06/06/2026

Agnès Varda remexe memórias em “As Praias de Agnès”

A veterana cineasta belgo-francesa está no Rio para apresentar seu novo filme e fala de vida, memória, cinema e de seu novo projeto em 2010. Leia mais


Por Neusa Barbosa

O iminente aniversário de 80 anos, completados em maio de 2008, foram o motivo de a cineasta belgo-francesa Agnès Varda (Os Catadores e Eu, Cléo das 5 às 7) decidir realizar um documentário de cunho extremamente autobiográfico, As Praias de Agnès. O filme foi uma das principais atrações do primeiro final de semana do Festival do Rio, em que a diretora foi uma das convidadas de honra.

Em entrevista ao Cineweb, ela contou o que sentiu diante da proximidade dos 80 anos: “Fiquei impressionada. Eu podia ver o 8 e o zero vindo na minha direção! Então pensei que seria boa idéia fazer um filme sobre isso. Tentei terminá-lo antes de completar 80 (em maio de 2008), mas falhei. Quando meu aniversário chegou, eu ainda o estava montando. Alguém filmou meu aniversário e isso entrou no filme. Sou muito demorada na edição, adoro editar”.

Ela contou também ter sido inspirada pelo exemplo do escritor Michel de Montaigne (1533-1592) que, segundo ela, dizia escrever para sua família e amigos porque logo morreria e queria deixar-lhes algo que pudessem guardar. “Pensei em fazer o mesmo com este filme. Pensei que talvez meus filhos, meus netos, quisessem saber a minha história. Não sei se é importante. Tenho um ótimo relacionamento com todos eles, mas não me conhecem”.

Um exemplo desse desconhecimento veio quando um de seus filhos comentou que não sabia que ela tinha fugido de casa aos 18 anos – como ela conta em As Praias de Agnès. Ela respondeu simplesmente: “Você não perguntou. Eles não perguntaram e eu não contei. Não era segredo. Não sei se é importante ou não. Me questiono o tempo todo. Mas acho que há coisas que lamentamos não ter perguntado a nossos pais depois que morrem”.

Esbanjando energia, entretanto, ela garante que não quer chegar aos 90 anos. “Isso é velho demais!”. Com o mesmo tipo de humor, diz que não quer ser “levada a sério demais”. Um exemplo disso, que ela mesma aponta, é quando aparece neste documentário fantasiada de batata. “Quero também que o filme seja divertido”.

Agnès acha importante não só “conectar-me com as pessoas como deixar espaço para que usem o filme em suas próprias vidas. Em todos os meus filmes procuro traçar uma situação específica, personagens específicos, mas que haja também espaço para o espectador”.

Um toque de ficção
Ela destaca que não se trata de um documentário estrito, já que inventou muitos detalhes. “Não é verdade que deixei a cidade de Seth quando adolescente e cheguei a Paris num barco. É ficção, sonho, porque não queria perder de vista aquele mundo de mar e porto. É um modo de contar minha vida, mas também fantasia”, exemplifica. Para ela, essas “cenas falsas às vezes expressam melhor as coisas. É como contar a verdade com alegorias, de um certo modo”.

A diretora, que esteve alguns dias antes em Fortaleza para dois workshops, não gosta do conceito de ensinar cinema. “Estive lá para ouvi-los. Hoje, todos tem uma câmera. É liberdade, é democracia. O que tento transmitir é meu amor pelo cinema.E também a ideia de que é preciso ter um ponto de vista. Saber o que você quer atingir, qual a sua motivação e quanta energia você está disposto a dar para o seu filme”.

Da mesma forma, ela diz que “tenta não transmitir truques, a luz certa, o enquadramento. Não quero ensinar montagem mas o que digo é que montar é escrever. É aí que o filme é construído, aí nasce a possibilidade de ser entendido ou de permanecer misterioso. É aí que se deixa espaço para as pessoas entrarem, colocarem seus próprios sentimentos, suas próprias lembranças”.

Cheia de energia, ela deixou escapar que estava envolvida num novo projeto, um outro documentário sobre suas viagens mais recentes, para o canal francês Arte, previsto para ser entregue no final de 2010. Nada ainda muito definido, mas imagens do Rio poderão fazer parte dele. Olhando pela janela do hotel Leme Othon, onde dá a entrevista, ela vê funcionários da prefeitura podando uma árvore. E comenta: “Em toda cidade onde vou, estão podando as árvores. Paris, Los Angeles, o Rio. Alguma coisa está acontecendo e não quero perdê-la, enquanto estou aqui”.

Ato contínuo, ela pega uma microcâmera ultramoderna de sua bolsa, filma os jornalistas que a entrevistam e pergunta seus nomes e onde trabalham. Quem sabe, logo mais eles também farão parte de alguma memória de Agnès.