23/07/2026

O incansável Caio Blat

Aos 26 anos, o ator Caio Blat é o nome da hora do cinema brasileiro. Ele é parte do elenco de quatro filmes recentes, inclusive a estréia nacional "Batismo de Sangue".
Caio Blat parece incansável. Aos 26 anos, é o ator da hora do cinema brasileiro, presente em quatro dos filmes mais falados do momento e que ele fez um atrás do outro, num período de apenas um ano e três meses, em três estados diferentes: O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006, em São Paulo), Batismo de Sangue (em Belo Horizonte, com estréia em 20 de abril), É Proibido Proibir(no Rio de Janeiro, estréia prevista para 27 de abril) e Baixio das Bestas (em Pernambuco, com estréia prevista para 11 de maio).

Apesar do cansaço, Caio está feliz. “É preciso celebrar esse bom momento do cinema brasileiro. Tenho muito orgulho de todos estes filmes, todos muito fortes, com direção muito forte”.

Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, que mergulha nos bastidores da luta armada, jogou o ator paulistano numa época e problemática que ele nunca viveu. Para entrar no papel de Frei Tito de Alencar, um dos protagonistas, Caio foi parar num retiro, em Belo Horizonte, onde se familiarizou com a rotina diária dos religiosos, aprendendo a preparar refeições e tendo aulas de teologia, canto, datilografia e francês. Além disso, contou com a assessoria de uma nutricionista para ganhar peso.

Caio não teve a mesma vantagem de seus colegas atores Daniel de Oliveira (intérprete de Frei Betto), Ângelo Antônio (Frei Osvaldo), Léo Quintão (Frei Fernando) e Odilon Esteves (Frei Ivo), que puderam conhecer os personagens reais que viveriam no filme, que adapta as memórias de Frei Betto. Abalado pelas torturas que sofreu sob o comando do temível delegado Sérgio Paranhos Fleury, Tito suicidou-se em seu exílio na França, em 1973.

Em busca da história de Tito, Caio dirigiu-se então à sua terra natal, em Fortaleza, onde conheceu sua irmã mais velha, Nildes, que o criou e inteirou de muitos detalhes de sua intimidade. No filme, ela é interpretada por Marcélia Cartaxo.

Caio destaca a importância do trabalho do preparador de elenco Sérgio Pena: “Ele ficou conosco seis semanas, recriando ambientes da época”. O ator lembra especialmente de um “ensaio antológico” em que foi reconstituído o famoso Congresso da UNE em Ibiúna (SP), desta vez num prédio de BH, com 500 alunos como figurantes. “Os atores que faziam os policiais levaram os alunos para um outro prédio. Ouviam-se gritos, todo aquele clima de repressão”, recorda.

A parte mais difícil foi introjetar a depressão que vai tomando conta de Tito após ser preso e barbarament torturado. Caio fez isso isolando-se num quarto de hotel, cercado de fotos, cartas e textos do religioso. “Sérgio Pena filmou todo esse processo de preparação e tem o projeto de fazer um documentário com esse material, que contém cenas impressionantes”.

As cenas de tortura, muito realistas em Batismo de Sangue, foram outro capítulo cuidadoso da preparação. “Fomos ensinados como reagir a pancadas, choques, quanto tempo se agüentava ficar amarrado no pau-de-arara. Sérgio Pena teve extremo cuidado para preservar a nossa integridade”, assegura. Segundo Caio, o que se buscou no filme foi a “realidade psicológica, o pavor do Tito diante da figura do Fleury”.

Neste momento, toda a atenção do ator está voltada ao lançamento dos filmes que realizou. Para isso, ele vem, desde o ano passado, percorrendo os festivais onde eles passaram, incluindo Roterdã (Holanda), Toulouse (França), San Sebastian (Espanha). Mas ainda tem um sonho: “No final do ano, queria ir ao Festival de Havana”.

Caio já tem outro projeto cinematográfico engatilhado, mais uma vez sob a direção de Jorge Duran, com quem fez É Proibido Proibir - em que reconhece que seu personagem, o estudante de medicina Paulo, é o que “mais se parece” com ele mesmo. O novo filme de Duran será um conto de Natal em que uma criança busca o pai, saindo do interior e vindo para a cidade de São Paulo, num clima que Caio descreve como “semi-realismo fantástico”. Ele não poupa elogios a este diretor: ‘É maravilhoso como o Duran consegue manter o olhar fresco”.