Beto Brant: retrato do Brasil a sangue quente
- Por Neusa Barbosa
- 17/12/2002
- Tempo de leitura 6 minutos
Multipremiado no Festival de Brasília/2001 - onde venceu os troféus de melhor direção, trilha sonora, ator-revelação (para Paulo Miklos, o Titã) e especial da crítica - e também em Sundance/2002, onde foi eleito o melhor longa latino-americano, o filme O Invasor chega ao circuito comercial fadado a ser muito discutido. Afinal, alcança as telas com um retrato a sangue quente de um Brasil efervescente das ruas, na emergência social ética que agita o país aqui e agora. Nesta entrevista exclusiva, o diretor paulista fornece as coordenadas deste seu terceiro trabalho, que tem tudo para ser o grande filme brasileiro do ano.
Cineweb - A fotografia é um ponto alto do filme, dá o tom da história. Como você conseguiu esse visual?
Brant - Filmamos em película 16 mm, para poder usar negativos mais sensíveis, aproveitando a pouca luz. Daí, a gente telecinou em vídeo de alta definição (HD), o que nos permitiu corrigir todas as sub-exposições e dar eletronicamente o tratamento visual que pretendíamos. Usamos o transfer, um processo novo e mais caro do que a kinescopagem (o método mais comum para passar do filme ao digital) e que era também experimental. Foi o primeiro filme produzido assim, com apoio do Estúdio Mega.
Cineweb - O que você quer dizer quando afirma que teve de "enganar o fotômetro"?
Brant - Apenas que o fotômetro [aparelho que mede a luz e indica qual abertura dar no obturador da câmera] foi "levado" a trabalhar com mais luz do que a medição dele indicava. O Toca [Seabra, diretor de fotografia] usou gelatina para cobrir as lâmpadas.
Cineweb - Você algum dia teve medo de que a visão de sociedade projetada em sua história mitificasse o bandido?
Brant - Confesso que a perversidade de todos os personagens deu-me uma certa repulsa, a princípio. Mas o que eu enxerguei atrás disso foi uma história sobre a ética. Isto é que me sugeriu essa estética com uma fotografia contrastada, com a câmera na mão. O que existe aí fora é uma elite que não quer abrir mão do que tem. A personagem da Marina [Mariana Ximenes] é o símbolo de uma certa juventude que está curtindo e se achando a tal e não enxerga essa guerra que está em volta.
Cineweb - Você acha que a personagem da Marina é um retrato de geração?
Brant - Acho, sim. Ela é o retrato de uma geração que tem chance de fazer algo acontecer, tem dinheiro, estudo, pode ter informação, pode se articular, mas opta pelo individualismo. Ela acha que é malandra, esperta. Só quer curtir a vida, estar na onda.
Cineweb - Como você conseguiu interpretações tão naturalistas no filme?
Brant - Fizemos questão de dar mais liberdade aos atores, sem aquelas marcações muito rígidas de movimentação no set. A câmera ia atrás deles e não tinha parafernália demais no meio do caminho no cenário.
Cineweb - Com certeza, uma das razões para esse naturalismo está na gíria que especialmente o Paulo Miklos usa. Como você absorveu essa linguagem das ruas?
Brant - A gíria é uma recusa à linguagem dominante. Nasce nos presídios, nas favelas. As falas do Miklos nasceram de um trabalho dele com o Sabotage, um rapper que é parceiro dos Racionais. A literatura da periferia, aliás, é basicamente o rap - cada letra do gênero é uma verdadeira crônica. Essa linguagem contribuiu muito para o que a gente queria - que o filme mostrasse situações extremamente violentas sem ter nada explícito. O impasse fica definido na primeira cena, em que a câmera está colocada do ponto de vista do Anísio (Miklos). Ela mostra como o Anísio vê a classe média e alta.
Cineweb - Como você conheceu o Miklos?
Brant - Filmei três videoclipes dos Titãs há dez anos atrás, inclusive um que recebeu o prêmio de melhor clipe da MTV. Naquela época, já me chamou a atenção essa mistura que ele passa, de ameaçador e camarada ao mesmo tempo. Foi essa ambigüidade que me levou a chamá-lo para o papel do Anísio.
Cineweb - E o Sabotage, como você o descobriu?
Brant - Ele mora na zona sul de São Paulo e veio para um teste para o papel do rapper que é amigo do Anísio. O teste era uma conversa e ele me ganhou no ato. Na época, estava gravando o primeiro disco dele. Acabei lhe pedindo uma música, Aracnídeo, que toca naquela cena do bar. Por iniciativa própria, o Sabotage acabou compondo aquele rap do fim, que se chama também O Invasor. Ele fez aquela letra incrível da cabeça dele, me mostrou, eu adorei e acabei encaixando a música enquanto sobem os créditos finais.
Cineweb - Já te compararam ao Quentin Tarantino e você não gosta disso. Por quê?
Brant - O Tarantino é um parodiador, tira cenas de um filme aqui, outro ali. Eu não faço isso. Não me identifico com o modo dele fazer cinema. Até gosto do que ele faz, mas o meu compromisso está em outro lugar.
Cineweb - Você vê uma ligação entre esse filme e os seus dois anteriores [Os Matadores e Ação Entre Amigos]? Eles formam uma trilogia?
Brant - Este terceiro filme é quase uma seqüência de Ação Entre Amigos, em que a gente atualizava o ideal de uma geração que a gente admira, a que lutou na luta armada. É como se O Invasorfosse o seu dia seguinte, o retrato de um beco sem saída social. Mas essa seqüência não foi intencional.
Cineweb - Em quanto tempo foi feito e quanto custou o filme? De onde veio o orçamento?
Brant - As filmagens duraram seis semanas. A verba que tínhamos era R$ 1 milhão, vindo de um programa de baixo orçamento do Ministério da Cultura. Fora isso, a gente ganhou um prêmio do próprio Ministério, de R$ 370.000, mais
R$ 300.000 da BR Distribuidora. Tivemos também vários apoios. O Estúdio Mega entrou com a finalização, a Quanta, com o equipamento e a Videofilmes emprestou câmeras e outros equipamentos. Isto sem contar diversas locações que foram cedidas gratuitamente.
Cineweb - Você já tem um novo projeto em cinema?
Brant - Meu próximo filme será uma história de amor. Mas não quero ainda falar sobre isso.
