06/06/2026

Mundo hiperfilmado é inspiração para o premiado uruguaio “Gigante”

A frase “sorria, você está sendo filmado” é praticamente um slogan dos nossos tempos. Em qualquer lugar, existem câmeras de segurança registrando o dia-a-dia. “Vivemos numa civilização hiperfilmada. Existem imagens de tudo aquilo que pode ser filmado”, conta o cineasta Adrián Biniez, cujo filme de estreia, Gigante, retrata um segurança de supermercado que se apaixona por uma faxineira do estabelecimento, que ele acompanha pelas câmeras enquanto ela trabalha.

“Para mim, Gigante é uma comédia romântica que tem algo de ballardiano em seu interior”, completa o cineasta, referindo-se ao escritor inglês Carol Ballard, autor de livros como Crash e O Império do Sol. Numa entrevista por e-mail, de Amsterdã, o diretor argentino, radicado no Uruguai, explica que a ele interessa mais o fetiche de filmar do que a ética de quem espia. “Esse é um filme baseado em grande parte no voyeurismo de observar”.

A carreira internacional de Gigante começou em fevereiro passado, no Festival de Berlim, onde ganhou o Urso de Prata, o segundo mais importante da competição, além do prêmio para diretor estreante e o troféu especial Alfred Bauer, para “inovação cinematográfica”. Na semana passada, o longa foi exibido em Gramado, onde levou os Kikitos da crítica, melhor ator para Horacio Camandule, e roteiro, assinado pelo próprio Biniez. “Estou acompanhando o filme por diversos lugares. Já fui a Lima, Sarajevo e estou em Amsterdã. Em todos lugares, Gigante já tem distribuidor e chegará aos cinemas”.

Apesar de ter sua ação situada em Montevidéu, Gigante tem um apelo universal, ao falar de obsessão e paixão. “As pessoas têm reações bem parecidas por todos os lugares. É muito fascinante. A sessão em Sarajevo, em especial, foi muito emocionante, num campo ao ar livre, para mais de 3 mil pessoas”.

Um dos achados de Gigante, no entanto, é o ator Horacio Camandule, que interpreta Jara, um sujeito grandalhão, amante de rock pesado que esconde dentro de si um coração sensível e apaixonado. “Como o personagem, ele é muito tímido. Além disso, ele é professor primário e faz teatro underground”. Citando entre suas influências Clint Eastwood, John Cassavetes, Takeshi Kitano e Éric Rohmer, Biniez antecipa que já está preparando um novo filme. “Será sobre um jogador de futebol da quarta divisão que se aposenta aos 34 anos e precisa começar uma nova vida, encontrar um novo trabalho”.

A premiação de Gigante em Berlim, ao lado do peruano A Teta Assustada, que levou o Urso de Ouro, poderia apontar uma ascensão do cinema latino-americano. No ano passado, o brasileiro Tropa de Elite também recebeu o prêmio máximo do mesmo festival. “Acredito que estão se fazendo filmes melhores na América Latina, mas ainda estamos a anos-luz do cinema que se faz no oriente”.