06/06/2026

Lírio Ferreira discute conflitos entre tradição e modernidade no Brasil

Lírio Ferreira

Dez anos depois do celebrado "Baile Perfumado", um de seus diretores volta a expor as contradições do Brasil em seu novo filme, "Árido Movie".

Co-diretor de um dos filmes mais celebrados da década de 90, Baile Perfumado (96), o cineasta pernambucano Lírio Ferreira levou dez anos anos para colocar na tela seu segundo trabalho, o aguardado Árido Movie, que estréia em São Paulo e no Rio de Janeiro nesta quinta (13).

A demora não foi por falta de vontade, mas decorreu das dificuldades da produção cinematográfica no Brasil. O próprio Lírio revela, em entrevista exclusiva em São Paulo, que “as primeiras idéias para o roteiro de Árido Movie vieram em 2000, quando fiz uma viagem ao vale do Catimbau (que acabou sendo uma locação do filme)”. Em 2002, o diretor-roteirista já tinha conseguido verbas, mas não a tempo de filmar entre outubro e janeiro, a estação seca, que era imprescindível ao visual despojado que pretendia imprimir ao longa.

As filmagens aconteceram entre 2003 e 2004, em Pernambuco e São Paulo. E a première mundial de Árido Movie acabou sendo no Festival de Veneza, em setembro de 2005, o que não deixou de ter uma certa ironia, na visão de Lírio: “Não deixa de ser irônico a gente exibir um filme que trata das mazelas da seca numa cidade como aquela, todinha rodeada de água”.

A dificuldade para a realização do filme teve, na opinião do diretor, um efeito positivo: “A demora foi boa para os vários tratamentos do roteiro e para a montagem. Fomos vendo melhor que filme queríamos fazer. Foi um parto difícil, mas agradável”.

Os personagens da história - escrita por Lírio, Hilton Lacerda (co-roteirista de Baile Perfumado), Sérgio Oliveira e Eduardo Nunes – são, na opinião do diretor, “muito próximos do real, apesar de muito burilados e pensados”. O protagonista é Jonas (Guilherme Weber), “homem do tempo” de uma emissora de televisão em São Paulo, forçado a partir para uma remota cidadezinha do árido sertão de Pernambuco para o enterro do pai (Paulo César Peréio), que foi assassinado. Lá, defronta-se com uma realidade arcaica, em que a avó e os tios querem que ele vingue a honra da família com o sangue do matador, o índio Jurandir (Luiz Carlos Vasconcelos).

O conflito entre a modernidade urbana e o arcaísmo do sertão também estão presentes nas aventuras e desventuras de um grupo de amigos de Jonas (Selton Melo, Gustavo Falcão e Mariana Lima).

Este diálogo entre passado e presente, para Lírio, dá seqüência a uma discussão iniciada em Baile Perfumado – só que em outros termos. “Baile Perfumado era um filme de época em que se tentava introduzir a atualidade por meio da trilha musical (que era do papa do mangue beat, o falecido Chico Science). Em Árido Movie, fazemos o caminho inverso – é um filme contemporâneo que resgata a persistência do passado, que está na família e no poder”, explica.

Um dos elementos mais importantes para a colocação deste conflito está na excepcional fotografia contrastada, assinada pelo também diretor Murilo Salles – que não fazia uma direção de fotografia desde Tabu (1982), de Júlio Bressane. “’Árido Movie’ foi feito em película 35 mm, mas com uma luz exterior bem branca, estourada, às vezes lavada mesmo, contrastando com um interior escuro dentro das casas, onde quase nunca se abre as janelas, por causa do calor”, revela Lírio. A finalização do filme, porém, foi digital.

Ferreira não teme a resposta do público ao filme, apesar dos resultados modestos que os nacionais têm mostrado nas bilheterias em 2006 (com exceção do sucesso Se Eu Fosse Você). “Não é privilégio deste ano este fenômeno das baixas bilheterias para os filmes brasileiros. Mas acho um absurdo que alguns com grande potencial não sejam descobertos, como aconteceu com Veneno da Madrugada, de Ruy Guerra, que ficou apenas duas semanas em cartaz. Na Argentina, um filme como Cinema, Aspirinas e Urubus faria um público de 800.000, ou 1 milhão de espectadores”, acredita.