Agnès Jaoui revê feminismo em "Enquanto o Sol Não Vem"
- Por Neusa Barbosa
- 09/07/2009
- Tempo de leitura 3 minutos
A protagonista é ela mesma, interpretando Agathe Villanova, uma escritora feminista que planeja entrar para a política. De volta à sua terra natal, ela é confrontada com mágoas passadas, por parte da irmã Florence (Pascale Arbillot) e do filho da empregada da família, Karim (Jamel Debbouzze), que decidiu fazer um documentário sobre Agathe.
A diretora e atriz havia visitado profissionalmente o País para o lançamento de dois filmes anteriores, Questão de Imagem (prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes 2004) e O Gosto dos Outros (vencedor do César de melhor filme e roteiro e também indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2000).
Nos últimos anos, Agnès também esteve no País com frequência, lutando para adotar duas crianças brasileiras no Rio de Janeiro. Nesta entrevista, concedida em São Paulo, ela comenta o novo filme e também o final feliz desta história pessoal.
Cineweb - Em Enquanto o Sol Não Vem você reavalia a herança do feminismo dos anos 60?
Este foi um ponto de partida. Minha mãe era feminista. Quando fiz 20 anos, comecei a ler os livros que ela lia, Doris Lessing, Simone de Beauvoir, e também assistir aos filmes que via. E me choquei com tanta violência contra os homens...Eles eram todos descritos como horríveis! Eu fiquei muito surpresa. Não era meu ponto de vista. Claro que entendo porque na época as mulheres podiam mostrar-se tão radicais. Elas vinham de uma outra situação. Era uma revolução visando uma ruptura, portanto, era violenta. Mas comecei também a temer essa violência.
Cineweb - Sua personagem, Agathe, é uma mulher poderosa. Você tinha algum modelo de líder feminina em mente?
Não, porque a campanha de Ségolène Royal (candidata socialista às eleições presidenciais francesas de 2007) veio depois. Meu roteiro já estava pronto. Estávamos a ponto de começar a filmar quando ela chegou e pensei que talvez tivéssemos que adiar um pouco, até ver o que acontecia. Aí, também, me espantou o machismo de algumas reações contra ela.
Cineweb - Quais, por exemplo?
Quando Ségolène resolveu concorrer, um colega do próprio partido, de esquerda, perguntou: “Mas quem vai cuidar das crianças?”. Porque ela tem quatro filhos, acho que o mais novo com uns 18 anos... Outro disse: “A eleição não é um concurso de beleza”. Os comentários iam a esse ponto. Fora isso, vejo que a violência contra as mulheres está em todo lugar. Muitas mulheres são espancadas na França, em todas as camadas sociais. Isto ainda acontece.
Cineweb - Você também aborda as tensões que afetam os filhos de imigrantes de origem árabe. Como vê essa situação na França?
Há muito tempo eu queria falar de racismo e pareceu-me interessante investigar sua origem na atitude colonizadora. As duas irmãs no filme, Agathe e Florence, não são más pessoas. Mas têm uma empregada que é quase uma escrava e não enxergam isso. O filho dela, Karim é traumatizado, ele carrega essa raiva. Acho que todos somos racistas às vezes, contra quem é diferente. Não somos todos maus e nem queremos matar. Não sabemos às vezes como lidar com as situações que herdamos, por termos sido educados de uma determinada maneira.
Cineweb - Nesta trilha musical, você mistura música clássica, Nina Simone e música étnica. Como faz essa escolha ?
Em vários filmes, a música é um ponto alto. Lembro de Era uma vez na América, a música de Ennio Morricone é tão impressionante. Se você assiste aos trabalhos de Fellini, ouve Nino Rota. Almodóvar, Kubrick, todos escolhem admiravelmente bem as canções que acompanham seus filmes. A música é um complemento forte de seu cinema. Adoro música, faço música desde criança. Escolher a trilha exige uma longa pesquisa. Há músicas que escolho antes, outras, ao escrever o roteiro. Não consegui ter apenas um compositor. Talvez não tenha achado meu Nino Rota.
Cineweb -Você esteve muitas vezes no Brasil nos últimos anos para adotar duas crianças. Como estão elas?
São um menino e uma menina, irmãos, de 6 e 8 anos. Foi um processo muito longo, duro e complicado. O juiz era contra a adoção por estrangeiros. Tive que esperar oito anos. Mas eles são maravilhosos e estou muito feliz em tê-los morando comigo em Paris agora.
