06/06/2026

Para Andrea Beltrão, “Salve Geral” mostra realidade próxima de todos nós

Quem está acostumado a ver Andrea Beltrão como a suave Marilda, da série de televisão A Grande Família, pode surpreender-se com sua transformação no drama Salve Geral, de Sergio Rezende, que representa o Brasil na disputa de uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. No filme, a atriz interpreta Lúcia, uma professora de piano que entra no submundo do crime, meio por acaso, depois que seu filho vai preso. Uma versatilidade que não é novidade na carreira da atriz, que acumula personagens marcantes como Zelda Scott, da série Armação Ilimitada, Úrsula, na novela Pedra Sobre Pedra e mais recentemente o papel-título no drama Verônica.

Salve Geral tem como pano de fundo o crime organizado. O clímax acontece num fatídico final de semana de maio de 2006, quando a cidade de São Paulo parou devido a uma série de ataques contra delegacias, bancos, lojas e policiais. Para Andrea, nada disso é novidade, é uma realidade que nos cerca. “Esses acontecimentos mostraram que o crime, os problemas sociais estão muito perto de todos nós. No Rio de Janeiro, então, mais próximo ainda. Não adianta fingir que não existem esses problemas sociais. Também não é um dever da pessoa física cuidar disso. É um dever do Estado”.

Para viver Lucia, Andrea recebeu do diretor Sergio Rezende um material de pesquisa. “Eram informações sobre advogadas de presos, as relações que elas têm com os clientes. Depois disso, compus a personagem a partir da minha percepção mesmo, com a ajuda do Sergio e do roteiro”, disse Andrea ao UOL Cinema. Durante as filmagens, a atriz deu alguns palpites. Segundo o diretor, ela mudou várias falas. “Eu acredito que a Lucia é uma personagem que fala muito pouco. Se a frase tinha oito palavras, eu tentava diminuir para seis.”

Num momento no documentário Jogo de Cena (07), de Eduardo Coutinho, Andrea ‘interpreta’ uma jovem que perdeu o filho pequeno. Naquele filme, ela diz que o lado materno a tocou fundo quando foi se preparar para a interpretação. Já em Salve Geral, ela acredita que não é preciso ter filhos para se envolver com Lucia. “Acho que uma atriz que não tem filhos também conseguiria fazer bem o papel. A história é muito bem contada, é muito plausível”.

Rezende, que é coautor do roteiro, escreveu o filme especialmente para Andrea. “Ele me viu no teatro, na peça “As Centenárias”, ao lado da Marieta Severo, e disse que só faria o filme comigo”. A atriz topou no ato mas, por um conflito de agendas, quase não fez Salve Geral. “Eu tinha compromissos na televisão e não poderia fazer o filme. Fiquei arrasada, porque já estava muito apegada ao papel. Eu sonhava com isso toda noite, que estava no set, que o Sergio me dirigia. Até que um dia a gente se encontrou por acaso numa loja de discos e resolvemos conversar. Ele conseguiu adiar as filmagens para me esperar. A vida conspirou a nosso favor”.

Muita gente poderá encontrar semelhanças entre as personagens Lucia e Verônica, de seu filme anterior, mas para Andrea as personagens são bastante diferentes. “A única coisa que vejo igual nas duas é que ambas estão dispostas a fazer qualquer coisa para defender as pessoas que lhes são importantes.”

Já a entrada de Lucia para o submundo do crime, para a atriz tem a ver com a necessidade do momento da personagem. “No começo, ela não tem nada a ver com aquele mundo. Ela acaba sendo tragada, mas, depois, seus atos são de uma precisão cirúrgica. Ela sabe que se bobear pode perder o filho para sempre. Ela tem uma maneira doce, mas é forte e valente. As pessoas doces podem ser muito fortes.”

Onde está Zelda Scott

Apesar de uma carreira de 25 anos, Andrea diz que ainda é bastante lembrada pela jornalista Zelda Scott, seu papel em Armação Ilimitada, exibida na Globo entre 1985 e 1988. A atriz confessa que adoraria ver um filme baseado na série, mas que já não faria o papel. Como assim, Zelda Scott sem Andrea Beltrão? “Gente, existem atrizes maravilhosas que poderiam fazer o papel. Eu adoro a Zelda, ela tem uma cobertura tríplex no meu coração, mas não tenho mais idade para isso. Estou mais para Lucia agora, mãe de adolescente, do que jovem jornalista envolvida com dois surfistas”, brinca.

Mas os olhos da atriz ainda brilham quando se lembra da série e de tudo o que representou para sua carreira e a televisão brasileira. “O engraçado é que eu nem era a primeira opção para o papel. Eu devia ser a décima-terceira, mas todas as atrizes que eles convidavam não queriam fazer, achavam tudo muito raso”. Na época, Andrea fazia uma novela com Marcos Paulo, que estava planejando a série, e queria fazer a jornalista, mas nunca era convidada. “Estava com muita vontade de fazer o papel, mas não queria me oferecer, acho chato isso. Ficava dando indiretas, perguntando para o Marcos, até que, finalmente, ele perguntou, topei na hora”.

Com “A Grande Família”, a história é outra. Andrea confirma a sua presença para a próxima temporada do seriado, a décima, que vai ao ar no ano que vem, e diz que faria um novo filme sem pensar duas vezes. “Acho que deveríamos todos ir para a telona de novo. A primeira experiência foi muito boa”, diz, referindo-se ao filme de 2007. Para explicar o sucesso da série, Andrea aposta não apenas na sintonia entre a equipe como nas qualidades do texto. “Os roteiristas são muito criativos. São dez anos e nunca repetiram uma situação. A série trata da vida cotidiana com leveza e graça, sem vulgaridades, baixarias, e com muito respeito, e o público gosta disso”, conclui.

Antes disso, Andrea será vista novamente nos cinemas, agora numa comédia: O Bem-Amado, baseado no personagem criado por Dias Gomes. A direção é de Guel Arraes que dirigiu Andrea não apenas em Armação Ilimitada, mas também em outros trabalhos, como no longa Romance (08). “A nossa parceria é muito frutífera, temos uma boa sintonia. Topo fazer qualquer coisa que ele me convidar”.