06/06/2026

Luigi Lo Cascio e a busca de justiça contra a Máfia

Ator de teatro há dez anos em Roma, o siciliano Luigi Lo Cascio viu sua carreira dar uma guinada ao aceitar o papel de protagonista do filme Os Cem Passos. A obra de Marco Tullio Giordana retoma a história verídica de Peppino Impastato (1948-1978), jovem radialista siciliano que não se intimida pelo fato de ser afilhado do maior chefe mafioso da região, que mora a cem passos de sua casa, em Cinisi, e ousa criar um programa de rádio de enorme sucesso, no qual desanca a máfia e as autoridades. O filme concorreu no Festival de Veneza/99, de onde saiu com o troféu de melhor roteiro. Lançado nos cinemas italianos pouco depois daquele festival, tornou-se um sucesso de público e crítica, que levou Luigi Lo Cascio a ser chamado de "Peppino" nas ruas. Nesta entrevista exclusiva, concedida durante a visita do ator a São Paulo - durante a 24a Mostra Internacional de Cinema, em outubro de 99 - Lo Cascio comenta os principais aspectos do personagem, a investigação judicial sobre seu assassinato e o renascimento do cinema político que foi tão marcante na Itália nos anos 60 e 70.

Cineweb - O assassinato de Peppino Impastato ocorreu há mais de 20 anos. O filme Os Cem Passos reacendeu o interesse pelo caso?
Luigi Lo Cascio - O caso ocorreu há 22 anos. O interesse por esta história veio de diversos pontos, quase por acaso. A idéia de fazer o filme partiu do produtor Fabrizio Mosca, lendo um livro. Procurava filmar uma história importante. Assim, mandou escrever um roteiro. Enquanto isso, descobriu que Claudio Fava e Monica Zapelli já haviam escrito um roteiro sobre o mesmo assunto. Assim, havia um interesse geral por uma história como essa. Ele propôs a direção a Marco Tullio Giordana que, depois de hesitar um pouco, aceitou.

Cineweb - Por que a hesitação?
Lo Cascio - Sendo milanês, pensou que não seria o diretor certo para uma história siciliana. Sentia-se um pouco distante da história, de um ponto de vista geográfico, mas não temporal. Giordana nasceu em 1950, dois anos depois de Peppino Impastato. Mas Giordana viveu aquela efervescência de 1968. O que finalmente o fascinou foi ver os anos 60 e 70 na Sicília, através da história de um jovem que decide romper com a própria família. Assim, o interesse da história era num 68 particular, que não era o mesmo de todo o mundo e sim um 68 de Cinisi, o confronto de Peppino com a mentalidade daquela cidadezinha e da máfia.

Cineweb - Cinisi é uma cidade muito pequena, não é?
Lo Cascio - Sim. Creio que tinha cerca de 4.000 habitantes na época de Peppino. Fica a 30 quilômetros de Palermo. É muito bom que seja uma história verdadeira, colocada diante da atenção de todos. Este herói siciliano que, apesar de morar a apenas cem passos da casa do chefe mafioso da cidade, tem uma mentalidade e uma determinação completamente diversas.

Cineweb - Você é siciliano?
Lo Cascio - Sim. Nasci em Palermo. Assim, conhecia a história de Peppino porque, na escola que eu freqüentava, de vez em quando aconteciam manifestações para recordá-lo. Mas não tinha um conhecimento profundo desta história antes de fazer o filme. Agora, quando ando na rua não me chamam mais de Luigi e sim de Peppino.

Cineweb - Ah, sim?
Lo Cascio - Sim. O que quer dizer que o personagem entrou no imaginário de toda a Itália. Tenho andado por várias cidades italianas, junto com Marco Giordana, para divulgar o filme. Peppino tornou-se um herói coletivo, que tem a ver com todo mundo. Não é apenas uma história tipicamente siciliana. Este é o sucesso maior do filme. É uma história universal, de conflito, de juventude mas também de maturidade.

Cineweb - E não existe apenas o aspecto político. Ele era um jovem como qualquer outro, como demonstra aquela parte do filme em que ele se encontra com os hippies e fala de sexo e outros temas que sempre preocuparam todos os jovens do mundo.
Lo Cascio - Ele intuiu que, no movimento hippie, havia um fator positivo, de estar junto, da coletividade. Ao mesmo tempo, enxergou os perigos de uma alienação narcisista, individualista.

Cineweb - O que há de mais extraordinário em Peppino, a seu ver?
Lo Cascio - Repare que este personagem consegue mudar a mentalidade através da cultura, do estudo. Isto faz refletir muito sobre a importância que podem ter a educação e a escola. No filme, conta-se muito sobre a sua ligação com Venutti, o pintor comunista. Mas o seu primeiro discurso que afronta é sobre poesia, sobre Maiakóvski, e não sobre Lênin.

Cineweb - Peppino também escrevia poesias, não?
Lo Cascio - Sim e não eram poesias políticas e sim puramente líricas. Ele tinha seus momentos políticos e também os que dedicava inteiramente à beleza.

Cineweb - Outro aspecto interessante do personagem é o humor, que fazia rir até as pessoas mais velhas da cidade que não concordavam com as opiniões dele.
Lo Cascio - Ele tinha essa capacidade de, mesmo dizendo coisas engraçadas, dizer também as maiores verdades. Mas a máfia não aceitava a presença dessa voz de paródia, de ironia, ainda mais sendo incontrolável e imprevisível como uma força da natureza.

Cineweb - Quantos anos tinha Peppino quando morreu?
Lo Cascio - 30 anos. Mas é bom observar que 30 anos hoje refletem uma maturidade inteiramente diferente. Hoje, os jovens de 30 anos ainda moram com a família. Pelo menos na Itália, é assim. Naqueles dias, um homem de 30 anos era muito mais maduro.

Cineweb - Giordana disse em Veneza que fez questão de encontrar atores sicilianos para interpretar os papéis deste filme.
Lo Cascio - Sim, somos todos do sul. Lucia Sardo, que interpreta minha mãe, e o ator que faz meu pai, Luigi Maria Burruano, é meu tio na vida real. Na verdade, Giordana procurava não somente atores sulistas, mas de Palermo, para manter uma fidelidade ao dialeto local e uma unidade lingüística. Há muitos dialetos na Sicília.

Cineweb - Mas eram todos profissionais, antes? Trabalhavam todos no sul?
Lo Cascio - Eram profissionais, sim. Eu trabalho em teatro há dez anos, mas em Roma. Este é meu primeiro filme.

Cineweb - Este conflito entre norte e sul na Itália é sempre muito presente, não?
Lo Cascio - Sim, muito. Agora, há um partido político, a Liga do Norte, que levou este conflito ao paroxismo. Pensam que a Sicília e o sul sejam um freio ao desenvolvimento do norte. Mas neste momento em que há enormes enchentes destruindo o norte, é o sul quem vai ajudar. Na verdade, há um intercâmbio entre as duas partes.

Cineweb - E na investigação judicial da morte de Peppino, tem havido progressos?
Lo Cascio - É um caso muito complicado, porque, na época de seu assassinato, houve erros grosseiros por parte dos policiais, que prejudicaram a obtenção de provas para indiciar o mandante, por exemplo. É um caso do qual nem mesmo os mafiosos arrependidos falaram muito. Mesmo assim, a família dele tem insistido muito e evidências importantes têm sido reavaliadas. A justiça ainda não foi feita mas há muita ânsia pela verdade.

Cineweb - A mãe de Peppino ainda vive?
Lo Cascio - Sim, a mãe e o irmão. A mãe tem 84 anos e é uma pessoa extraordinária.

Cineweb - Você a conheceu?
Lo Cascio - Sim. Ela foi fundamental para o filme. Disse-me uma frase que me fez compreender que o que ia fazer não era um filme e sim um testemunho. Ela me abraçou e disse: "Vocês têm o mesmo corpo. Mas o corpo dele eu não pude vê-lo, não pude sepultá-lo". Isto me comoveu muitíssimo. Eu sabia que tinha a responsabilidade de restituir um corpo a esta pessoa. Ela também me dizia que devia estar atento, porque Peppino era um intelectual, lia muito. Ela me mostrava os seus livros e contava que escondia as obras por causa da máfia e ele as comprava de novo.

Cineweb - Os Cem Passos tem sido um enorme sucesso de público e crítica na Itália. Acredita que seja uma espécie de renascimento do cinema político italiano?
Lo Cascio - Eu direi o mesmo que tenho ouvido de Giordana e é ele o autor. A ele, não agradam essas palavras "político" ou "engajado". Ele pensa que o cinema é espontaneamente político porque a sociedade fala sempre a língua do presente, de hoje. Assim, um filme é automaticamente político se é belo. Entretanto, quando se pensa num filme político, se pensa num alinhamento e isto empobrece uma obra, porque a torna instrumento de uma idéia. Pega-se uma idéia e faz-se um filme para representá-la. Mas um filme é algo mais complexo, é fruto da imaginação. Para mim, Os Cem Passos é mais que um filme político, é um filme profundo, complexo, que não fala da superfície, mas através da superfície indaga a respeito das camadas mais escondidas.

Fotos: Manoel Luz/Cineweb