A realidade se impõe no cinema de Brillante Mendoza, premiado em Cannes
- Por Alysson Oliveira
- 18/09/2009
- Tempo de leitura 4 minutos
“Interessa a mim mostrar a verdade da realidade”, explicou o cineasta ao Cineweb, em São Paulo, onde participa do festival Indie 2009 – Mostra de Cinema Mundial, que exibe uma retrospectiva completa de sua obra, no Cinesesc, em São Paulo, até a próxima quinta-feira (24). “Não quero criar controvérsias apenas pelas controvérsias. Faço um cinema que mostra o real. Se isso incomoda, já é outra coisa”.
Mendoza conta que, nas Filipinas, seus filmes não fazem muito sucesso com o público, que prefere aos melodramas que nada têm a ver com a realidade. “As pessoas não querem olhar no espelho, não querem ver os problemas, preferem se refugiar num outro mundo”. Mas o diretor insiste em remar contra essa maré. Kinatay, por exemplo, retrata um dia na vida de um aluno da escola de polícia que se envolve no submundo e acaba presenciando o esquartejamento de uma prostituta. O longa será lançado nas Filipinas na próxima semana, mas o diretor explica que será em poucas salas. “São apenas 4 ou 5 cinemas que exibem esse tipo de filme”.
Além disso, Mendoza teme que seu filme seja mal compreendido pelo público. “Muita gente vai ver apenas pelo sangue, como se fosse um filme de terror, quando ali há muito mais do que isso, há uma denuncia”. O longa inspirou-se em fatos reais, relatados a ele por um aluno da escola de polícia.
Em São Paulo, no entanto, Mendoza parece não ter o problema de ser mal compreendido. “Fiquei admirado de ver um público que conhece e aprecia o meu trabalho”, confessa. Mas não é apenas isso. Aqui, o cineasta disse se sentir em casa – apesar de ser a sua primeira vinda ao Brasil. “Pelo que vi da cidade, ela é muito parecida com Manila, os sons, as cores, o aglomerado de pessoas. Além das diferenças econômicas e sociais gritantes”.
Esse reconhecimento, não apenas nos grandes festivais, mas também do público e crítica estrangeira, é para Mendoza um encorajamento para continuar a fazer filmes. A direção cinematográfica caiu meio de surpresa para ele, que começou trabalhando como desenhista de produção em cinema e comerciais de televisão. “Meu primeiro filme, O Massagista, partiu do convite de um amigo. Eu achava que não ia conseguir manter uma carreira”. Cinco anos e nove filmes depois, seu futuro é bastante promissor.
Prêmios nos principais festivais de cinema do mundo e reconhecimento da crítica não garantem que o filme chegará ao cinema. No Brasil, por exemplo, a obra de Mendoza é restrita ao circuito de festivais. Mesmo Kinatay, que lhe rendeu prêmio de direção em Cannes, ainda não tem distribuidor no País.
Cannes, São Paulo
Na manhã desta sexta (18), Mendoza confessou que se sentiu como se estivesse novamente no Festival de Cannes. Tudo isso por conta do encontro que teve com a atriz Isabelle Huppert, que está em São Paulo para apresentar uma peça. Ela foi a presidente do júri do festival que premiou o diretor, em maio passado. O encontro foi promovido pela atriz e tradutora Tuna Dwek, que acompanhou Isabelle no início da semana e agora é cicerone do diretor filipino.
“Foi mágico me encontrar com Isabelle Huppert, ela é uma atriz a quem eu admiro muito. E acho que ela também gosta do meu trabalho – senão não teria premiado”, explica o diretor. Convidado pela atriz, ele passou a manhã com ela no hotel onde está hospedada. “Ela me contou que já foi às Filipinas no início dos anos de 1980 para passar as férias. Ela conheceu a realidade do meu país e isso a ajudou a compreender a dimensão de um filme como Kinatay”. Mendoza explica que, para muitos europeus, Manila é muito distante e incompreensível.
Mendoza diz que adoraria ter Isabelle num de seus próximos filmes. E adianta que nunca para de trabalhar e já pensa em novos projetos. “Minha vida é um ‘trabalho em andamento’. Em minha cabeça eu tenho muitos filmes, e cada um espera a hora certa de acontecer. Depende dos financiamentos, da minha inspiração, do momento.” Mas uma coisa é certa: em breve teremos mais filmes de Brillante Mendoza.
