Breno Silveira combina tensão social com história de amor
O diretor de 2 Filhos de Francisco explora a relação entre favela e asfalto no Rio de Janeiro numa fábula em que a menina rica se apaixona pelo rapaz pobre e juntos tentam vencer barreiras. O filme estréia sexta.
- Por Alysson Oliveira
- 23/07/2008
- Tempo de leitura 3 minutos
Existe uma expectativa muito grande em cima dessa fábula moderna sobre o amor de dois jovens num Rio de Janeiro dividido entre o morro e o asfalto. Era Uma Vez... custou em torno de R$ 8,5 milhões e chega aos cinemas brasileiros com cerca de 70 cópias. É pouco provável que bata a bilheteria da estréia de Silveira. Por outro lado, espera-se que leve um público jovem ao cinema – afinal, o longa é protagonizado por dois jovens.
A relação entre o morro e o asfalto no Rio de Janeiro tem sido bem explorado no cinema brasileiro – em especial nos sucessos Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007). Mas apesar da geografia e da temática em comum, Silveira acredita estar falando sobre outro prisma. “O filme do Meirelles faz muito bem um mapa da favela, mas não vai fundo nos personagens. O do Padilha fala do lado da polícia. Eu acho que faltava falar das ‘pessoas invisíveis’”, explica o diretor. Ele acredita que, com seu filme, por ser uma fábula, poderá tocar as pessoas de outra forma. “Não me interessa falar da violência que excita. Quero saber em quem está pegando o tiro que ouço todo dia”, conclui.
Em Era Uma Vez..., Dé (Thiago Martins) é um morador da favela de Cantagalo que trabalha num quiosque de cachorro-quente em Ipanema, bem em frente ao apartamento de Nina (Vitória Frate), na Vieira Souto. Ele a observa de longe e vive um amor platônico até que uma série de eventos permite que se conheçam de verdade e se apaixonem, apesar de inúmeros obstáculos.
Era Uma Vez... deveria ter sido, aliás, o primeiro filme de Silveira na direção. Até 2 Filhos... ele trabalhara como diretor de fotografia em filmes como O Homem do Ano (2003) e Carlota Joaquina – Princesa do Brazil (1995). A idéia surgiu no final dos anos de 1980, quando trabalhou com Eduardo Coutinho em Santa Bárbara – Duas Semanas no Morro. Depois de ler Cidade de Deus, o diretor procurou o escritor Paulo Lins, autor do romance. Como os direitos já estavam vendidos, começaram a trabalhar num roteiro original. “Escrevemos uma história sobre um garoto bom que continuava bom apesar das dificuldades. Mas não consegui vender esse roteiro”, recorda. Depois do sucesso do filme sobre Zezé Di Camargo e Luciano, Silveira voltou ao antigo roteiro, agora com a colaboração de Patrícia Andrade – co-roteirista de 2 Filhos....
Apesar da temática, Silveira acredita que seu trabalho traz algo de novo e que o assunto está longe de ser esgotado. “Se a gente olhasse com mais cuidado uns aos outros, a história seria diferente”, acredita. Por isso optou por um tom de fábula.
A maior parte do filme foi rodada in loco, na favela do Cantagalo e em Ipanema. Para Silveira, essa é ‘a favela mais bonita da cidade’. Para viabilizar as filmagens, começou a fazer contato com a comunidade meses antes. Por isso, conseguiu estabelecer uma relação de cooperação entre a equipe e os moradores, que se dispunham até a desligar os rádios para não atrapalhar na captação do som direto. “Rodar na Vieira Souto é até mais complicado. As pessoas não respeitam. Se atrapalhava um pouco o trânsito, já começavam as buzinas, os xingamentos”, recorda.
Quanto ao elenco, Silveira procurava atores que tivessem a mesma ‘alma dos personagens’. Apesar de Thiago Martins (Cidade de Deus) ter um perfil ideal para fazer Dé, o diretor o recusou por meses. “Ele vinha para os testes e não parecia nada com um morador da comunidade. Eu falava para ele que tinha virado galã de novela”, brinca. Mas o ator o surpreendeu em um dos testes e conseguiu o papel tão sonhado. “Minha história é parecida com a de Dé. Cresci na favela, perdi irmãos, como o personagem, e enfrentei preconceitos”, confessa o jovem ator.
Ao final de Era Uma Vez..., antes dos créditos, Martins se despe do personagem é dá um depoimento na primeira pessoa. Suas palavras são emocionantes e a prova de que Silveira está certo – basta olhar com mais carinho para o lado, que é possível mudar uma realidade.
