Beto Brant e Renato Ciasca fazem retrato de geração em “Cão sem Dono”
Os diretores paulistas filmaram no Rio Grande do Sul a adaptação de livro de Daniel Galera, contando uma intensa história de amor e procura. Estréia em 11 de maio em Porto Alegre e 15 de junho em São Paulo e Rio de Janeiro.
- Por Neusa Barbosa
- 10/05/2007
- Tempo de leitura 7 minutos
A intenção foi permanecer fiel ao espírito do livro que guiou a nova produção, Até o Dia em que o Cão Morreu , do também paulista Daniel Galera, que o escreveu durante um período em que viveu na capital gaúcha. É Brant quem explica a própria viagem, em entrevista exclusiva ao lado de Ciasca, na sede de sua produtora em São Paulo: “O cinema sempre foi para mim uma filosofia de vida, um pretexto para viajar em vários níveis, inclusive fisicamente. Não é a primeira vez que fazemos isto. Matadores, meu primeiro filme, foi rodado em Mato Grosso. Ação entre Amigos, em Minas Gerais”.
Quando Marçal Aquino, escritor e parceiro habitual nos roteiros de todos os filmes de Brant, indicou o livro de Galera, criou-se a oportunidade de vivenciar mais de perto Porto Alegre, cidade pela qual o cineasta já alimentava grande simpatia em passagens anteriores.
Hospedados na casa de um colega – o cineasta gaúcho Diego de Godói, autor do curta O Homem Sério -, localizada no centro da cidade, Brant e Ciasca puderam descobri-la de perto. “A gente só andava a pé, vivemos tudo ali. O mercado municipal, os bares, a Casa de Cultura Mário Quintana, várias universidades, repúblicas de estudantes”, descreve Brant. Um cenário que acabou incorporado ao filme, já que o personagem Ciro (Júlio Andrade) mora por ali e percorre toda essa geografia, sempre seguido pelo fiel cachorro Churras.
O ator Júlio Andrade, que é gaúcho, viveu na pele a vida de Ciro, antes de as filmagens começarem. “O Julinho ficou morando sozinho por um mês e meio no apartamento vazio, só com o colchão. Levou para lá coisas pessoais que ele achou que pertenciam àquele personagem, lendo literatura russa e existencialista e estudando o roteiro. Ele queria experienciar como era sentir-se só, o que é bem o contrário da personalidade dele”, conta Brant.
Churras, o cachorro, foi escolhido por Júlio num canil público e foi o único habitante admitido no apartamento nesse processo de construção do personagem. Os dois se adaptaram muito bem, dando veracidade à situação vivida no livro e no filme. Como não era adestrado (nenhum dos envolvidos na produção quis que fosse), eventualmente Churras criou alguma preocupação no set. “O cachorro às vezes extrapolava. Cachorro não dá para dirigir. Naquela cena em que o Julinho passa mal, ele atravessou a equipe e entrou em cena, o que não era pra acontecer”, relata Brant.
Se a escolha de Júlio Andrade, ator com 25 participações em cinema nas costas, foi natural, a escalação de Tainá Muller como atriz principal foi algo que se impôs ao longo do processo de pré-produção. Jornalista formada, dona de blog (ranchocarne/tai), com experiência como modelo e mulher do escritor Galera, ela atuava como assistente de direção e comandava o processo de casting do papel feminino. Vendo-a entrevistar as candidatas, Brant e Ciasca se convenceram de que ela era a melhor opção para interpretar a personagem Marcela. Além do mais, Tainá conhecia profundamente o livro, tinha feito curso com a preparadora Fátima Toledo e muita vontade de atuar. Acabou estreando no filme e levando o prêmio de melhor atriz no Cine PE – Festival do Audiovisual 2007, em Recife.
Nesse ponto da conversa, Brant dá sua visão sobre os protagonistas de Cão sem Dono. “O Ciro é um cara que está com a alma doente. Ele é muito sincero com a Marcela, não fica ‘chavecando’ a moça. Ele quer estar presente, mas também ser autêntico. Ele a trata mal, o que é mais agudo no livro. No filme, ele só não está disposto a assumir uma relação tradicional de namoro. Mesmo assim, vai aprender a cuidar dela, ele que nunca cuidou de ninguém”.
Marcela, em sua visão, “é uma modelo que não está em busca da fama. Se ela ficasse no interior, iria repetir a história da mãe, da tia, casar, ter filhos. O que é uma opção. Mas ela quer ganhar o mundo. A carreira de modelo é uma oportunidade de viajar. Ela não faz o lugar comum da menina que segue a carreira de modelo ser capa de revista e ficar rica. Na verdade, ela é que é cão sem dono, ela é quem foi para o mundo se arriscar, se aventurar”.
Apesar de ter saído sempre da literatura, em todos os filmes, Brant mais uma vez recria a história com a maior liberdade na tela. “Não tem uma reverência extrema, a gente não acredita nisso. Às vezes, a intenção literária é tão gigantesca que intimida na hora de adaptar. E uma opção que a gente acha preguiçosa é botar locutor, com voz em off, para reproduzir a figura do narrador”, acentua. Admite, também, que “a gente tem de abrir mão de muitos coisas. A proposta é o diálogo com o livro, não reproduzi-lo. Se não, está abrindo mão de contar a história como cinema”.
Um dos sinais mais evidentes dessa liberdade de adaptação é na expansão de personagens praticamente invisíveis no livro, como o motoboy que atropela Marcela (Marcos Contreras), sua mulher (Janaína Kremer) e os pais de Ciro (Roberto Oliveira e Sandra Possani) – todos interpretados por atores da cena teatral gaúcha e protagonizando cenas marcantes no filme, como a do jantar na casa do motoboy e uma profunda confidência do pai a Ciro.
A alta voltagem das cenas eróticas é defendida pelos diretores. “Não vejo isso como exploração do erotismo. No sexo e quando você está com medo é que você se entrega. No discurso, sempre é possível manipular. Ali o sexo está revelando o personagem e é mesmo fundamental para narrá-lo”, esclarece Brant.
Mais do que tudo, Cão sem Dono pode ser visto como um filme de geração, uma interpretação que os diretores acatam. “É um filme dessa geração que está esperando alguém que os tire dessa letargia, dessa mal-estar da civilização”, opina Brant. Ciasca acrescenta que há também uma “crítica à sociedade de classes” na cena em que Ciro recusa um emprego devido ao pagamento que considera aviltante. “É uma postura até política individual dele, como se dissesse ‘não quero fazer parte dessa sociedade assim’. Ao mesmo tempo, essa recusa é angustiante. Você não tem muitas opções de trabalho e, quando surgem, são assim”. Uma situação que, como lembra Ciasca, acontece não só no Brasil.
Criando um cinema naturalista em que a câmera segue os atores e não o contrário, com uma fotografia comandada por Toca Seabra (O Invasor) que “trabalha no limite do negativo”, mais uma vez Brant incorpora uma dimensão documental ao filme. Tal como acontecera com o depoimento do pintor Felipe Ehrenberg em seu filme anterior, Crime Delicado, e coincidentemente também numa situação envolvendo artes plásticas, Cão sem Dono tem seu personagem tirado da vida real no porteiro do prédio Elomar – vivido pelo artista Luiz Carlos Vasconcelos Coelho. Funcionário público aposentado de 70 anos, ele pinta compulsivamente, utilizando sucatas e objetos recolhidos na rua, muitas vezes usando como base folhas de jornal. São dele, aliás, as obras que forram as paredes do apartamento do porteiro, algumas das quais são dadas a Ciro.
Coelho foi outro desafio para os diretores. Sem experiência em atuação e muito tímido, ele quase travou nas filmagens. “Era um risco, porque ele podia ‘amarelar’. Cada take dele é único, porque ele falava o que vinha à cabeça, dentro de uma situação definida genericamente. A gente nunca sabia direito o que ele ia falar na hora”, conta Brant. Assim, na cena em que ele conversa com o protagonista e conta que no nascimento do cantor Lupicínio Rodrigues (1914-1974) chovia tanto que a parteira veio de barco, era a primeira vez que o ator Júlio Andrade ouvia aquilo.
A atriz de Crime Delicado, Lilian Taublib, reconheceu outra semelhança com aquele filme – o detalhe de haver uma moça ferida na perna, no caso, Marcela. Mas aí, Ciasca e Brant garantem que foi “absolutamente involuntário”.
Muito mais falante do que há anos atrás, Brant só se fecha quando a conversa ruma para o possível próximo filme. “É muito cedo para falar nisso”. Mas confirma que mantém o interesse em adaptar outro romance de Marçal Aquino, o poderoso Eu Ouviria as Piores Notícias de seus Lindos Lábios. Outra intensa, trágica história de amor, ambientada no Acre.
