Paulo Caldas faz ‘documentário da ficção’ em “Deserto Feliz”
- Por Alysson Oliveira
- 28/11/2008
- Tempo de leitura 3 minutos
“Essa notícia me levou à questão do sertão pernambucano, de onde eu queria tirar uma visão contemporânea. Surgiu a idéia de uma família, um caçador e sua família. A Jéssica (personagem central do filme) é um dos membros dessa família”, explica. Já o tema da prostituição e turismo sexual apareceu depois, quando ele estava fazendo pesquisa pelo sertão.
Para desenvolver o roteiro, escrito em colaboração com Marcelo Gomes, Manoela Dias e Xico Sá, Caldas fez uma extensa pesquisa campo, conversando com prostitutas. Novamente, o lado de documentarista do cineasta falou alto. “A ficção tem regras rígidas de produção. Já no documentário, cada um faz de uma forma. Eu tentei fazer ‘um documentário da ficção’, explica o cineasta.
A história de Jéssica – uma menina que é abusada pelo padrasto, sai do sertão, se prostitui em Recife e acaba casando com um estrangeiro – não é pouco comum. “Muitas das moças do interior sonham em ir para o Recife e casar com um estrangeiro”, conta o diretor.
Deserto Feliz é uma co-produção entre Brasil e Alemanha. As filmagens em Berlim, aliás, onde se passa a última parte do filme, foram feitas sem roteiro. “Criamos quase tudo nos espaços, nas ruas, no bairro onde ficamos hospedados”, explica. Além disso, o turista por quem Jéssica se apaixona e a leva para a Europa é alemão, vivido pelo ator Peter Ketnath (de Cinema, Aspirinas e Urubus).
Quando perguntado, no Festival de Berlim do ano passado, onde o filme teve sua première, o porquê de ter escolhido um turista alemão, Caldas esclareceu: “Não fui eu que escolhi um alemão, foram os alemães que escolheram as prostitutas de Recife. No Nordeste, onde há um sexo-turismo muito forte. Cada cidade tem incidência de um maior número de turistas de um país específico. Em Recife, são os alemães, em Fortaleza, são os portugueses, em Natal, os noruegueses”.
Com o roteiro estruturado, Caldas começou a procurar a atriz para o papel principal. Fez diversos testes com não-atores, mas Nash Laila foi uma das primeiras e logo de cara chamou a atenção. O diretor ressalta que, no elenco, não queria pessoas conhecidas – exceto Zezé Motta, a quem Caldas queria homenagear. Para preparar os atores, foram feitos diversos ensaios, em locação, com uma câmera de vídeo. Ao todo, foram três semanas de filmagens no Brasil e quatro dias em Berlim.
O filme já estreou comercialmente na Holanda. O acordo de produção com o canal alemão ZDF também prevê o lançamento no país, assim como com o canal Arte, para um lançamento na França. No Brasil, o filme chega aos cinemas depois de passar por festivais, como Gramado, onde recebeu prêmio de direção, direção de arte, fotografia, música e da crítica.
Agora, Caldas prepara seu novo filme, com o título provisório de Amor Sujo, que trará no elenco Maria Padilha e Leonardo Medeiros, contando um triângulo amoroso envolvendo um padre, uma violoncelista e um médico. A produção é assinada pela Bananeira Filmes – a mesma responsável por A Festa da Menina Morta e Feliz Natal – e deve começar a ser rodada no primeiro semestre do próximo ano.
