06/06/2026

Isabelle Huppert, a diva acima do estrelismo

Por Neusa Barbosa

Apenas duas horas depois de desembarcar em São Paulo na segunda (24/2), a atriz Isabelle Huppert desfez qualquer impressão de que se encontrava ali uma superstar. Envergando uma roupa simples - blazer branco, camisa laranja avermelhada, calça jeans preta, sapato branco e laranja sem meias - ela apenas não baixou seus óculos escuros nem por um momento para encarar uma entrevista coletiva, seguida de entrevistas para a televisão. Um cuidado que era até compreensível para alguém cuja fisionomia ainda exibia sinais de um compreensível cansaço.

Fora esse pequeno detalhe dos óculos, porém, a atriz que tantos conhecem de filmes sérios, como Um Assunto de Mulheres, Madame Bovary e A Professora de Piano, enfrentou com segurança, leveza e nenhum traço de estrelismo as perguntas dos jornalistas brasileiros, a maior parte delas em torno da peça 4.48 Psychose, de Sarah Kane. A peça foi o motivo da viagem de La Huppert a São Paulo, onde ela faria quatro apresentações, uma para convidados, as outras três com seus ingressos esgotados nas bilheterias do Sesc em pouquíssimas horas.

Durante as quase duas horas da peça, Isabelle fica praticamente estática. Move apenas a cabeça, um pouco os braços, as mãos e os dedos, porque a intenção é concentrar ao máximo a expressão no rosto da atriz (que fica no palco com um outro ator, Gérard Watkins, sem olhá-lo de frente). Segundo Isabelle, esse minimalismo de movimentos foi uma escolha da direção, mas isso não refletiu nenhuma imposição. "Chegamos a isso de maneira completamente natural e de comum acordo", destacou.

TRABALHO SEM IMPOSIÇÃO - O diretor Claude Régy, que a acompanhava na entrevista, confirmou essa sintonia: "Não vejo como trabalhar senão pela troca de idéias. A imposição é um mau hábito". Para ele, essa troca acontece não só entre atores e diretor, mas também junto à equipe técnica: "A coisa se faz por si mesma, acontece do grupo. Muito também vem do texto".

Comentando o texto de Sarah Kane, Isabelle destacou que ele "é muito diferente do habitual e isso se compreende imediatamente". Ao mesmo tempo, reforçou, ele foi escrito para teatro, por isso, "está pronto a ser incorporado pelo ator". A grande diferença que a atriz enxerga nele, em relação ao material teatral habitual, está no que ela chama de sua voz. "A gente não busca nele as referências habituais. Ouve-se a voz de Sarah Kane", explica.

Essa voz da autora da peça está no que o diretor chama de seus enigmas: "Sarah Kane escreve enigmas e os enigmas são ricos de sentido mesmo quando ninguém sabe o que eles querem dizer". Para Régy, ver a peça assim, sem tantas explicações, numa língua estranha, será "um excelente treino para o espectador se desligar dessa obsessão de saber sempre o sentido de todas as coisas". Por isso, ele não esconde que ficou incomodado com o pedido da produção brasileira de que colocasse pelo menos algumas legendas em português para trechos do texto (apresentado em francês). Entretanto, acabou acatando a solicitação, traduzindo alguns títulos dos temas tratados em cada seqüência. Mesmo assim, acha que será "uma perda" os espectadores desviarem sua atenção do rosto da atriz, seu foco dramático, mesmo que momentaneamente.

OUVINDO ATRÁS DAS PORTAS - A interação de Isabelle com o outro ator, que fica sempre atrás dela no palco, ocorre, segundo ela, "pelo pensamento e pela voz". A atriz defende que a interação entre os dois acontece de maneira muito melhor do que numa situação teatral convencional. "Essa forma de trabalhar é muito mais rica do que frente a frente", acredita. O diretor reforçou a crença da atriz, citando uma frase da escritora Marguerite Duras: "Ouvimos melhor atrás das portas. É uma maravilha da vida".

Isabelle destacou não acreditar no "personagem difícil", tanto do ponto de vista do ator que o interpreta quanto do público que o recebe. "O ator não cria nada. A dificuldade está na vida, não na representação dela", justifica. Indagada sobre a razão da freqüência com que é lembrada para interpretar no cinema mulheres que têm um crime ou segredo a esconder, fez humor: "Não tenho o monopólio dessas mulheres misteriosas. Aliás, vou fazer uma revelação: para mim é muito mais fácil atuar assim, como alguém que esconde alguma coisa - e eu sou muito preguiçosa!". Surpreendeu bem mais a sua declaração de que "foi uma facilidade" interpretar a protagonista de A Professora de Piano - uma personagem dificílima, com distúrbios sexuais e psicológicos graves, que lhe deu, inclusive, um segundo prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, em 2001 (o primeiro foi em 1978, por Violette Nozière).

Indagada se não seria a Bette Davis de seu tempo, a atriz comentou: "Cada atriz se parece com a sua época. Não se pode comparar o que se fazia no passado e agora, porque as fronteiras entre o bem e o mal evoluíram significativamente nos filmes. A verdade é mais complexa hoje, há menos maniqueísmo, mais ambigüidade. Hoje, uma mulher má também pode ser gentil". Quanto a Bette, afirmou: "Ela é a atriz mais extraordinária de todos os tempos".

A uma pergunta sobre o que diria a Sarah Kane (que se matou em 1999, aos 28 anos) se pudesse enviar-lhe uma mensagem, disse Isabelle: "A melhor coisa que alguém me disse foi que, se Sarah houvesse visto o meu espetáculo, não teria se suicidado. Acho que ela era muito viva, embora não tenha estado sempre bem. Mas ela está sempre do lado da vida. Era uma pessoa muito generosa".


Cineweb-24/02/2003