Paulo Betti estréia na direção com história de líder religioso
Ator veterano de cinema, teatro e televisão, Paulo Betti estréia na direção de cinema com o premiado drama Cafundó. Nesta entrevista exclusiva, ele revela como a história de um líder religioso o persegue desde a infância e como trabalhou mais de dez anos nesse filme. Além disso, ele fala sobre a polêmica em que se envolveu nas últimas semanas sobre declarações políticas.
- Por Alysson Oliveira
- 21/09/2006
- Tempo de leitura 3 minutos
O interesse por esse homem cresceu cada vez mais. “Em 77 pensei em fazer uma peça de teatro. Mas foi só no início dos anos 90 que decidi que seria um filme.” A idéia inicial era de um documentário, mas logo ele abandonou esse enfoque. “Chegamos a gravar algumas cenas no cemitério de Sorocaba, mas no outro dia decidi que seria um longa ficcional. Vamos usar esse material que gravamos num making of sobre a origem do filme”.
Betti acredita que sua formação e carreira como ator o ajudaram bastante também atrás das câmeras. “Eu já tinha dirigido várias peças, mas cinema é completamente diferente”, admite. O fato de dividir os créditos com Clóvis Bueno lhe deu mais confiança.
Veterano em cinema e em teatro, Bueno já havia trabalhado com Betti em filmes como Lamarca (94), no qual foi diretor de arte, e em peças de teatro. “Clóvis entrou no filme em 96. Eu sempre lhe contava a história, ele sempre quis fazer”, explica.
Embora sua função principal fosse atrás das câmeras, Betti faz uma pequena participação em Cafundó, como um devoto humilde de João que pede ajuda para encontrar um papagaio. Segundo ele, esse personagem é uma homenagem a seus familiares. O ator Paulo Betti foi vital não apenas para isso no filme. “Ser ator ajuda muito, conheço a psicologia dos atores, sei como tratá-los”.
O papel principal, porém, coube a Lázaro Ramos, que se transforma, na pele do ex-escravo que se torna líder religioso e opera diversos milagres. Betti diz que não consegue imaginar outra pessoa fazendo o papel que rendeu ao ator prêmios em diversos festivais, entre eles Gramado/2005. “Poucos atores conseguiriam fazer o João jovem e levá-lo até uns 60 anos, como acontece no filme. Lazaro é jovem e maduro ao mesmo tempo”.
Já para a produção, Betti e sua equipe contaram com a igreja construída por Nhô João, aquela mesma que o intrigava na infância, e o material que há guardado lá mesmo. “O fato de João ter criado uma associação espírita em 1921 fez com que a igreja funcionasse como uma espécie de museu, tudo está preservado”. Alguns livros publicados sobre o assunto também foram muito úteis na hora de fazer o filme. “O mais famoso foi o do professor Florestan Fernandes. Mas também há muitos livros pequeninos, singelos, maravilhosos. A obra ‘João de Camargo de Sorocaba, O nascimento de uma religião’, de José Carlos de Campos e Adolfo Friolli, também nos foi muito útil”.
Cafundó já foi exibido em Sorocaba, que também serviu de cenário para diversas cenas, e fez sucesso com os moradores. “A cidade está encantada com o filme. Em três dias, dois cinemas, três mil pessoas foram ver”, comemora.
Arte e Política - Paulo Betti sempre foi um dos atores mais militantes do Brasil. Petista convicto, nas últimas semanas se envolveu com uma série de polêmicas envolvendo supostas declarações suas sobre ética na política. Ele teria dito que “não se faz política sem sujar as mãos” à saída de um encontro entre artistas e o presidente Lula. “A frase colocada fora do contexto transformou o que era uma constatação num elogio da prática de uma ‘política de mãos sujas’”.
Para ele, a forma como a sua frase foi removida do contexto e usada por diversas fontes, cada uma de forma diferente, é uma prova de que em política todo mundo tenta de tudo para conseguir votos. “O clima eleitoral fez com que cada um usasse a frase de modo a defender suas convicções, mesmo sabendo que a frase era um lugar comum. Prova que a política realmente é cheia de golpes sujos”.
