23/07/2026

Drauzio Varella "mergulha" no Rio Negro para contar histórias reais e fantásticas

O médico Drauzio Varella faz, neste documentário, um percurso de mais de mil quilômetros às margens do Rio Negro, entrevistando pessoas ao longo dessa jornada.
“Fico curioso quando encontro alguém com uma vida diferente da minha”, diz o dr. Drauzio Varella numa entrevista ao Cineweb para falar de Histórias do Rio Negro, um documentário no qual percorre mais de mil quilômetros do rio que dá título ao filme, e no percurso conversa com moradores da região. Nessa viagem, o que não falta são descobertas.

O médico foi para o Rio Negro pela primeira vez no início dos anos de 1990, para pesquisar a flora da região e uma possível produção de medicamentos. Desde então se encantou com o lugar e as pessoas. No entanto, ele alerta que muito se transformou ao longo desses anos. “Manaus mudou muito e algumas cidades dos arredores também. Porém, a população ribeirinha é isolada e quase não vê as transformações”.

Essas pessoas são as que geram a maior curiosidade do médico e escritor. “A vida para eles parou lá trás. Não é diferente da vida do índio, da cultura de subsistência”, afirma. Porém, para ele, essas vidas são cheias de histórias interessantes – como prova no filme. Os entrevistados falam desde suas experiências até relatos com seres fantásticos, como botos e cobras gigantescas. “Eles falam de seres sobrenaturais com a mesma naturalidade que falam do dia-a-dia”, conta o dr. Drauzio.

Essa curiosidade também está aliada a uma paciência que ele diz ter adquirido com o trabalho como médico. “É preciso saber escutar o outro, o seu paciente, para poder diagnosticar. Ao entrevistar é a mesma coisa, as pessoas querem falar de si, querem ser ouvidas”, explica complementando que nunca entra numa conversa com juízo de valores, o que fica claro na conversa.

A idéia de fazer um filme para o cinema veio do diretor estreante Luciano Curi. O dr. Drauzio trabalhava numa pesquisa fazendo entrevistas para escrever um livro, mas o documentarista sugeriu um filme. “Pensei que ele queria fazer algo para a televisão, mas, não, ele queria cinema mesmo. As paisagens locais ficariam muito bonitas na tela”, conta o médico.

Para Curi, não foi muito difícil dirigir as entrevistas, pois, segundo ele, o dr. Drauzio deixa as pessoas muito à vontade para falarem de si mesmas. Na pré-produção, foram selecionadas cerca de 60 pessoas, e na montagem final ficaram treze. “Tínhamos cerca de 14 horas de material bruto. Foi a parte nevrálgica fazer opções na hora de montar o filme. Tive que abrir mão de algumas coisas que me interessavam, mas acabaram não cabendo”.

Para garantir a espontaneidade dos entrevistados, Curi trabalhou com um equipe pequena. “É impossível contar a mesma história duas vezes, por isso tínhamos que garantir uma boa primeira tomada. A tranqüilidade que o dr. Drauzio passa às pessoas foi fundamental nessa hora”, conta.

Ao longo do filme, os entrevistados não são creditados. O documentarista explica que optou por isso para não fazer nenhuma interferência. “As pessoas eram as pessoas. Não faria falta não dizer o nome delas naquele momento. Eu queria deixar que o público mergulhasse no Rio Negro”, explica.