05/06/2026

Rudi Langemann discute a exploração sexual infantil no Brasil

Rudi Langemann

O ex-roteirista de Ruy Guerra e assistente de Walter Salles estréia na direção com “Anjos do Sol”, ficção que aborda a exploração sexual de crianças no Brasil.

Para quem estranha que o gaúcho radicado no Rio Rudi Langemann tenha optado por estrear na direção de longas-metragens com Anjos do Sol, um filme sobre exploração sexual infantil, é bom saber que o diretor prefere, assumidamente, os temas que o incomodam. Este trabalho foi objeto de uma pesquisa que começou há nove anos, quando Langemann já trabalhava como diretor de publicidade, depois de ter participado de vinte longas de ficção em funções diversas – como roteirista de Kuarup (1989), de Ruy Guerra, e assistente de direção de Walter Salles e Daniela Thomas em O Primeiro Dia (1998).

Apesar da aridez do assunto, o roteiro foi selecionado num laboratório realizado pelo Instituto Sundance no Rio de Janeiro em 1998. Rudi garante que o processo de discussão com especialistas nacionais (como os cineastas Jorge Durán e Suzana Amaral) e internacionais, não mudou grande coisa no rumo de sua história, que é ficcional. “Só cortei um segmento do filme que se passava em Brasília”, relata.

A expectativa de que a “grife Sundance” facilitasse o financiamento acabou não se cumprindo. O projeto ficou parado um ano e só voltou a ser tocado quando Anjos do Sol venceu um concurso do Ministério da Cultura para produções de baixo orçamento. O projeto ganhou R$ 800.000,00. Mais adiante, a Globo Filmes tornou-se co-produtora. No final, o orçamento chegou a cerca de R$ 1,5 milhão.

Outros valores, estes de elenco, somaram-se ao filme, auxiliando a sua realização. Chico Díaz, amigo do diretor, foi um dos primeiros a aderir. O produtor de elenco José Antônio Rocha trouxe Vera Holtz e Otávio Augusto. Antônio Calloni, que Langemann não conhecia, apaixonou-se pelo roteiro à primeira vista, abraçando o fundamental personagem Saraiva, o dono de um bordel que explora meninas. “Esse personagem é meu, ninguém mais vai fazer”, disse o ator, no relato de Langemann. Valeu a pena. Calloni recebeu o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado 2006 - um dos seis troféus vencidos por Anjos do Sol, inclusive o de melhor filme.

Um colega e amigo de Langemann, José Alvarenga Jr., diretor do seriado Os Normais, foi responsável pela maior surpresa: a volta da atriz Darlene Glória, a musa de clássicos como Toda Nudez Será Castigada (1973), que andava afastada das telas há décadas, desde sua conversão à religião evangélica. “Pensei nela como uma homenagem a uma diva. Ela caiu como uma luva na sua personagem”, define o diretor. No filme, Darlene faz uma cafetina.

O casting das garotas que interpretam as protagonistas foi resolvido através de um amplo processo de seleção, que atraiu aproximadamente 700 candidatas. Destas, o produtor de elenco selecionou cerca de 300 para testes. Afinal, foi uma estreante, Fernanda Carvalho, de apenas 10 anos na época das filmagens, a escolhida para interpretar Maria, menina vendida pelos próprios pais que acaba num prostíbulo num garimpo no sertão baiano, juntamente com outras crianças e moças. Também participam do elenco Bianca Comparato (que atuou na novela Belíssima) e Mary Sheila, do grupo Nós do Morro.

O desafio de trabalhar uma questão tão íntima quanto a exploração da sexualidade com um elenco em parte menor de idade foi resolvido por Langemann em três frentes. A primeira, através da contratação de duas mulheres como preparadoras de elenco, Paloma Riani e Helena Varvaki. “Era importante ser delicado e não causar nenhum trauma”, preocupou-se o diretor. A segunda providência foi trazer os pais e responsáveis pelas meninas para acompanhar os ensaios e as filmagens. “Eles leram o roteiro antes das garotas”.< p> Finalmente, o diretor submeteu o filme ao Juizado de Menores do Rio, levando o roteiro, fotos de locação e demais informações sobre o projeto. O rígido juiz carioca Siro Darlan deu o seu aval. “Ele nos disse que considerava nosso trabalho uma coisa séria e não sensacionalista”.

Sobre as perspectivas de Anjos do Sol, o diretor pondera: “É um filme duro. Minha proposta era colocar uma discussão, não uma redenção. É um problema social para resolver em 50, 100 anos, porque é uma questão cultural. Mas acho que Anjos do Sol pode se tornar um instrumento de debate”.

Em vista da grande visibilidade internacional que o tema desperta, o diretor ressalta que vem sendo sondado para a comercialização deste trabalho em outros países desde março. Naquele mês, Anjos do Sol foi exibido em première mundial durante o Festival Internacional de Cinema de Miami onde, concorrendo com outros 14 títulos de vários países, venceu o prêmio de melhor filme para o júri popular. Estes contatos internacionais, porém, ainda não foram finalizados. “É um processo lento”, conforma-se o diretor.