06/06/2026

Cédric Klapisch e a busca do pequeno grande cinema

Diretor de 15 filmes, na maioria dos quais assina também o roteiro, além de participar em pontas como ator, Cédric Klapisch, 48 anos, ocupa definitivamente uma posição de destaque no cinema francês contemporâneo. Com filmes como Albergue Espanhol (2002, 3 milhões de espectadores na França), Un Air de Famille (1996, 2,5 milhões de espectadores), O Gato Sumiu (1996, 700.000 espectadores) e Peut-Être (1999, 800.000 espectadores), ele coleciona sucessos de bilheteria sem abrir mão de um padrão de qualidade.

Suas histórias minimalistas, em torno de grupos humanos em grandes cidades, primam pela delicadeza e procuram expor o social e o político nos detalhes. Nesta entrevista exclusiva, concedida em sua passagem por São Paulo, em junho de 2009, ele fala sobre seu estilo, sua formação e o que pensa do cinema francês antigo e moderno.

Cineweb - O sr. escreveu uma tese de mestrado sobre Woody Allen. Qual a sua relação com ele?

Admiro-o muito por muitas razões. Por todos os filmes que fez – e ele fez muitos – e porque, para mim, ele inventou uma nova forma de fazer comédias. Penso que, antes dele, o mundo da comédia e o mundo intelectual estavam separados. Ele tornou possível fazer o humor intelectual. É isto o que me impressiona mais em seus filmes, porque não é nada simples. Assistimos a vários filmes que podem ser engraçados mas o humor distancia-se dos personagens. Ele, ao contrário, faz humor e consegue ficar perto dos personagens. Almodóvar também consegue isso, estar próximo dos seres humanos e inserir qualquer coisa de inusitado para poder fazer comédia.

Cineweb - Acha que seu cinema tem a ver com o de Woody Allen?

Sim, eu procuro a mesma ligação entre a leveza e a profundidade. Procuro a leveza mas também que esta leveza não seja apenas ligeira, sem interesse, apenas para divertir.

Cineweb - Então, o sr. pretende que seus filmes expressem algo sobre a nossa época, a sociedade, mesmo a política ?

Sim. Digamos que gosto daquilo que faz a conexão entre a psicologia e a política. Um filme apenas político para mim não é interessante. O mesmo acontece com um filme apenas psicológico. Então forçosamente gosto de algo que associe um problema individual a um problema de grupo, um problema de Estado.

Cineweb - O sr. também tenta fazer uma conexão com uma cidade, um determinado local, como Paris. Como em Paris e O Gato Sumiu.

Adoro as cidades porque nelas se coloca em destaque as relações humanas. As cidades são lugares onde as pessoas se agrupam. É como um laboratório humano.

Cineweb - Como lhe surgem as idéias de seus roteiros – a partir de uma imagem, um personagem?

De fato, geralmente um roteiro é uma soma de desejos. Há o desejo visual, o desejo pelos atores, pela história e no final mistura-se tudo isto. Então vem uma vontade de filmar Paris, Paris no inverno, Juliette Binoche com Romain Duris... É a mistura de tudo isto que forma uma história.

Cineweb - O sr. descobriu Romain Duris, anos atrás, no filme Idade Perigosa (94). Depois, o sr. trabalhou com ele várias vezes... Seis vezes.

Cineweb - Como é esta sensação de descobrir um talento?

É curioso, porque ele não queria ser ator. Às vezes, digo a mim mesmo que ele teria se tornado ator de qualquer maneira. Por outro lado, me digo que sou responsável por sua carreira. Nunca saberemos, na verdade. O que é bom é que mantemos um contato próximo. Ele é importante para mim, sou importante para ele. É qualquer coisa que se construiu.

Cineweb - O sr. costuma trabalhar em dois projetos ao mesmo tempo. Isto está acontecendo agora?

Sim. Estou escrevendo dois roteiros. Mas me acalmei em comparação ao que era antes. Justamente por ter feito tantas vezes dois filmes ao mesmo tempo, neste momento tento me concentrar apenas numa coisa. Não implica forçosamente fazer melhor, mas não me sinto mais da mesma forma. Há uma disponibilidade de espírito que me leva na direção de fazer uma coisa de cada vez.

Cineweb - Como trabalha no set? É o tipo do diretor que fala e interfere muito ou deixa as coisas rolarem para os atores?

É algo entre os dois. Porque na verdade eu deixo os atores muito livres mas dirijo-os muito. É complicado descrever como é. O fato é que me inspiro no que fazem para lhes pedir coisas mais precisas. Então, sempre parto do que eles são, do que propõem, então, deixo-os existir. Em compensação, há sempre um momento de conduzi-los. Porque se eles são demais os mesmos, há qualquer coisa incômoda. É preciso dirigi-los em direção ao personagem. É verdadeiramente uma mistura entre os dois, nos dois casos. Se os deixamos livres demais não é bom, se os restringimos muito, sendo muito autoritários, também não. Tem de haver um equilíbrio.

Cineweb - Nos seus filmes o sr. procura uma espécie de naturalismo, como na vida.

Sim. Porque para mim a credibilidade, a semelhança com a realidade é algo importante. E se a história é completamente maluca, muito falsa, é preciso que os atores atuem de maneira muito verdadeira. Para mim, o ponto de partida de todas as histórias é conseguir acreditar no personagem.

Cineweb - Por outro lado, o sr. não fez muitos documentários. Como Massaitis (90) sobre os massaï do Quênia.

Estou terminando um outro agora sobre a dança e o teatro de Paris.

Cineweb - Pelo fato de ter estudado cinema nos EUA, o sr. sente mais afinidades com os diretores americanos do que com os franceses ?

Morei nos EUA entre os 23 e 25 anos. Estudei cinema em Nova York. Na época, amava muito o cinema americano, mas isto evoluiu. O cinema francês hoje é muito diferente dos anos 80. Há muitas coisas interessantes acontecendo na França neste momento. E muitos realizadores franceses com os quais me identifico.

Cineweb - Nestes anos de formação nos EUA, o que encontrou de diferente em relação à França?

É curioso, mas por um lado eu me senti muito francês nos EUA. Acho que é por isso que voltei à França. De fato, ir ao exterior me permitiu saber porque eu era francês. Em relação ao que aprendi lá, penso que foi qualquer coisa de pragmático. Eu era muito intelectual naquela época, estudava filosofia na França. E foi agradável compreender que o cinema é algo pragmático, que constroi pela ação, pelas situações, amparado no roteiro, na direção de atores. Aprendi a ter confiança nas situações, nas coisas bem básicas, nas ações. Um ator é alguém a quem se dar ações a cumprir, não ideias a transcrever. Se desejamos que ele expresse tristeza, tentamos encontrar as ações que indiquem essa tristeza. É isso o que mais aprendi nos EUA, a traduzir o pensamento em ações.

Cineweb - O sr. sente que o cinema francês hoje é menos intelectual do que já foi?

Sim, neste momento, sim. Penso que se abriu. Gente como Jean-Pierre Jeunet, Agnès Jaoui, Jacques Audiard, Laurent Cantet, Arnaud Desplechin, são todos pessoas que podem ser intelectuais mas têm algo mais pragmático, justamente. Há qualquer coisa que é mais simples. Há menos confiança na forma do filme do que em seu conteúdo. Então, minha impressão é de que houve muitas mudanças nos últimos 20 anos.

Cineweb - Houve como uma superação da tradição da Nouvelle Vague? Não foi difícil abandonar essa referência, um tanto fantasmática?

Digamos que foi difícil mas é mais fácil hoje. Hoje, a Nouvelle Vague é velha. Há dez anos não podíamos dizer isso, mas hoje sim. Isto não quer dizer que não tenha sido um movimento importante. Mas terminou. Isto nos dá muita liberdade. Porque há uma porção do passado que está presente. Da mesma maneira que antes havia Carné e Renoir, há Rohmer, Godard, Truffaut. Mas hoje é uma outra época, há outras influências. Mesmo o cinema americano mudou. Há outros cinemas, como o sul-americano, o asiático. O cinema mundial mudou muito depois de 10 anos. Há outras maneiras de pensar o cinema. Isso dá mais liberdade, eu acho.

Cineweb - No cinema brasileiro, o sr. conhece alguns dos novos diretores?

Conheço Walter Salles e Fernando Meirelles. Penso que são os que se exporta mais. Além dos mais antigos, como Glauber Rocha.

Cineweb - O que pensa desses dois?

Há países que não têm sequer um cineasta, no Brasil há pelo menos esses dois muito bons. O que é bom é que isso afirma alguma coisa. Meirelles é verdadeiramente alguém verdadeiramente ligado ao Brasil que fala ao resto do mundo. Porque mesmo que essa realidade que ele mostra não exista na França, é qualquer coisa “transportável”, que se compreende muito bem lá. É positivo estar muito ligado à sua cultura. Almodóvar é muito espanhol, Kurosawa é muito japonês. Acho que é sempre bom apresentar algo que exprima bem seu país. Mesmo que a personalidade de Salles e Meirelles seja evidentemente bem diferente.

Cineweb - Pode ser que o seu cinema tenha mais conexão com Walter Salles do que com Meirelles...

Sim, pela classe social de meus personagens, eu diria.

Cineweb - O sr. trabalha sempre com um grupo de personagens, não em torno de um apenas. Mesmo que haja um protagonista, todos os outros são importantes.

Sim, relaciono o indivíduo a um grupo. Para mim não há personagens secundários. Todo mundo é importante. Tento ver o que há de importante em cada um.

Cineweb - O sr. ama os filmes-corais, como de Cassavetes e Altman?

Sim.

Cineweb - Um tema que o sr. aborda sempre é o da solidão. Como fez em O Gato Sumiu, seu maior sucesso.

E foi meu primeiro filme a ser exportado. É engraçado que isso tenha acontecido com um filme que fala de um pequeno bairro, que se passa em três ruas de Paris, e ver que ele funcionou no exterior. Esse filme é bastante ligado à solidão. Quando se está numa grande cidade hoje, se está perdido no meio de coisas muito pequenas em relação à cidade. Vejo bem que as pessoas possam ter se identificado com isto. Aqui, no Japão ou nos EUA.

Cineweb - Talvez todo mundo ame os gatos...

Sim, isso também. (risos)

Cineweb - O sr. não gosta da política em si mesma.

Não. Penso que falamos muito de política e o que as pessoas vivem não é a política mesma, é sempre o seu resultado. Eu me interesso mais pelo resultado da política do que pela política. Por exemplo, em Albergue Espanhol, o fato de que um estudante possa fazer seus estudos no exterior é o resultado de uma política, dos deputados europeus que votaram uma lei, que permite que hoje se faça aquela viagem. O que me interessa é o que essa lei cria, não o momento da lei.

Cineweb - O sr. rejeita os discursos políticos.

Sim, porque há muitas mentiras neles. E quando se faz um discurso político, é para que todo mundo se coloque de acordo. Eu não creio que as pessoas possam todas estar de acordo. O que me interessa é o conflito, o desacordo. O discurso político é o que chamamos na França de “língua de madeira” – quando o que diz o político não é inteiramente o que ele pensa. Ele quer agradar a todo mundo e mente, para apresentar as coisas de uma determinada maneira. Quando você faz cinema, se interessa pela sinceridade, não pelo discurso calculado, diplomático.