06/06/2026

Sokúrov, um cineasta que duvida do cinema

A noção de que o cineasta Aleksandr Sokúrov não é uma pessoa nem um artista qualquer fica muito clara a partir do momento em que ele inicia sua entrevista coletiva, numa sala no Hotel Crowne Plaza, em São Paulo. Com a gravidade de um professor que vai dar uma aula magna, ele se dirige à frente da sala, senta-se e faz um pequeno pronunciamento antes que comecem as perguntas. Expressa-se numa linguagem poética em que é possível reconhecer a mesma sensibilidade de seus filmes, como a série de Elegias, inúmeros documentários, além dos mais conhecidos Moloch - Eva Braun e Adolf Hitler na Intimidade, Taurus e Arca Russa.

"O que posso falar depois de viajar milhares de quilômetros para estar aqui? Não é possível somente atravessar esta distância entre nós. O que nos separa são as forças da natureza, não apenas o mar, o oceano", ele começa. Sua sensibilidade, cultura, elegância e uma insistente melancolia darão o tom de suas declarações. É sua primeira visita ao Brasil, onde vem prestigiar uma rara retrospectiva completa de seus filmes. Ele destaca que o primeiro objetivo da viagem é a gratidão: "Meu principal propósito é agradecer a todos aqui, agradecer a todos os que assistem aos meus filmes.
Há uma ternura no meu coração por todos aqueles que
gostam do que faço".

Sokúrov sabe que aqueles que amam o seu trabalho sofisticado e rigoroso não são tantos assim. Perguntado sobre qual é o seu público na Rússia, ele diz: "Não sei. Deve ser o número de que precisamos. Acho que sou um homem feliz porque meus filmes são vistos pelas pessoas que precisam
vê-los. Talvez estejamos todos enganados, mas mesmo assim nos sentimos unidos por esse amor ao cinema".

Ele acredita que Arca Russa ainda não foi exibido em sua pátria porque seu público lá é muito restrito. "De fato, Arca Russa ainda não foi mostrado na Rússia. Meu país está muito ocupado com política, com poder e com guerras. Poucos se interessam pela arte neste momento", afirma. Falando sobre seus espectadores na Rússia, ele esclarece: "São pessoas de educação mais alta e nível interior mais rico. Não há muitas pessoas assim". E acrescenta: "É uma grande honra para mim saber que os professores, os médicos e os funcionários de museus gostam de meus filmes. Os mais importantes de um povo são aqueles que nos educam e os que nos curam. Se eu puder devolver a eles parte do que recebi é uma grande honra para mim".

O diretor também não esconde que enfrenta restrições em seu meio profissional. "Meus próprios colegas não aceitam o que faço. Muitos se irritam com minhas participações no Festival de Cannes, que me causam muitos problemas em casa", revela. Mesmo assim, diz que seguirá em frente. "Vim aqui para trabalhar, não descansar", informa sobre sua vinda a São Paulo. Daqui, ele viaja diretamente para Lisboa, onde filmou um novo trabalho, Pai e Filho, cuja montagem inicia a seguir. Quando terminar, seu próximo projeto será sobre o imperador Hiroíto, dando continuidade à série de filmes que tem feito sobre figuras emblemáticas de poder - como abordou Adolf Hitler em Moloch... e Lênin em Taurus. Sobre este ritmo incessante de trabalho, ele explica: "Não tenho o direito de parar, estou numa guerra. Há quem se esforce para que eu pare, mas pessoas como eu não podem nem devem parar. Senão tudo ficará nas mãos de pessoas más".

Parece contraditório, portanto, que ele admita sua grande decepção com o cinema. "Nunca considerei o cinema como uma grande arte e sim a música, a literatura e as artes plásticas. Meus mestres estão nos museus, nas galerias, na música. Fico desapontado porque o cinema hoje se transformou de uma arte num produto visual. A comunidade cinematográfica cada vez mais se tornou uma espécie de bando, de máfia, um grupinho ao qual não me sinto à vontade de pertencer. Se Deus um dia decidir investigar porque as pessoas hoje estão cada vez piores, os cineastas serão os primeiros a ter que prestar contas. Porque, junto com a sua cria, que é a televisão, eles estão destruindo toda a esfera humanística e cultural", criticou.

Toda essa veemência em relação à sua própria profissão não indica porém que Sokúrov pretenda abandoná-la. "Minha profissão é o cinema. Nela me formei e, portanto, seria difícil deixá-la. Mas sinto muita vontade de fazê-lo. Há muito pouco espaço artístico ao redor do cinema. Quem faz arte no cinema se sente muito só".

Sobre as artes, Sokúrov diz que aquela que tem maior paralelo com o cinema é a literatura. Mesmo assim, enumera as razões da superioridade da última: "A literatura é a arte que tem o maior nível de liberdade. O autor é livre e deixa o leitor livre para a sua interpretação. Porque somente em contato com a obra literária a pessoa cresce. No cinema, o espectador está sob influência da imagem. O leitor é mais autônomo. Apenas com a existência de uma literatura de massa e com um público grande de leitores podemos ter uma cultura humanística. Caso contrário, a literatura cairá a um segundo plano. Os cineastas ainda não poderão, por muito tempo, ocupar o mesmo papel moral que os escritores desempenham na vida das pessoas".

Como se pode deduzir a partir de boa parte de seu filmes, a visão do cineasta em relação ao poder e sua relação com a arte é a mais cética possível: "Seria bem mais simples se o poder emanasse de Deus, porque ele não erra. O que fazer quando ele cai nas mãos de um Hitler, Stálin, Mussollini? E poderiam ser citados inúmeros outros exemplos. Há uma união trágica e inseparável entre o poder e a arte. Tanto no poder como na arte as pessoas são extremamente fortes. Mas no poder as pessoas são extremamente infelizes, enquanto na arte elas possuem felicidade. A arte tem como meta fazer
com que as pessoas se tornem melhores, mais tolerantes umas com as outras. Enquanto no poder só há disciplina, crueldade, dureza".

Falando dos líderes, afirmou: "Certa vez, o filósofo georgiano Mirab Mamardashvili disse: 'Seria tão bom se os nossos líderes fossem pessoas talentosas e cultas'. Infelizmente, não existe um exemplo recente assim na história. O líder, na melhor das hipóteses, é uma pessoa medíocre. A sociedade não tolera o talento. A vida se torna cada vez mais complicada enquanto a liderança é cada vez menos educada e culta. Portanto, as relações entre a arte e o poder estão fadadas a ser de conflito, especialmente na Rússia. Lá, o problema é trágico".

Apesar de todo este pessimismo, fica muito claro o enorme apreço que o cineasta tem pela arte, num sentido amplo:
"A arte é o que existe de melhor na vida humana, a única coisa bela e ideal que o homem tem aqui na Terra. O resto pode ser inadequado e defeituoso. A arte é a única coisa sublime no homem e para o homem".

Fotos: Ana Vidotti/Cineweb
Cineweb - 28/10/2002