Drauzio Varella "mergulha" no Rio Negro para contar histórias reais e fantásticas
O médico Drauzio Varella faz, neste documentário, um percurso de mais de mil quilômetros às margens do Rio Negro, entrevistando pessoas ao longo dessa jornada.
- Por Alysson Oliveira
- 31/05/2007
- Tempo de leitura 2 minutos
O médico foi para o Rio Negro pela primeira vez no início dos anos de 1990, para pesquisar a flora da região e uma possível produção de medicamentos. Desde então se encantou com o lugar e as pessoas. No entanto, ele alerta que muito se transformou ao longo desses anos. “Manaus mudou muito e algumas cidades dos arredores também. Porém, a população ribeirinha é isolada e quase não vê as transformações”.
Essas pessoas são as que geram a maior curiosidade do médico e escritor. “A vida para eles parou lá trás. Não é diferente da vida do índio, da cultura de subsistência”, afirma. Porém, para ele, essas vidas são cheias de histórias interessantes – como prova no filme. Os entrevistados falam desde suas experiências até relatos com seres fantásticos, como botos e cobras gigantescas. “Eles falam de seres sobrenaturais com a mesma naturalidade que falam do dia-a-dia”, conta o dr. Drauzio.
Essa curiosidade também está aliada a uma paciência que ele diz ter adquirido com o trabalho como médico. “É preciso saber escutar o outro, o seu paciente, para poder diagnosticar. Ao entrevistar é a mesma coisa, as pessoas querem falar de si, querem ser ouvidas”, explica complementando que nunca entra numa conversa com juízo de valores, o que fica claro na conversa.
A idéia de fazer um filme para o cinema veio do diretor estreante Luciano Curi. O dr. Drauzio trabalhava numa pesquisa fazendo entrevistas para escrever um livro, mas o documentarista sugeriu um filme. “Pensei que ele queria fazer algo para a televisão, mas, não, ele queria cinema mesmo. As paisagens locais ficariam muito bonitas na tela”, conta o médico.
Para Curi, não foi muito difícil dirigir as entrevistas, pois, segundo ele, o dr. Drauzio deixa as pessoas muito à vontade para falarem de si mesmas. Na pré-produção, foram selecionadas cerca de 60 pessoas, e na montagem final ficaram treze. “Tínhamos cerca de 14 horas de material bruto. Foi a parte nevrálgica fazer opções na hora de montar o filme. Tive que abrir mão de algumas coisas que me interessavam, mas acabaram não cabendo”.
Para garantir a espontaneidade dos entrevistados, Curi trabalhou com um equipe pequena. “É impossível contar a mesma história duas vezes, por isso tínhamos que garantir uma boa primeira tomada. A tranqüilidade que o dr. Drauzio passa às pessoas foi fundamental nessa hora”, conta.
Ao longo do filme, os entrevistados não são creditados. O documentarista explica que optou por isso para não fazer nenhuma interferência. “As pessoas eram as pessoas. Não faria falta não dizer o nome delas naquele momento. Eu queria deixar que o público mergulhasse no Rio Negro”, explica.
