06/06/2026

Personagem de Plínio Marcos ganha vida em "Querô"

Carlos Cortez, diretor e roteirista de Querô, fala sobre o trabalho de adaptação da obra de Plínio Marcos e da preparação do elenco para o longa que estréia nesta sexta (14).
O diretor e roteirista Carlos Cortez só tem o que comemorar com o seu longa de estréia na ficção, Querô, baseado em Plínio Marcos (Dois Perdidos Numa Noite Suja). Desde que foi exibido pela primeira vez, no Festival de Brasília do ano passado, o filme só tem acumulado prêmios. Entre eles, melhor ator, roteiro, direção de arte e som, nesse festival; e melhor longa, ator e montagem no 17º. Cine Ceará: Festival Ibero-Americano de Cinema, em junho passado.

Cortez conta que o interesse em adaptar o romance Querô – Uma Reportagem Maldita é antigo: “Sempre gostei dessa delicadeza com que o Plínio Marcos aborda esse universo, a forma com que vê os jovens, as pessoas solitárias”.

Outra coisa que lhe chamou a atenção foi a forma como o autor via este universo dos menores carentes. “Ele os olhava com ternura e humanidade. Algo que foi perdido ao longo dos anos, e precisamos resgatar”.

O romance de Plínio Marcos foi publicado na década de 1970, mas o filme se passa na atualidade, comprovando a atemporalidade da obra. O que não é um fato a se comemorar, uma vez que o livro aborda a trágica realidade de menores de rua da cidade de Santos. Nesses 30 anos pouca coisa mudou, como o descaso do governo, o preconceito da sociedade e a incompetência das instituições que lidam com menores infratores. “O próprio Plínio dizia que as obras dele sempre eram atuais por causa da incompetência do país”, assinala Cortez.

O filme deu uma chance para vários jovens pobres da Baixada Santista mudarem a sua realidade. O elenco principal é composto por estreantes que foram selecionados depois de participarem de uma oficina. Nessa preparação, puderam não só ter aulas de interpretação, expressão vocal, mas também discutir a realidade que seria abordada no filme e era tão próxima da vida deles.

Rodado em sete semanas, Querô usou locações no Porto de Santos e contou com a participação de moradores locais entre os quase 500 figurantes. “Eu queria muito filmar lá e senti a colaboração de todos. Os caminhões e trens até paravam quando a gente estava rodando para não fazer barulho”, conta, orgulhoso.

Apesar do roteiro muito bem elaborado, Cortez diz que deixou seus atores muito confortáveis para improvisar em cena, para criar e dar frescor aos personagens. “As oficinas de preparação foram fundamentais nesse sentido, deixando-os seguros na hora de entrar em cena”.

Esse processo de preparação resultou no documentário Eu fiz Querô, que teve algumas exibições fora de circuito. Depois de encerradas as filmagens, as oficinas foram mantidas e ensinaram a diversos jovens profissões relacionadas ao cinema. O resultado já se faz presente com a produção de curtas que levaram prêmios em festivais como o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo e de crítica no Festival de Curtas de Santos.

Cortez conta que, antes desse trabalho, muitos desses jovens eram vistos como figuras perigosas. “Agora eles têm os seus talentos reconhecidos”, comemora. Esse pode ser um primeiro passo para que daqui a 30 anos Querô já não seja mais o retrato da realidade, mas o retrato de um momento que ficou no passado.

Foto: Leo Ferreira