06/06/2026

Heitor Dhalia constroi “À Deriva” em cima de memórias

Para escrever o roteiro de seu terceiro filme, o diretor pernambucano Heitor Dhalia foi buscar inspiração numa passagem de sua vida – mas ele logo adianta que não é um filme estritamente autobiográfico. “Fui cavar fatos do meu passado, da separação dos meus pais, mas nada daquilo que se vê em À Deriva aconteceu comigo daquela forma”, explicou durante a coletiva de lançamento do filme em São Paulo.

O filme mostra uma família se desintegrando com a separação dos pais, um processo visto pelos olhos da filha adolescente, interpretada pela estreante Laura Neiva. “Eu não queria julgar nenhum dos personagens. Pelo contrário, queria vê-los crescer, se transformarem. E é exatamente isso que acontece no filme.” O roteiro foi coescrito pelo diretor e Vera Egito.

Para Dhalia, À Deriva não é um filme realista, mas que se constroi em cima das memórias. “É como rever um álbum de fotografias dos anos de 1970. A direção de arte, inclusive, foi feita com as lembranças que cada pessoa envolvida tinha daquela época”.

Um dos personagens centrais, o pai, é interpretado pelo ator francês Vincent Cassel (Irreversível), que fala português fluentemente. Dahlia conta que resolveu convidar o intérprete depois de vê-lo na televisão brasileira dando uma entrevista em português durante um carnaval. Já a personagem da mãe é vivida por Débora Bloch, que volta ao cinema depois de quase uma década – seu último trabalho foi Bossa Nova, em 2000.

Aliás, a atriz se mostrou muito feliz com esse retorno. “Cinema é muito diferente da televisão. Na TV não tem realidade nenhuma, é descartável, superficial. Não é que um é melhor do que o outro – são duas coisas diferentes”. Trabalhar com Dhalia, para ela, foi muito tranquilo. “Ele é um diretor que pede com precisão o que quer do ator. O roteiro é a minha partitura e estava tudo muito bem delineado”.

A estreante Laura Neiva foi encontrada através da internet. Ela contou que a princípio achou que o convite não fosse de verdade. Chegou a evitar a produtora de elenco por um bom tempo, até se convencer de que deveria participar dos testes. Durante as filmagens, Laura disse que o elenco e diretor a deixaram bem à vontade.

Cassel, por sua vez, afirma que estava bem nervoso antes de conhecer a menina que iria interpretar sua filha, pois os personagens são bem próximos. Mas ficou tranquilo logo nos primeiros contatos. “Nos demos muito bem desde o começo. Ela dá uma luz especial ao filme”, conta o francês.

À Deriva estreou no Festival de Cannes, na mostra paralela Un Certain Regard. No começo de julho, foi exibido pela primeira vez no Brasil na abertura do Festival de Paulínia. Dahlia explica que o longa não sofreu nenhuma alteração desde sua première, em maio. “Mas, para mim, cada sessão é diferente. O filme sempre muda, porque ele se completa na cabeça das pessoas. Então, para mim, ele se altera a toda hora”.