06/06/2026

José Joffily atualiza drama de Plínio Marcos


Fotos de Luiz Vita

Depois de uma incursão pelo documentário, O Chamado de Deus(2000), que retrata as dúvidas e conflitos de um grupo de seminaristas, o diretor José Joffily embarcou no universo áspero de Dois Perdidos numa Noite Suja, peça de Plínio Marcos de 1966. Num cenário claustrofóbico, num quarto de pensão da periferia paulistana, dois marginais, Tonho e Paco, se degladiam no limite da ferocidade, numa história que conduz à morte de um deles. A história já tivera uma primeira versão cinematográfica em 1971, sob a direção de Braz Chediak, com Emiliano Queiroz e Nelson Xavier nos papéis principais. Quase quarenta anos depois, Joffily e o roteirista Paulo Halm ousaram mudar o sexo de um dos personagens - Paco, vivido pela atriz Débora Falabella - e transferiram o drama para os dias de hoje, em Nova York, cidade em que tantos imigrantes brasileiros procuram o sonho de uma vida melhor. Nesta entrevista exclusiva, em São Paulo, o diretor detalha essas mudanças e explica as intenções desta refilmagem, premiada nos festivais de Gramado e Brasília.

Cineweb- Como foi que você resolveu dar uma guinada tão radical, de um documentário sobre vocações sacerdotais, em O Chamado de Deus para o universo do Plínio Marcos?

José Joffily - Um pouco antes de lançar O Chamado de Deus, eu estava trabalhando com o Roberto Bomtempo uma versão da história da vida do Raul Seixas para o teatro, Raul Fora da Lei. Teatro é aquela coisa, você tem muito tempo de ensaio, conversa muito, e o Bomtempo me disse que tinha estado com o Plínio Marcos aqui em São Paulo. Foi ele quem me falou de Dois Perdidos numa Noite Suja, que ele tinha vontade de dirigir. Naquela época, ele até falou com o Plínio e ele tinha achado ótima a idéia de transpor a história para Portugal.

Cineweb - Antes de Nova York, pensou-se em Portugal, então?

Joffily - Na primeira versão do roteiro, que o Bomtempo tinha desenvolvido com o Gustavo Fernandes, a história se passava em Portugal.

Cineweb - De qualquer maneira, o cenário ia mudar.

Joffily - Ia. O Plínio achou ótimo. O Bomtempo tinha negociado com ele os direitos da adaptação e me falou daquela história. Eu registrei aquela conversa mas, vida que rola, a peça estreou. E lá pelas tantas eu propus a ele mudar, que ele atuasse e eu dirigiria. Livrei ele de uma roubada, né? [risos]. Propus a ele que fizesse o Tonho. Eu tinha chance de montar a produção, o texto me interessava muito desde a primeira vez que vi a peça com meu pai.

Cineweb - Você viu a peça no Rio?

Joffily - Vi. Na época a peça era encenada pelo Emiliano Queiroz e pelo Nelson Xavier, no Teatro Opinião no Rio e me deixou uma impressão muito forte.

Cineweb - Essa, aliás, era a mesma dupla que fez o filme do Braz Chediak.

Joffily - É, fizeram também no cinema, 30 anos atrás. Um bom filme. Até era um desafio eu fazer o meu, porque esse já existia. O meu era um remake. Mas o meu interesse nasceu das conversas com o Bomtempo.

Cineweb - Você sentiu o tempo todo que o texto e a situação tinham uma atualidade, que era um desafio que valia a pena ser encarado?

Joffily - Quem escreveu o roteiro foi o Paulo Halm, parceiro antigo. A gente ficou mais ou menos um mês conversando, lendo o texto, vendo a prosa do Plínio e ao longo do tempo tentamos adivinhar o que ocorreria numa nova adaptação. Se a gente mudasse a peça, que estava sendo encenada há quase 40 anos com sucesso, alguns iam dizer que era um sacrilégio, que a gente mexeu num texto que vinha dando certo. Se por outro lado, a gente não mexesse, outra parte da crítica ia dizer que a gente não teve imaginação suficiente para transpor para os tempos atuais uma peça que, afinal de contas, tinha sido escrita há 40 anos. Diante desse impasse, a gente chegou à conclusão que era melhor ter uma versão própria. Para ter uma versão própria, a gente tinha que saber qual era a essência da peça e reforçá-la.

Cineweb - Explique melhor esse ponto.

Joffily - Não é à toa que a peça sobrevive há tantos anos. Ela tem na sua essência um núcleo que a gente devia não só respeitar como reforçar. Deveria ter também uma casca em que a gente poderia mexer à vontade. Estou falando meio simplificadamente, mas não foi tão simples assim.

Cineweb - E qual foi esse núcleo?

Joffily - A gente identificou que a peça tinha uma coisa muito forte, muito poderosa, que era a exposição da falta de solidariedade. Eu me lembrei também que, na primeira vez em que assisti à peça, uma das coisas que me deixaram muito inquieto era essa possibilidade de solidariedade que não se efetivava. Eu ficava pensando - "O Paco vai apertar a mão do Tonho, eles vão ficar amigos, não é possível! Esses dois caras estão precisando um do outro". Então, o que é eterno na peça e acho que é uma revelação, sob o ponto de vista da dramaturgia, é essa ausência de solidariedade entre dois ferrados, dois miseráveis que em tese deveriam se aproximar mas se antagonizam. É uma solidariedade que está sempre prometida mas não ocorre. Por isso é que a peça é o que a gente chama hoje de politicamente incorreta.

Cineweb - Como assim?

Joffily - Porque ela identifica que não é pelos miseráveis terem a mesma miserabilidade que eles vão se unir. Ao contrário. A rigor, a gente mantendo aqueles dois caras isolados naquele galpão em Nova York, tudo levava a crer que eles deveriam ficar juntos. O fato de um deles ser mulher, homem, menino não conta. Aquela história poderia se passar entre um homem e um cachorro, entre duas lésbicas, entre um velho...Aliás, a gente pensou numa ocasião em fazer aquela história acontecer entre um velho caquético e um menino, neto dele. A gente exercitou muito essa possibilidade, que talvez fosse até mais cruel.

Cineweb - É, porque aí você lida com os estereótipos do bom velhinho e da criança.

Joffily - Exatamente. Mas ficaria difícil conseguir esse elenco. A gente resolveu então fazer aquele casal.

Cineweb - Desde o começo, o Bomtempo seria o Tonho.

Joffily - Sim. Tanto que, quanto começamos a listar as atrizes que iríamos testar para convidar para fazer o Paco, a gente tinha essa certeza. Ela teria que ter ao mesmo tempo a força para fazer o personagem e a química para contracenar com o Bomtempo.

Cineweb - Por que você mudou o cenário de Portugal para Nova York?

Joffily - Primeiro porque eu fui imigrante em Nova York. Eu conhecia. E achei que era mais revelador. Hoje existem nos EUA 700.00 brasileiros morando lá, clandestinos, jovens brasileiros. Essa contradição do Brasil, país que sempre recebeu imigrantes, passou nos últimos 30 anos a perder esses jovens, que foram buscar um futuro no exterior. 700.000 pelo menos.

Cineweb - Isso é uma cidade!

Joffily - É mesmo. E eu achei também que Nova York era mais um ícone do imigrante do que Portugal. Então, a gente reescreveu o roteiro mais uma vez porque naquela versão que se passava em Portugal os dois personagens eram homens ainda. Mas eu me lembrei de outra coisa, sob o ponto de vista formal, que tinha ficado na minha cabeça do tempo em que a peça foi montada. Em quase todo o teatro que era encenado então, as pessoas que estavam no palco eram de classe média, vestiam-se bem. Os personagens eram senão da elite, de remediados da classe média. Mas ferrados no palco eu nunca tinha visto.

Cineweb - Esse era bem o universo do Plínio.

Joffily - Isso na ocasião era uma novidade danada, era um choque. Lembro até hoje do figurino do Paco, que era uma calça toda suja e não tinha cinturão. Tinha uma corda amarrada na cintura. Ele usava uma camisa regata rasgada e também suja. Era um personagem que a gente via na rua mas não no palco. O Plínio pela primeira vez trouxe isso para o palco. Por outro lado, de lá para cá, depois que apresentou esses dois caras para o cenário da dramaturgia, eles transitaram por vários lugares. Aqueles personagens excluídos foram para o cinema. A imprensa descobriu, isso ficou exposto. Não é por falta de exposição que as mazelas não se resolvem no Brasil. Desde a criminalidade até a miséria, nada está oculto hoje. Mas na ocasião, estavam. O Plínio escancarou isso.

Cineweb - Agora, de qualquer maneira, o fato de Paco ser mulher ele cria uma tensão diferente. Introduz outros ingredietes, nem todos previstos, claro.

Joffily - Com certeza, nem todos previstos. A gente filmou a história dela com o pai, ela menina, com 10 anos de idade, o passado dela. Então era um passado que sempre voltava no filme.

Cineweb - Mas você cortou essas cenas do filme. Por quê?

Joffily - A gente começou a achar que era muito causa-e-efeito: "A Paco é assim porque o pai seduziu". Ficava psicologizando muito. A gente não é efetivamente fruto apenas de um passado assim, é a soma de muitas coisas.

Cineweb - Em Nova York, você pegou o 11 de setembro, você filmou um pouco antes, um pouco depois, não é?

Joffily - Realmente. Tem imagem das torres no filme. Era inverno quando a gente voltou. E o clima estava bem mais pesado, as pessoas muito desconfiadas. Acho que Nova York nunca mais vai ser a mesma.

Cineweb-3/4/2003-18.54