Babenco filma a emergência social brasileira em "Carandiru"
- Por Neusa Barbosa
- 09/04/2003
- Tempo de leitura 15 minutos
Fotos de Luiz Vita
Em seu oitavo longa-metragem, Carandiru, o diretor Hector Babenco partiu em território conhecido. Cliente e amigo do médico Drauzio Varela, autor do bestseller Estação Carandiru, em que se baseou o roteiro, Babenco foi seu primeiro leitor, antes mesmo da publicação. Fora esse detalhe, trata-se de seu quarto filme ambientado numa prisão ou semelhante. Antes dele, vieram Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977), Pixote, A Lei do Mais Fraco (1980) - que revela o universo da Febem - e O Beijo da Mulher Aranha (1985). Apesar dessa base sólida, Carandiru revelou-se o seu trabalho mais difícil, impregnado dos maiores riscos. Babenco teve de dominar uma logística complexa, delimitada por um orçamento de R$ 10 milhões, um total de 26 atores principais, 120 secundários e cerca de 8 mil figurantes, filmando parcialmente em locações do próprio presídio do Carandiru, meses antes de sua implosão (em dezembro de 2002), convivendo com a total falta de cooperação da Polícia Militar e a tensão permanente de coabitar com alguns pavilhões ainda repletos de presos.
Sem contar o fato de estar entre as paredes que presenciaram um dos maiores massacres penitenciários do mundo, em 1992, quando morreram 111 presos - com certeza, a seqüência mais marcante do filme. Nesta entrevista exclusiva, concedida em São Paulo, o diretor argentino naturalizado brasileiro comenta os conceitos que guiaram este trabalho, fumando um charuto cubano Cohiba, presenteado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assistiu a uma das sessões especiais do filme antes da estréia.
Cineweb - Você foi o primeiro leitor do livro do Drauzio? Como foi isso?
Hector Babenco - Eu era seu paciente quando ele começou a ir ao Carandiru. Ele comentava comigo as experiências no Carandiru até o momento em que começou a escrever as histórias. E eu fui o primeiro a ler as histórias. O mérito é todo dele.
Cineweb - Por que você decidiu começar o filme a seco, sem uma introdução, com um conflito em curso?
Babenco - É um homem querendo matar outro homem, uma tragédia grega. A faca é uma conseqüência final, é a cerejinha em cima do bolo. Sou um ficcionalista, não um documentarista. A minha obrigação é embutir todas as informações documentais dentro de uma ficção e não te levar pela mão numa ficção, te contando coisas para que você saiba o que acontece no filme. Se no final você não entender onde o filme acontece, qual a peculiaridade principal que esse espaço físico tem em relação a como as pessoas se relacionam entre elas...Se você não tem a consciência plena de quem são essas pessoas, de porquê o filme é desse jeito, então o filme não logrou o que eu pretendia que lograsse. Não estou aqui para dizer nada mais do que está dito no filme. Posso comentar quais os conceitos que me levaram a optar por esse tipo de narrativa. Mas não vou explicar o filme.
Cineweb - E qual foi esse conceito?
Babenco - O conceito inicial que me levou a fazer o filme foi um estudo de superpopulações que começa com os estudos de B.F. Skinner na década de 50, experiências feitas com ratos - que diz que na medida em que você aumenta, duplica ou triplica a quantidade de ratos no mesmo espaço físico, a violência aumenta. E durante 50 anos se acreditou que essa teoria comportamentalista do Skinner se aplicava aos homens. Mas ao longo de 50 anos se viu que o homem não tem geneticamente nada do rato e sim do macaco. E na mesma experiência feita com macacos - e há farta literatura sobre isso, não estou inventando absolutamente nada -, gorilas, chimpanzés, se percebe que ao duplicar ou triplicar numa mesma área circunscrita um maior número de animais, em vez de a violência aumentar, ela decresce. Então este é o conceito que para o Hector Babenco interessa para dedicar quatro anos da sua vida a fazer um filme como Carandiru. Para demonstrar que, como primatas, em circunstâncias de alta população, ao invés de acrescentar a violência do cotidiano, os homens a reorganizam para poder sobreviver, porque é uma ordem instintiva de preservação da espécie.
Cineweb - É quase um paradoxo que está acontecendo ali. Aquele mundo tão superpovoado, que teoricamente seria desordenado, cria uma ordem própria.
Babenco - Com que intuito?
Cineweb - Sobreviver.
Babenco - Por isso eu fiz o filme. O Drauzio me dizia: "O preso brasileiro não anseia pela liberdade, anseia pela sobrevivência". Esse conceito é interessante. Ele não existe em nenhum outro tipo de filme de prisão no mundo inteiro. É uma coisa totalmente nova. E aí o que acontece? O homem tem que ser fundamental para a sobrevivência do grupo para ele não ser excluído do grupo. Então, em qualquer posição, seja ele peão, em qualquer escala dentro daquela organização interna, ele tem que ser um membro ativo, porque pertencendo à comunidade, está garantindo a sua sobrevivência. Isso é o que me levou a fazer o filme. Não tem nada a ver com histórias de preso, nem com o massacre.
Cineweb - Você até já tinha feito outros filmes de prisão antes.
Babenco - O livro já está escrito. Meus motivos são esses, funcionam num outro registro. O resto é história, anedotário.
Cineweb - É também seu filme com maior número de personagens.
Babenco - Tem 26 personagens principais.
Cineweb - Como você sentiu essa diferença em relação a outros filmes teus, ficou complicado administrar?
Babenco - Cada filme é um filme. Claro, as dificuldades são imensas. Você está trabalhando com uma classe menos privilegiada, em condições muito adversas, está filmando em lugares muito delicados, com uma história grudada nas paredes de uma instituição. Aquele presídio nos foi cedido por seis semanas. Então nós tínhamos que filmar e depois ir embora, porque aquilo não nos pertencia mais. E com presos nas outras galerias, não foi fácil.
Cineweb - Havia nessa convivência uma tensão permanente que era real.
Babenco - Era real.
Cineweb - Você teve alguma dificuldade de obter a licença de filmar lá?
Babenco - Tive de esperar seis meses para que eles esvaziassem pelo menos um pavilhão. Porque eles esvaziaram o 2 primeiro e ele não me servia nos interiores. Mas me servia nos exteriores, nos pátios de fora, nas muralhas, aquele pátio interno da cena do dia da visita. Tudo isso é no 2. Tudo aquilo que for corredor, celas, escadas, grades, todo o resto foi feito em estúdio na Vera Cruz. Tivemos 1.500 metros quadrados de construção.
Cineweb - Como você escolheu as histórias, entre as muitas do livro? O que te motivou a elas, mais do que às outras?
Babenco - Mais uma vez vou te contar uma anedota. Olhei numa revista New Yorker uma entrevista com um Prêmio Pulitzer, um jornalista que escreveu Nascido para Matar para o Kubrick. E o Kubrick sempre quis fazer um filme sobre o Holocausto. E este homem em Nova York, ao sair de uma projeção de A Lista de Schindler, liga para o Kubrick e diz a ele para abandonar a idéia de fazer um filme de Holocausto, porque o Spielberg já tinha feito A Lista de Schindler. E o Kubrick diz a ele: "Já vi A Lista de Schindler e esse não é um filme sobre Holocausto; é um filme sobre 400 pessoas que se salvaram dele". Então eu peguei o critério de "salvar". E digo - se eu conseguir, ao longo da minha história, que três ou quatro narradores se salvem, e três ou quatro morram (eu não podia salvar todos eles), vou dar o meu distanciamento histórico, de ter um futuro para pessoas que presenciaram aquilo. Salvarei alguns personagens meus que, em termos de empatia, o espectador já terá comprado emocionalmente, terá sido seduzido, cativado por suas histórias, e conseguirei fazer um filme com uma transcendência histórica maior, não acabando como uma tragédia total. Porque afinal de contas havia 1.500 pessoas, só morreram 111. Alguns a mais, alguns a menos, dependendo das versões. Mas oficialmente 111. Então eu decidi me estruturar e pensar que estes personagens meus que no final do filme se salvam deveriam ter uma história. Foi esse o critério que utilizei para a escolha das histórias. Porque uma história e não outra, veja bem: no livro do Drauzio há umas vinte, e eu fundi várias.
Cineweb - Por exemplo?
Babenco - O Seu Chico é uma fusão do próprio Seu Chico, de um tal de Jeremias e de um outro que não lembro o nome. A gente tirou situações e reinventou tudo. Assim como o Drauzio reinventou o nome dos personagens. No making of do filme, ele fala uma coisa muito bonita: "Nem as personagens do livro existem na realidade como também no filme do Hector não são mais os personagens do livro nem aquele médico sou eu". Então é uma ficção total e absoluta.
Cineweb - Inclusive o médico do filme é quase invisível.
Babenco - Não podia ter mais, porque ele não tem conflito. "Drama" vem do grego: ação, conflito, raiva. Se você tem um personagem que é neutro, que é um escuta e que a única coisa que ele dá em troca é medicina, é salvação, ele está quase perto de uma santidade como personagem. Eu não podia transformá-lo numa personagem principal que fosse uma espécie de madre Teresa de Calcutá porque não é o caso. O Drauzio não é um homem devotado exclusivamente a salvar o próximo. Ele tem também outra gama de atitudes e atividades como todos nós. Ele é um ser humano. Tive de preservá-lo na medida em que não me interessava que o personagem tivesse mais presença do que já tem. Mas vocês vêem o filme inteiro sabendo que é um médico que está te contando essa história. Você tem essa consciência plena.
Cineweb - Qual a sua expectativa diante do fato de que o livro é muito conhecido?
Babenco - Um livro que já vendeu quase 500.000 exemplares. Se você calcula que cada livro tem dois ou três leitores, temos aí um milhão e pouco de pessoas cativas que terão, acredito eu, interesse em ver o filme. Se o leram, é porque gostaram. Espero que todos esses leitores compareçam ao cinema. Claro que levei isso em consideração. Você vê no mercado internacional, quando um livro é famoso, tem mais chance de levar mais público. É natural. É a sociedade na qual a gente vive.
Cineweb - E a expectativa desse público? Você assistiu recentemente a várias pré-estréias. A reação do público em algum momento te surpreendeu?
Babenco - Fiquei muito lisonjeado pela resposta do público, porque me dá uma legitimação de que o meu esforço não foi à toa. Não sei se isso vai representar seis espectadores ou seis milhões de espectadores. Mas me sinto extremamente atendido com o carinho que os espectadores mostraram na saída do filme. Eu não fiz o filme para o público. Fiz o filme para mim. Imaginando que haverá muitas pessoas que gostariam de sentir o que eu sinto. Mas eu não posso me pôr no coração do outro e ficar fazendo um filme para o outro. Eu não sei quem é "o outro".
Cineweb - "O outro" são muitas pessoas. Só esse milhão que leu o livro...
Babenco - Esse é um segmento. Pode haver aí quem diga: "Eu já li o livro, não quero ver o filme. Não quero romper a emoção que me deu o livro". Cada pessoa é um bichinho diferente. Isso é complicado. Mas eu não me coloco nunca na posição do espectador.
Cineweb - Ao mesmo tempo, você coloca no filme uma visão de Brasil nesse microcosmo que é a prisão. A partir do momento do jogo, que toca o Hino Nacional. Um microcosmo que tem uma ligação com os excluídos do Brasil.
Babenco - Veja bem, eu moro neste país há 30 e poucos anos. É um país em que a noção de nação está absolutamente ausente para 90% dos cidadãos brasileiros. O Estado não está presente em absolutamente nada, são verdadeiros órfãos, tirando uma exceção de três milhões de pessoas que têm videocassete, que têm TV a cabo. Acho que TV a cabo é um bom exemplo. O resto do Brasil não existe, para mim, em termos de acesso à informação. São três, quatro milhões de pessoas que têm TV a cabo no Brasil. Para o resto do Brasil, o Brasil não existe. O único momento em que eu sinto que há uma irmandade cega e de uma devoção e de uma seriedade ao nível quase do êxtase, é na véspera de algum jogo de futebol importante, quando as pessoas cantam o Hino Nacional. Então eu quis me apropriar dessa sensação que eu tenho sempre e a coloquei no meu universo.
Cineweb - Com certeza é uma das seqüências mais emocionantes do filme.
Babenco - Eles fizeram sozinhos. Eu só soltei o hino e o resto eles fizeram. Não dei uma instrução. Não falei para um cara: - levanta, põe a mão no peito. Foram eles que fizeram tudo isso. São brasileiros que ganharam R$ 30,00 por dia para ficar catorze, quinze horas com a gente, para fazer uma cena que eles nem sabiam que iam fazer. Armei o jogo, a "pelada", e soltei o hino. E todos eles fizeram o que você viu no filme. Uma coisa meio mágica.
Cineweb - A mágica de ligar a câmera e ficar captando isso.
Babenco - Em três horas, estava feito. Incrível. Inclusive tem os dois soldados fazendo continência em cima da muralha. São PMs, que me negaram todo e qualquer apoio. Toda a polícia que você vê no filme foi construída por nós. Os uniformes, capacetes...
Cineweb - Eles não quiseram participar?
Babenco - Não quiseram saber absolutamente de nada. Só aqueles dois incautos que estavam de serviço na muralha, quando ouviram o hino, bateram continência.
Cineweb - E a preparação do elenco?
Babenco - Foram cinco meses de trabalho. Vimos mais de três mil pessoas, vindas de diversos estados do Brasil para fazer um laboratório, um workshop para preparar o elenco do filme.
Cineweb - E em relação à distribuição internacional do teu filme, tem alguma coisa acertada?
Babenco - O filme tem um contrato de compra feito no roteiro, o que raramente acontece. Normalmente, os distribuidores internacionais só se interessam quando vêem o filme. Mas eles apostaram em mim, em relação aos meus trabalhos anteriores. Gostaram muito do roteiro. E o filme tem distribuição internacional garantida pela Sony Classics, que é a divisão da Sony que cuida de filmes de autor. Eles distribuem Almodóvar, enfim, filmes muito especiais.
Cineweb - Eles distribuirão só nos EUA?
Babenco - Nos EUA e no mundo inteiro.
Cineweb - E em relação ao Festival de Cannes?
Babenco - Mandamos uma cópia à organização do festival, mas não temos resposta.
Cineweb - Você vê alguma ponte entre Carandiru e seus filmes anteriores?
Babenco - Vejo uma ponte muito grande com Pixote. O Millôr Fernandes tinha uma charge na época do Pixote, quando ele escrevia na Veja, em que ele dizia: "O que fazer com o menor abandonado? Deixá-lo crescer". Então quando você deixa crescer o menor abandonado - que é sobre o que Pixote trata - 20 anos depois, ou ele está morto, ou ele está no Carandiru.
Cineweb - Carandiru é o dia seguinte do Pixote.
Babenco - É o day after.
Cineweb - Em escala coletiva.
Babenco - Em escala coletiva. Pixote também começa com um monte de crianças. No meio do filme há uma rebelião e eles fogem. Eles fugiram, ganharam as ruas, entraram para o crime. Ou morreram ou estão no Carandiru, 20 anos depois. Mas isso eu só fui sacar agora.
Cineweb - Depois de fazer o filme?
Babenco - Nunca senti isso antes. Na edição do filme eu senti isso. Vi uma imagem parada e senti: "Que imagem! Poderia ser do Pixote, 20 anos depois.
Cineweb - Não é uma visão otimista do país. Aquele quadro se agravou enormemente.
Babenco - Quem for otimista em relação à ordem social brasileira é cego ou é um cínico.
Cineweb - Você já está envolvido num outro projeto de filme?
Babenco - Ainda não entendi nem porquê eu fiz este.
Cineweb - Você normalmente leva muito tempo nesse intervalo entre um filme e outro?
Babenco - Levo. A ficha demora para cair. Mas é importante entender porque é que se faz um filme. E você só vai entender depois que ele está feito. Esquisito isso, mas é assim que funciona. Eu trabalho totalmente na intuição. No intuitivo quem está falando é o inconsciente. Você está trabalhando numa espécie de piloto automático, depois é que entra o racional. Você fica mais tranqüilo, fuma um charuto Havana e começa a pensar: "Por que é que eu me enfiei nessa? Por que é que eu quis fazer isto assim e não assado?" Isto vem depois, para mim.
Cineweb - Você filma no instinto, faz a escolha da fotografia assim?
Babenco - Tudo, a escrita. É um jogo de azar, uma loteria.
Cineweb - Todo dia você tem que tomar uma série de decisões ali no set em função disso...
Babenco - Intuição pura.
Cineweb- 8/4/2003
