Diretor homenageia comunidade brasileira em Londres ao lembrar da tragédia de Jean Charles
- Por Alysson Oliveira
- 25/06/2009
- Tempo de leitura 4 minutos
Por isso, para compor o personagem-título em Jean Charles, Selton só pode basear-se em relatos das pessoas que conheceram o rapaz e em sua intuição. Não havia sequer imagens em vídeo dele – apenas algumas fotos. E, ainda assim, a intuição do ator mostrou-se precisa, pois muita gente, inclusive a mãe de Jean Charles, reconhece em Selton o mesmo ar e alguns trejeitos do verdadeiro.
Existe uma homenagem a Jean Charles ao lado da saída da estação de metrô de Stockwell, onde ele foi assassinado, com flores, fotos e bandeira do Brasil. “Eu queria ir lá, pedir licença para ele para fazer o papel, mas o diretor não deixou”, revelou Selton numa coletiva de imprensa em São Paulo, para o lançamento do filme, que acontece neste dia 26 de junho.
Selton disse que encontrou dentro de si mesmo inspiração para criar o personagem. “Como ele, nasci numa pequena cidade do interior. A maneira como ele se assombrava com Londres não é muito diferente da minha. Temos um caipirismo em comum”.
Já o diretor Henrique Goldman (Princesa) e o roteirista Marcelo Starobinas fizeram uma pesquisa profunda para contar não apenas a história de Jean Charles, mas fazer desta um painel e um reflexo da vida de milhares de brasileiros radicados – muitos ilegalmente – na Inglaterra. “O filme é uma celebração da vida dele e das comunidades do Brasil no exterior”, explica o diretor.
O caso sensibilizou a opinião pública no Brasil e na Inglaterra. “No Brasil, a morte de uma pessoa pela polícia é corriqueira, na Inglaterra, isso é um escândalo. As dimensões que o caso tomou, apesar da impunidade dos culpados, mostra que o governo britânico tem muito respeito pela vida humana”, analisa o roteirista.
Segundo o diretor, a polícia fez de tudo para culpar Jean Charles por sua morte, dizendo que ele resistiu à ordem de prisão. “Mas as testemunhas negam isso. Eles contam que os policiais à paisana chegaram atirando. E, para piorar, as imagens do circuito interno do metrô sumiram”, conta Goldman. Por conta disso, o filme sofreu uma mudança quando já estava pronto.
Na versão final, o personagem Jean Charles dizia algumas frases antes de ser executado, perguntando aos homens que lhe apontavam uma arma o que estava acontecendo. Como, segundo as testemunhas isso não aconteceu, o primo do rapaz, Alex (que também é um personagem do filme), pediu para que a cena foi alterada. Como há um processo judicial ainda em andamento, Goldman achou melhor retirar esse diálogo do filme para que não causasse nenhuma implicação legal e acabasse prejudicando a família de Jean Charles.
Documentário e Ficção - Goldman tem formação de documentarista (entre seus filmes estão Ken and Rosa, sobre o cineasta Ken Loach e uma imigrante que foi extra num de seus longas), e isso falou alto na hora de fazer Jean Charles. Várias cenas tem um tom documental, com Selton e os outros atores interagindo espontaneamente com imigrantes brasileiros em Londres.
“Sempre há uma confusão entre realidade e ficção. As pessoas fazendo o papel de si mesmas também trazem um quê de documental ao filme”, explica o diretor. Em Jean Charles, diversas pessoas ‘interpretam’ a si mesmas, como Patricia Armani, prima do personagem, e Mauricio Varlotta, que foi patrão do rapaz.
Já Vanessa Giácomo e Luiz Miranda, ao contrário de Selton Mello, puderam conhecer Vivian e Alex, os primos de Jean Charles a quem dão vida na tela. Miranda conta que tentou se aproximar ao máximo do verdadeiro Alex – mas este é uma figura ímpar. “Ele, inclusive, é um personagem com consciência política, mas essa consciência só veio com o tempo, depois do assassinato de Jean Charles”, explica o ator.
Enquanto fazia o filme, Goldman percebeu que vivia ‘numa cidade brasileira diluída em Londres’. Ele conta que no Brasil nunca conheceu um goiano, enquanto na capital inglesa, onde mora desde 1990, encontra com vários todos os dias. “Por isso eu quero, com o filme, celebrar essas pessoas que saem pelo mundo em busca de algo maior. E não um lamento daqueles que vão para lá fazer o trabalho que os europeus não querem. O Jean Charles foi mais um desses personagens, que, infelizmente, teve um final trágico”, conclui o diretor.
