Christophe Barratier defende a fantasia no cinema
- Por Neusa Barbosa
- 18/06/2009
- Tempo de leitura 7 minutos
Cineweb – As canções de “Paris 36” são extremamente vivas e saborosas. Elas já existiam antes ou foram compostas para o filme?
São todas canções originais. É verdade que se inspiram no estilo dos anos 30, mas foram todas compostas hoje.
As letras são de um compositor muito conhecido na França, Frank Thomas, que fez uma grande carreira como letrista. O autor da música é Reinhardt Wagner, que é muito talentoso e tem um conhecimento muito grande de toda a música popular francesa. Ele é capaz de compor clássicos mas tem uma verdadeira paixão pela canção popular, também. Thomas e Wagner já trabalham juntos há 15 anos. E nós três compartilhávamos a mesma paixão sobre os anos 30, por isso partimos para este trabalho.
Cineweb - Por que a atração por essa época ?
Em primeiro lugar, porque é um período muito rico em imagens. Os bairros populares franceses dos anos 30 são qualquer coisa de verdadeiramente formidável em termos estéticos. Além disso, é um período muito rico em conflitos. Na época, havia uma grave crise e já pairava na França e na Europa toda a ameaça da II Guerra Mundial.
Ao mesmo tempo, havia na época noções verdadeiras de solidariedade popular, nos meios populares. Entre os trabalhadores, isso era muito forte, era uma verdadeira convicção de que todos partilhavam. Infelizmente, logo a seguir foram confrontados com a II Guerra Mundial, tudo isso acabou. Queríamos captar essa ironia da História.
Além disso, há muito tempo tenho uma paixão particular pelo cinema francês dos anos 30. Fazer o filme foi de certo modo uma maneira de homenagear todos os grandes autores daquela época.
Cineweb - Quais diretores da época admira?
Carné, Duvivier, Renoir, Descoins, todos contribuíram para a formação de minha cultura desde pequeno.
Cineweb - Em termos de reconstituição de época, quais foram seus desafios? Afinal, Paris mudou muito desde a década de 30.
Nenhum dos bairros populares existe mais, por isso foram totalmente recriados em estúdio. Isso foi até uma sorte, porque assim pudemos reconstruí-los seguindo exatamente nossa idéia. Eu e meu designer de produção pegamos diversas fotografias da época, escolhemos as de que mais gostávamos e dissemos – “Vamos construir nosso bairro ideal”.
Cineweb - Claramente o sr. prefere a fantasia ao realismo, as histórias “mais belas do que a vida”, como disse numa entrevista.
Sim, amo a fantasia, quero que as histórias me conduzam e que ao sair da sala de cinema eu tenha um sentimento de idealismo. Em todo caso, sinto-me bem de contar histórias assim. Não acho que haja apenas uma forma de fazer cinema mas o tipo de filmes de que gosto são aqueles que me provocam a vontade, por algumas horas, ou até alguns dias, não de mudar o mundo, mas de mudar minha vida, de evoluir, de crer nas coisas que não são necessariamente materiais, são fatores de elevação.
Cineweb - O sr. vai um pouco contra a corrente neste momento, em que há muitos filmes pessimistas, mesmo que sejam bons.
Na vida eu sou pessimista também, por isso mesmo gosto de contar histórias que não o são. Há sempre duas maneiras de fazer as coisas. Posso colocar todas as minhas angústias no papel. Mas essas angústias, mesmo num filme otimista, não determinam que no filme todo mundo vai se dar bem. Tanto em A Voz do Coração como em Paris 36 há mortes e outras coisas que não se passam bem, mesmo tragédias. Minha idéia de sucesso está na consolidação do personagem, ainda que ele nem sempre se dê bem. A idéia é que de tudo o que fazemos, alguma coisa irá restar.
Cineweb - Nora Arnezeder, que interpreta a jovem cantora Douce, está estreando no cinema em seu filme. Como a descobriu?
Ela tem todas as qualidades para ser uma estrela e é uma excelente cantora também. Encontrei-a fazendo um casting com uma enorme quantidade de jovens entre 18 e 20 anos, totalmente desconhecidas. No filme, aliás, ela também é uma jovem artista que tenta iniciar-se na carreira. Há uma relação, portanto, entre o que ela vivia na realidade e o que acontece na história. Gosto de fazer essa mistura no elenco, em que o público encontra aqueles que já ama e conhece (caso do veterano Gérard Jugnot) e outros que não esperava. Acredito que isso é gratificante tanto para o público quanto para o realizador. Acho que faz parte do trabalho do diretor descobrir pessoas. Amo muito os atores.
Cineweb - O fato de ter atores no set com experiências tão diferentes não complica seu trabalho?
Não, é fácil. Falo muito com os atores mas o essencial não é isso. O essencial é que não se erre de ator. Se se erra no casting, é complicado. Parece banalidade dizer isso, mas é verdade. A verdadeira escolha na direção de atores é o momento de sua própria escolha. E, ironicamente, foi mais Jugnot do que Nora quem me pedia para repetir as tomadas. Ela era boa na primeira, muitas vezes.
Cineweb - Talvez porque, por ser iniciante, ela não tinha desenvolvido ainda nenhum medo.
Talvez, mas acho que também porque ela era a personagem. Ela era ela mesma.
Cineweb Por que decidiu trabalhar com Tom Stern, diretor de fotografia dos filmes de Clint Eastwood?
Eu tinha necessidade de alguém bem experiente para esse filme, que exigia uma iluminação extremamente complexa. Precisava de alguém experiente e, ao mesmo tempo, rápido. Porque tínhamos um plano de trabalho bem rígido, numa agenda semanal de segunda a sábado por quatro meses. Portanto, precisava de alguém em quem pudesse me apoiar totalmente. Ele foi extraordinário.
Cineweb E em termos de público, como foi Paris 36 na França?
Bastante bem, embora eu esperasse mais. Acho que fiquei mal-acostumado depois de A Voz do Coração, que vendeu 9 milhões de ingressos na França. Com este, fizemos 1,8 milhões de espectadores, fiquei um pouco decepcionado.
Cineweb - A que fator atribui essa diferença?
Acho que tivemos um pequeno problema de comunicação.As pessoas pensaram que Paris 36 se tratava de um filme-homenagem ao music-hall, enquanto o music-hall era apenas um pretexto dentro do filme. Para mim, antes de tudo, é uma história humana. Mas as pessoas o encararam como se fosse uma homenagem a algo muito velho. Acho que foi um pouco malcompreendido. Começou até mal na estréia mas depois o boca a boca recuperou bastante. Depois, foi vendido em todo mundo, de modo que não posso reclamar.
Cineweb - Mesmo sem ser um filme político, a política está sempre ao fundo, determinando a vida dos personagens. Como vê a política daquela época? Há semelhanças com os dias de hoje?
No filme, o fundo político é muito vibrante. Além da situação francesa, havia uma situação européia, porque nas nossas fronteiras a Espanha, a Itália e a Alemanha já tinham passado à ditadura. Portanto, estávamos cercados de fuzis. Não enxergávamos isso. E pensamos que estaríamos sempre protegidos. No final, nos encontramos na mesma situação que todo mundo. Portanto, no filme sentimos essa ameaça que ronda, o antissemitismo que é extremamente forte. Não é um filme político, mas de algum modo é um filme social que conta um movimento da sociedade francesa à época.
Naqueles dias, havia uma oposição extremamente forte contra a esquerda. Era fácil distinguir os dois lados. Quando se era do povo e trabalhador, se era de esquerda. Quando se estava ao lado da elite e da riqueza, se era de direita. Hoje em dia, estranhamente, é tudo ao contrário...As pessoas sofisticadas e cultas são de esquerda, e os setores populares estão à direita. É o inverso. Paris, que é uma cidade onde é muito caro morar, onde se tem que ser rico para morar, hoje vota na esquerda.
