06/06/2026

Pedro Almodóvar e seu pequeno “8 e ½”

Três anos depois de Volver (2006), Pedro Almodóvar voltou à direção e à competição do Festival de Cannes com Abraços Partidos, não recebendo, mais uma vez, a sonhada Palma de Ouro. Em seu 17º filme, deixa de lado seu cinema de sentimentos à flor da pele, como em Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Fale com Ela (2001), em favor de uma condensação de referências cinematográficas e da afirmação do próprio estilo. É um Almodóvar mais maduro e menos impulsivo que conduz um trágico triângulo amoroso entre um diretor de cinema (Lluis Homar), uma atriz (Penélope Cruz) e um empresário (José Luis Gómez), numa história em que a narrativa cinematográfica é também personagem.

No Festival de Cannes, em maio, o diretor concedeu entrevistas a apenas dois pequenos grupos de jornalistas de todo o mundo. Num deles, a crítica Neusa Barbosa foi a única representante brasileira. Numa conversa descontraída, o cineasta falou de tudo, desde o uso de drogas até sua devoção por Federico Fellini. Abaixo, os principais trechos.

Cineweb - Este filme parece menos emocional do que os anteriores. O sr. procurou esse tom de propósito?

Almodóvar - Eu creio que não é menos emocional. Ao contrário. Do meu ponto de vista, estão colocadas nele todas as minhas emoções, quase em carne viva. O que sim é certo é que, ao contrário de Volver e outros, este é um filme que não vai te levar às lágrimas. É mais seco neste aspecto.

Mas é mesmo muito emocional, tanto os atores, desde que começamos a ensaiar, começavam sempre a sequência chorando. Tive que secar todas essas lágrimas durante as primeiras tomadas.

Cineweb - Por que?

Almodóvar - Não queria uma só lágrima porque os personagens já as derramaram muitos anos antes que ocorra a ação. É um filme mais que comove do que emociona. Creio que essa é uma situação um pouco mais incômoda, porque a lágrima é algo sedativo e relaxante. Entretanto, não é um filme que leva a chorar. Apesar de que todas as minhas emoções estão aí.

Cineweb - Neste filme, o sr. volta ao noir. Por que, na sua opinião, ele continua influente?

Almodóvar - É um gênero que aprecio há bastante tempo. Acho que os thrillers americanos foram descobertos pelos franceses há 50 anos quando lançaram a Nouvelle Vague. E por alguma estranha razão, excetuando Peter Bogdanovich, grande fã e estudioso deste gênero, tenho a impressão de ter sido um gênero subestimado nos EUA. Mas para mim foi a Nouvelle Vague quem estabeleceu e reconheceu como mestre Howards Hawks, que na América era tido como um simples artesão. E Eric Rohmer, François Truffaut, Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette decidiram que ele era um dos grandes mestres do cinema contemporâneo. E acredito que continua sendo.

O noir me interessa porque é um gêneros que melhor representa o poder e a pior parte dele. E também um dos melhores modos de criticar a sociedade e falar do indivíduo dentro de uma sociedade hostil, ou um ambiente hostil. E também porque, para mim, tem muito a ver com o drama. É um gênero em que os sentimentos extremos encontram lugar para desenvolver-se. Por essas razões, creio que sempre estará vigente, porque há sempre razões para falar do poder e para falar de grandes sentimentos e de grandes personagens em momentos de grande perigo.

Mas, como todos os gêneros, você tem que atualizá-los. Não se pode seguir suas regras ao pé da letra. Não há que ver esta película como noir. Ela participa do drama, do thriller e da comédia. Não se deve encará-la sob o prisma de apenas um deles.

Cineweb – Numa sequência, há uma situação envolvendo drogas. Qual a sua atitude hoje em relação a elas?

Almodóvar - Para as pessoas da minha geração, as drogas eram algo cotidiano. E da mesma maneira, para a gente da minha geração, foi necessário chegar um dia e dizer – não tomo mais porque senão, não sobrevivo, não trabalho. Mas elas fazem parte do dia a dia. Neste filme mostro um tipo de drogas que a minha geração não tomava, as drogas sintéticas e que podem ser extremamente perigosas – como MDMA, que, misturada com álcool, pode levar ao coma. Todo fim de semana, na Espanha, eu leio notícias sobre jovens que foram para o hospital porque fizeram essa mistura. No filme, um personagem o faz sem saber. É muito perigoso. Deveria haver avisos sobre isso nas discotecas. Alguns chegaram a morrer por causa disso. É uma advertência. Eu queria colocar alguma coisa real que ocorre nas discotecas.

Acho que nas discotecas deveria haver – e em algumas de Amsterdã, creio que havia – químicos de plantão para analisar a qualidade das drogas que circulam ali. E avisar as pessoas sobre o que compraram. Acho que, ao invés de tentar impedir os jovens de consumir drogas e fazer o que querem, deveriam informar as pessoas exatamente sobre aquilo que estão ingerindo. Creio que todas as opções pessoais, inclusive em relação às drogas, devem ser tomadas com liberdade. Mas deveria haver uma máxima informação.

Cineweb - No tempo da Movida, como era sua rotina diária?

Almodóvar - Primeiramente, era muito jovem. Portanto, tinha mais resistência e necessitava menos tempo de sono. E me recuperava muito depressa. Trabalhava na companhia telefônica e tinha que me levantar às 6h45 da manhã, o que me dava uma obrigação, um sentido de rotina que meus outros companheiros, que não precisavam de trabalhar, não tinham.

Então eu me levantava muito cedo, trabalhava até as 15 h. Durante toda a tarde, a noite a madrugada, escrevia já roteiros, que rodava em Super-8. Sempre havia várias casas abertas de amigos onde acontecia, digamos, uma espécie de orgia perpétua, onde se sabia que se podia ir, querendo divertir-se. Depois terminávamos sempre em vários locais. Mas havia um, mítico, que se chamava Rocola, que para mim foi realmente a universidade em que me formei e aprendi quase tudo.

As duas escolas onde me formei foram os pátios de La Mancha, onde aos quatro anos eu via a vida das mulheres, as escutava, minha mãe, minhas irmãs e nossas vizinhas, e a vida noturna de Madri - onde esses tópicos de sexo, drogas e rock`n roll eram absolutamente reais e em doses massivas. Então não apenas desfrutava os prazeres mas refletia sobre eles. Pode parecer um pouco kitsch, mas felizmente tenho um diário sobre aquelas noites, com uma personagem alternativa, Patty Diphusa, que era uma estrela de cine pornô, e na qual eu lançava todas as experiências disparatadas daqueles anos – em parte, já publicado, em revistas daquele momento e depois uma seleção de textos saiu em Anagrama.

Cineweb - Como vê toda essa experiência hoje?

Almodóvar - Foram anos e dias muito enriquecedores. Porque não era só a liberdade com que atuávamos. Eu estava com muita gente muito jovem, mais jovem do que eu e que se apresentava com toda a liberdade no campo da música, no campo do desenho, do vestuário, da literatura. Do cinema, menos, porque o cinema é um meio mais caro.

E a mera companhia de toda esta gente, com toda a liberdade, para mim foi absolutamente essencial. Naquela época, todas aquelas pessoas floresciam juntas. É certo que muitas destas pessoas morreram no caminho e que eu tive a sorte de também unir a esta loucura uma espécie de bom senso para retirar-me a tempo de tudo. Muita gente de talento ficou na metade do caminho. Não era recomendável, mas de algum modo era inevitável porque naquele momento Madri acabava de passar por uma etapa terrível e muito obscura que era o franquismo. Isto correspondia aos primeiros anos da liberdade absoluta na Espanha.

Tive muita sorte. O paralelo é com Andy Warhol e a Fábrica, era muito similar em todos os sentidos. Meu papel ali era muito semelhante ao de Warhol mas eu era muito mais atuante. Eu não era apenas um observador, eu participava de tudo aquilo. I mean it!. Foi maravilhoso.

Cineweb - O sr. escreve o roteiro sob medida para um ator ou escolhe seus elencos depois?

Almodóvar - Geralmente escrevo o primeiro esboço do roteiro e depois é que começo a visualizar os personagens e os atores. Quase sempre chamo meus atores, mesmo aqueles com quem trabalhei muito – Carmem Maura, Antonio Banderas, Victoria Abril, Marisa Paredes, Penélope Cruz – no último momento, com os roteiros prontos. Porque os roteiros mudam tanto durante o desenvolvimento que não quero arriscar-me a dizer-lhes:” Estou escrevendo algo para você”. E depois muda tudo, a idade dos personagens, às vezes até o sexo. Então não quero me comprometer. O que ocorre porém é normalmente, se tenho uma boa experiência com um ator, alguém que te entende e que você entende, com quem teve um bom resultado, claramente há muitas mais possibilidades de fazer uma película do que um ator que não se conhece.

Cineweb - Que busca num ator ou atriz? O que eles tem que ter?

Almodóvar - Depende do filme que esteja fazendo e do personagem que escrevi. Porque cada personagem necessita de um ator ou atriz diferente ou específico. Em princípio, o tipo de ator ou atriz com quem gosto de trabalhar podem ter técnica ou não. Se a tem, que não se note. Quero que tenham uma comunicação direta com suas emoções, sem que se interponha nenhum tipo de preconceito. Isto para mim é essencial. E também é recomendável que tenham um sentido natural do humor e também instinto e intuição. Entretanto, não é absolutamente necessário que sejam inteligentes. (risos) Atuar não passa pela cabeça e sim por outros canais. E se, para ser os protagonistas, são bonitos e muito sexies, melhor!

Cineweb - Este é seu quarto filme com Penélope Cruz. Como a encontrou, mais madura depois do Oscar?

Almodóvar - Na verdade, achei-a mais nervosa. Porque há um momento em que justamente a confiança que tem em mim e o amor exagerado que me dedica como pessoa e como diretor às vezes a paralisavam neste filme, porque lhe dava medo de não estar à altura. Eu passei o filme animando-a, dizendo: “Não só você está à altura, como eu tenho de dar saltos para chegar ao teu nível”. Então, pela responsabilidade que sentia de fazer este filme, ficava muito nervosa. Em todo caso foi uma experiência estupenda porque quando você encontra alguém que tem uma fé cega, isso lhe dá um enorme poder. E é um privilégio.

Cineweb - Neste filme, o sr. declina várias de suas influências e admirações, inclusive Fellini. Este é seu 8 e ½?

Cineweb - Creio de algum modo sim, é. Não de um modo deliberado mas finalmente me encontro com uma película em que basicamente reflito sobre mim mesmo, meus medos principais e sobre os temas que me obcecam, o cinema e meu próprio cinema. Mesmo que muito longe de Fellini – porque o menciono ao final, em que são citados nominalmente Jules Dassin, Nicholas Ray, Fritz Lang e também 8 e ½, além de Ossessione, de Visconti. Ou seja, estou muito longe da maestria absoluta de 8 e ½, que é incomparável. Mas acho que sim, resultou ser meu pequeno e humilde 8 e ½.