Daniel Filho traz universo de Eça para a São Paulo dos anos 50
Depois de vários sucessos com comédias, o diretor Daniel Filho adapta um clássico da literatura portuguesa, “O Primo Basílio”. Para não perder o apelo popular, procura um diálogo com o universo de Nelson Rodrigues. Leia a entrevista com o diretor e o elenco.
- Por Alysson Oliveira
- 07/08/2007
- Tempo de leitura 4 minutos
O diretor e produtor parece ter encontrado uma fórmula para o sucesso – embora nem sempre a crítica goste de seus filmes. “Para agradar ao público, tem que ter boa história e boa produção”, definiu simplesmente, durante o lançamento de seu novo filme Primo Basílio, em São Paulo. Ainda assim, nem sempre ele acerta nos índices que pretende. Seu longa anterior Muito Gelo e Dois Dedos D’água fez pouco mais de 535 mil ingressos – pouco, se comparado com as suas outras produções, mas muito, se comparado com a média de bilheteria dos filmes brasileiros dos últimos meses.
Daniel aposta alto com Primo Basílio, que estréia em cerca de 150 salas nesta sexta-feira. O orçamento chegou a R$ 8,5 milhões, sendo que R$ 3 milhões destinados só ao lançamento e à divulgação. Deixando de lado as comédias populares que lhe trouxeram sucesso como diretor, investe numa história mais séria, com a transposição do clássico português do escritor Eça de Queiroz. “Filmo o que gosto de ver. Queria algo com sentimento forte”, explica. Além disso, contou o fato de ter dirigido uma minissérie na Rede Globo, na década de 80, baseada no mesmo romance: “Queria uma história na qual pudesse me mover com segurança. E essa eu já conhecia bem”.
Daniel Filho já está há tempo suficiente na indústria do entretenimento para conhecer muito bem como essa máquina funciona. Sabe que a simpatia abre portas. Por isso, durante a coletiva esbanja sorrisos e comentários engraçados – tanto com os jornalistas como com o elenco. Aliás, a relação que mostra com os atores mais parece algo paternal do que tirânico. Sempre tem um tratamento carinhoso. Para ele, Fábio Assunção é Fabinho; Glória Pires é Glorinha.
Durante a primeira metade da coletiva, Daniel Filho é do dono do show. Antecipa-se aos repórteres e faz as perguntas óbvias aos seus atores, distribuindo sorrisos e afagos. O show é dele. Conta que teve que adaptar Reynaldo Gianecchini para viver o marido traído Jorge, pois o ator estava escalado para ser o amante, Basílio. “Ele é um garotão, tive que transformá-lo num senhor respeitável. Tivemos que inverter os papéis porque o Fábio iria gravar a novela e teria rodar suas cenas no filme antes”, conta o diretor.
A maior responsabilidade do filme caiu sobre Glória Pires, uma parceira veterana de Daniel. Ela faz o personagem mais complexo do livro – e do filme –, a empregada Juliana, que passa a chantagear a patroa Luisa (Débora Falabella), quando consegue provas do adultério. “Encarei o personagem como um desafio”, conta a atriz, “não ficava pensando na Marilia Pêra, que a interpretou na televisão”. Porém, ela quase chegou a desistir do papel. “Foi difícil me despir da minha vaidade, ficar feia. Fora o incômodo físico com a prótese que usava nos dentes e a postura”, confessa.
Inspiração Rodrigueana
Diferente do romance de Eça de Queiroz, situado na Lisboa do século XIX, o filme se passa na São Paulo de 1958. Daniel Filho fez essa opção para se aproximar do universo do escritor carioca Nelson Rodrigues e de suas crônicas da seção A Vida Como Ela É..., publicadas no jornal Última Hora, na década de 50. “Optei por São Paulo por ser uma cidade quatrocentona, onde a divisão de classes é mais rígida. No Rio, por causa da praia, tudo é mais permissivo”, alega.
Daniel Filho também foi um dos responsáveis para a adaptação para a televisão nos anos 90 de A Vida Como Ela É e pensou em imprimir esse mesmo estilo em Primo Basílio. As cenas de sexo do filme, aliás, estão bem mais próximas do universo rodrigueano do que ao de Eça de Queiroz, no qual tudo é compreensivelmente apenas sugerido. Débora Falabella chegou a ficar apreensiva quando leu o roteiro, mas nas filmagens se sentiu bem mais tranqüila por tudo ser muito bem ensaiado. “É difícil ficar sem roupa na frente da equipe, mas as cenas eram tão bem marcadas que me deu segurança”, afirmou.
Daniel Filho acredita que Primo Basílio lida com a dualidade do ser humano. Para explicar isso, usa os personagens masculinos. Para ele, Jorge é a representação do marido apaixonado, o amor; já Basílio é o sedutor, o desejo. “E eu não sou Jorge, nem Basílio. Sou os dois”, arremata o diretor, esperando um novo sucesso de bilheteria.
