23/07/2026

A volta do terror nacional

Quarenta anos depois de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, José Mojica Marins conclui a trilogia do seu famoso personagem, Zé do Caixão. Com o maior orçamento de sua carreira, o diretor reinventou seus métodos mas não seu estilo. Leia mais.
As unhas enormes continuam lá. A capa preta e a cartola conferem. Mulheres nuas, torturas, bichos nojentos e banho de sangue também estão na tela. Mas na produção, quanta diferença. Em seu 34º longa como diretor, José Mojica Marins, mais conhecido pelo personagem Zé do Caixão, ele teve o maior orçamento de sua carreira, R$ 1,8 milhão, para a produção. A diferença é visível na tela.

“Foram mais de 40 anos e várias tentativas frustradas para fazer Encarnação do Demônio. Mas agora tive carta branca”, comemora o cineasta, do alto de seus mais de 70 anos de vida e 50 de carreira. Com esse filme, encerra-se uma trilogia que começou com À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e seguiu com Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver (1967).

Encarnação do Demônio começou a ser produzido em 1967, antes mesmo do lançamento do segundo filme da série. Na época, problemas com a censura impediram que o projeto fosse tocado. Ao longo dessas décadas, Mojica chegou bem perto de realizar o seu longa – mas vários fatores o impediram, como a morte de produtores. “Para poder sobreviver, fiz outros tipos de filmes, até de sexo explícito”, relembra. Nesse gênero, fez obras como o metalingüístico 48 Horas de Sexo Alucinante (1986).

Agora, os tempos são outros. A partir de Delírios de um Anormal (1978), a figura do Zé do Caixão ganhou status de cult. Desde aquela época, Mojica se aventurou em outras áreas, como os pornôs, comerciais para a televisão e as “Noites do Terror”, do parque Playcenter – que, aliás, serve de cenário para o clímax do novo filme.

Em relação ao cinema, porém, Mojica estava desanimado. Tinha até desistido de completar sua trilogia quando foi procurado por Dennison Ramalho que, com o montador e produtor Paulo Sacramento, queria fazer Encarnação do Demônio. Tinha uma verba de R$ 500 mil de um programa do governo, mas com ajuda de seus produtores captou mais, quando entraram também a Gullane Filmes e a Fox Film do Brasil para distribuir.

Encarnação do Demônio não deve decepcionar os fãs do diretor, apesar dos ares de ‘superprodução’. “Até me assustei com a estrutura. Antes, minha equipe não passava de 12 pessoas. Agora, eram 70, todos curiosos para ver como eu voltaria à ativa”. Os primeiros dias não foram muito fáceis mesmo, confessou o diretor na coletiva de lançamento do filme em São Paulo. “Mas no terceiro dia, quando filmava as cenas do purgatório, reencontrei minha vitalidade”, comenta, referindo-se à seqüência na qual contracena com Zé Celso Martinez Corrêa.

Já no quesito ‘animais nojentos’, dessa vez Mojica optou por baratas. “Eu nunca tinha usado baratas nos meus filmes. O Glauber (Rocha) tinha percebido esse detalhe há muitos anos, por isso dessa vez resolvi usá-las. Mas quem mergulha a cabeça nelas é minha mulher, a atriz Lena Dark. A barata e o ‘barato’ não são venenosos, mas impressionam. No dia em que rodamos a cena, todo mundo no set chegou com botas”, relembra, rindo.

Festivais e Público - A recepção positiva do filme em festivais também tem surpreendido o criador do Zé do Caixão. Recentemente, no primeiro Festival de Paulínia, o longa levou diversos prêmios, entre eles melhor filme e o prêmio da crítica. Na semana passada, Encarnação do Demônio foi selecionado para uma das sessões da meia-noite do Festival de Veneza, que começa em 27 de agosto. "Eu sempre quis participar de Veneza mas, como sou um cineasta de terror, achava que nunca seria selecionado. É um sonho".

Mojica lembra com alegria esse seu retorno ao set: “Nunca tive tanta coisa legal. Todo mundo sempre feliz”. Quando fala da morte de Jece Valadão, porém, o diretor se emociona. O ator morreu em novembro de 2006, pouco depois do término das filmagens, e interpreta um policial que persegue Zé do Caixão. “Ele já estava doente com diabete e disse que se algo lhe acontecesse, não era uma maldição do filme”.

Encarnação do Demônio chega aos cinemas brasileiros com cerca de 60 cópias. É uma aposta do próprio Mojica e da Fox, que irão descobrir como o público reage ao personagem mais de 40 anos depois de sua última incursão. Mojica já faz planos. “Meu próximo filme deve se chamar ‘Devoradores de Olhos’ e vai ser muito forte, pois os olhos são o espelho da alma. E o personagem tem que arrancar os olhos das mulheres”, planeja o diretor. Enquanto isso não vem, ele confessa: “Sigo o caminho de Deus, mas minha religião é o cinema”.