Rudi Langemann discute a exploração sexual infantil no Brasil
Rudi Langemann
O ex-roteirista de Ruy Guerra e assistente de Walter Salles estréia na direção com “Anjos do Sol”, ficção que aborda a exploração sexual de crianças no Brasil.
- Por Neusa Barbosa
- 16/08/2006
- Tempo de leitura 4 minutos
Apesar da aridez do assunto, o roteiro foi selecionado num laboratório realizado pelo Instituto Sundance no Rio de Janeiro em 1998. Rudi garante que o processo de discussão com especialistas nacionais (como os cineastas Jorge Durán e Suzana Amaral) e internacionais, não mudou grande coisa no rumo de sua história, que é ficcional. “Só cortei um segmento do filme que se passava em Brasília”, relata.
A expectativa de que a “grife Sundance” facilitasse o financiamento acabou não se cumprindo. O projeto ficou parado um ano e só voltou a ser tocado quando Anjos do Sol venceu um concurso do Ministério da Cultura para produções de baixo orçamento. O projeto ganhou R$ 800.000,00. Mais adiante, a Globo Filmes tornou-se co-produtora. No final, o orçamento chegou a cerca de R$ 1,5 milhão.
Outros valores, estes de elenco, somaram-se ao filme, auxiliando a sua realização. Chico Díaz, amigo do diretor, foi um dos primeiros a aderir. O produtor de elenco José Antônio Rocha trouxe Vera Holtz e Otávio Augusto. Antônio Calloni, que Langemann não conhecia, apaixonou-se pelo roteiro à primeira vista, abraçando o fundamental personagem Saraiva, o dono de um bordel que explora meninas. “Esse personagem é meu, ninguém mais vai fazer”, disse o ator, no relato de Langemann. Valeu a pena. Calloni recebeu o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado 2006 - um dos seis troféus vencidos por Anjos do Sol, inclusive o de melhor filme.
Um colega e amigo de Langemann, José Alvarenga Jr., diretor do seriado Os Normais, foi responsável pela maior surpresa: a volta da atriz Darlene Glória, a musa de clássicos como Toda Nudez Será Castigada (1973), que andava afastada das telas há décadas, desde sua conversão à religião evangélica. “Pensei nela como uma homenagem a uma diva. Ela caiu como uma luva na sua personagem”, define o diretor. No filme, Darlene faz uma cafetina.
O casting das garotas que interpretam as protagonistas foi resolvido através de um amplo processo de seleção, que atraiu aproximadamente 700 candidatas. Destas, o produtor de elenco selecionou cerca de 300 para testes. Afinal, foi uma estreante, Fernanda Carvalho, de apenas 10 anos na época das filmagens, a escolhida para interpretar Maria, menina vendida pelos próprios pais que acaba num prostíbulo num garimpo no sertão baiano, juntamente com outras crianças e moças. Também participam do elenco Bianca Comparato (que atuou na novela Belíssima) e Mary Sheila, do grupo Nós do Morro.
O desafio de trabalhar uma questão tão íntima quanto a exploração da sexualidade com um elenco em parte menor de idade foi resolvido por Langemann em três frentes. A primeira, através da contratação de duas mulheres como preparadoras de elenco, Paloma Riani e Helena Varvaki. “Era importante ser delicado e não causar nenhum trauma”, preocupou-se o diretor. A segunda providência foi trazer os pais e responsáveis pelas meninas para acompanhar os ensaios e as filmagens. “Eles leram o roteiro antes das garotas”.< p> Finalmente, o diretor submeteu o filme ao Juizado de Menores do Rio, levando o roteiro, fotos de locação e demais informações sobre o projeto. O rígido juiz carioca Siro Darlan deu o seu aval. “Ele nos disse que considerava nosso trabalho uma coisa séria e não sensacionalista”.
Sobre as perspectivas de Anjos do Sol, o diretor pondera: “É um filme duro. Minha proposta era colocar uma discussão, não uma redenção. É um problema social para resolver em 50, 100 anos, porque é uma questão cultural. Mas acho que Anjos do Sol pode se tornar um instrumento de debate”.
Em vista da grande visibilidade internacional que o tema desperta, o diretor ressalta que vem sendo sondado para a comercialização deste trabalho em outros países desde março. Naquele mês, Anjos do Sol foi exibido em première mundial durante o Festival Internacional de Cinema de Miami onde, concorrendo com outros 14 títulos de vários países, venceu o prêmio de melhor filme para o júri popular. Estes contatos internacionais, porém, ainda não foram finalizados. “É um processo lento”, conforma-se o diretor.
