter ao manto azul da Virgem Maria.
A diretora, num roteiro assinado por Abi Morgan, não joga luz, não relê, simplesmente faz quase um amontoado de trívias sobre a vida de Mrs Thatcher, amarradas por um fio condutor da memória dela que parece estar se dissolvendo. O filme será lembrado, claro, mais pela performance de Meryl Streep do que qualquer outra cosia. Falta à Phyllida um tanto de ambição, um distanciamento – ela parece encantada demais coma figura de Thatcher para ter um distanciamento crítico. A atriz, por sua vez, coloca o filme debaixo do seu braço e sai correndo com ele.