06/06/2026

Protagonista de “Os inquilinos” acha que o filme é ‘menos panfletário’ dentro da obra de Bianchi

Marat Descartes pode não ser ainda um ator conhecido do grande público de cinema – mas isso pode mudar a partir da estreia de Os Inquilinos – Os incomodados que se mudem, novo trabalho do polêmico diretor Sérgio Bianchi (Cronicamente Inviável, Quanto vale ou é por quilo?), que entra em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba.

Bastante respeitado por seu trabalho em teatro, especialmente com a comédia Toc Toc, Aldeotas e A Refeição, o ator paulistano está descobrindo o cinema agora. “Isso é muito interessante, pois são trabalhos bastante diferentes. No teatro você tem o domínio, sabe de onde veio e para onde vai. No cinema, não é bem assim. Às vezes as cenas não são rodadas em sequência. A primeira cena que a gente grava pode ser a última do filme”, declarou ao Cineweb.

Depois de algumas participações em curtas e longas, Descartes estreia como protagonista em Os Inquilinos no papel de Valter, um pai de família morador da periferia de São Paulo cuja vida começa a mudar com a chegada de novos vizinhos. Ele e a mulher (interpretada por Ana Carbatti) são confrontados com o comportamento turbulento dos novos moradores e entram num clima de paranóia.

“O Valter é um personagem muito contido, a força dele está na angústia. Às vezes eu tinha a impressão de não estar fazendo nada”, brinca. “Todo mundo sempre me disse que no cinema, ‘menos é mais’. Nesse caso, foi ainda menos do que menos para fazer esse personagem”.

Bianchi é um diretor que tem fama de ter personalidade forte, mas isso não intimidou o ator. “Nos sets ele sempre foi acima de tudo um criador. Eu percebi que ele direciona a loucura para o trabalho, para a criação artística.”

O ator também destaca as diferenças de “Os inquilinos”
do restante da obra do cineasta – que acaba de ser lançada em DVD. “Aqui, a tensão é criada dentro da cabeça do personagem. O filme não tem nada de panfletário, como seus trabalhos anteriores. Não há atores discursando direto para a câmera. A narrativa conduz o filme”.

Da experiência de filmar na Brasilândia, bairro da periferia de São Paulo, onde o filme é ambientado, Descartes descobriu como a capital é gigantesca. “A gente se esquece do tamanho da cidade, de quanto é maior que o nosso mundo. Você mergulha em outra realidade e vê pessoas em condições completamente diferentes das suas. ‘Os inquilinos’ é um filme sobre as pessoas que trabalham para nós, nas nossas casas. É sobre uma realidade que só conhecemos pelos jornais”.

Além do protagonista de Os inquilinos, Descartes também está no filme Lula – O filho do Brasil, em que faz o papel de um sindicalista amigo de Luis Inácio da Silva, interpretado por Rui Ricardo Dias. “São dois trabalhos completamente diferentes. Um é uma superprodução, outro é um filme independente. É como no teatro, há peças caras visando um grande público e outras menos comerciais”.

No final do ano passado, o ator concluiu seu curso de letras e comemora o título de bacharel. “Sempre gostei da literatura e o curso também me deu um suporte para o ofício de intérprete da palavra”. No teatro, Descartes sempre trilhou, de certa forma, o caminho da literatura: já dirigiu textos baseados em Gabriel García Marquez e Lygia Fagundes Telles e atuou em textos de autores como Chico Buarque de Holanda, Ruy Guerra e Samuel Beckett.

Em breve, Descartes poderá ser visto em dois filmes. Está em finalização Estamos Juntos, novo trabalho de Toni Venturi (Cabra-Cega), no qual faz o papel de um médico, ex-namorado da protagonista vivida por Leandra Leal, e Tempo de Aquário, de Walkiria Ribeiro, adaptado da novela A dócil, do escritor russo Fiodor Dostoievski.

Além desses trabalhos como ator, Descartes prepara, com o ator Gero Camilo (Hotel Atlântico) uma adaptação para o cinema da premiada peça Aldeotas, escrita por Gero e dirigida por Cristiane Paoli-Quito. “Estamos bem no começo ainda, fazendo o primeiro tratamento do roteiro”, adianta.

Alysson Oliveira