06/06/2026

Cineasta português rejeita divisão entre cinema comercial e de autor

Diretor da comédia "Dot.com", co-produzida com o Brasil, Luís Galvão Teles defende a diversidade e a co-produção internacional.
Portugal produz anualmente cerca de doze longa-metragens. Raros chegam ao Brasil, em geral filmes de arte, de diretores como Manuel de Oliveira ou João César Monteiro, circulando em festivais como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo ou Festival do Rio. Raros exemplares desta cinematografia atingem as salas comerciais.

A novidade agora é a chegada da comédia Dot.com, do diretor português Luís Galvão Teles. O filme tem como cenário a aldeia de Águas Altas, que se vê no meio de uma grande polêmica quando é ameaçada de processo judicial depois que uma companhia espanhola quer relançar uma marca de água mineral com o mesmo nome. Águas Altas, que denomina também o novíssimo site da aldeia, vai ter de lutar pelo uso de seu nome de batismo de oito séculos.

Identidade, tradição, modernidade, tudo isso passa pelo enredo do filme, que é co-produzido com a Inglaterra, Irlanda e Espanha e também com o Brasil, através da Videofilmes – com quem o diretor luso faz parcerias há dez anos. O Brasil entra na equipe técnica também via a figurinista Cristina Camargo.

Atento às diferenças lingüísticas que separam Portugal e o Brasil, Galvão avisa que o filme passa por aqui legendado – uma providência útil que o compatriota Manuel de Oliveira, por exemplo, recusa sistematicamente. Galvão assinala que orientou seus atores a evitar um sotaque muito forte, para não cair num tom caricatural. “Para isso, chega a novela”, critica ele, que fez uma rápida visita a São Paulo, para o lançamento do filme.

Esse Portugal pequeno e rural, simbolizado pela aldeia, sofre um acelerado processo de modernização depois da entrada do país na Comunidade Européia, em 1985. As estradas se multiplicaram por toda sua extensão, dificultando a tarefa de encontrar locações para Dot.com. “Hoje é praticamente impossível encontrar uma aldeia assim isolada, como pedia o roteiro”, comenta o diretor.

Depois de muitas viagens pelo interior, o local de filmagem já estava definido, em Beira Alta, norte de Portugal, região onde Galvão passava férias na infância. Viajando a partir de Lisboa, no entanto, ele encontrou, no Ribatejo, a aldeia de Dornes. “Não acreditava no que via. Era exatamente tudo o que eu queria, 360 graus de montanhas e o lago”.

Como sempre, a realidade supera a ficção. Dornes, a aldeia real, é até menor do que a do filme – tem apenas 33 habitantes. Tanto na vida real como na ficção, a aldeia experimenta um esvaziamento populacional, permanecendo apenas os mais velhos. Um modo de vida em extinção, captado pelo filme, que usa também outro dado verídico, a entrada da internet nesses lugarejos. Anos atrás, informa o diretor, houve até um programa público para levar para a internet a esses locais.

Além do tema do direito ao próprio nome, outro assunto do filme é justamente o impacto dos meios de comunicação num ambiente, invadindo a privacidade de todos os envolvidos – que é o que acontece quando a imprensa mundial descobre Águas Altas por sua luta contra uma grande empresa.

Também neste caso, o modelo do roteiro partir de um caso real, ocorrido com a descoberta de uma rede de prostituição em localidade até então pacata de Trás-os-Montes, que chegou a ganhar uma capa da revista Time.

O que moveu Teles a realizar o filme, porém, foi a vontade de sair do cinema urbano que o caracteriza, com filmes como Glamour (2005) e Fado Blues (2003). E também o desejo de retomar a tradição mesma da comédia portuguesa, forte nos anos 30 e 40, não só no cinema como no teatro de revista.

Para Teles, a dicotomia que opõe cinema comercial de cinema de autor “não é real”. Ele acha que Dot.com, inclusive, tem capacidade de trafegar entre as duas vertentes, “falando de coisas sérias sem pretender fazer um tratado”.

Adepto das co-produções, como a que gerou esta comédia, ele destaca que continuará por este caminho. Seu próximo filme será feito nos EUA, girando em torno de um tema científico, a criogenia. “Consideram-me às vezes um diretor bissexto, porque também produzo. E também gosto de temáticas e gêneros diferentes, o que a crítica estranha, parece que prefere diretores que se fixem mais num único estilo”, observa.

Um de seus próximos trabalhos também terá algo a ver com o Brasil. Será uma adaptação do romance O Último Vôo do Flamingo, do moçambicano Mia Couto, que começa a ser rodado entre março e abril de 2009. Embora a história original ambiente-se em Moçambique, o casting será feito no Brasil, através também da Videofilmes. O motivo é que há doze papéis previstos para atores negros, que, em Portugal, há poucos. Em Moçambique, há poucos profissionais, segundo o diretor.