Eryk Rocha investiga a América do Sul indígena em “Pachamama”
"Pachamama" é o terceiro longa do diretor Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha. Nesse documentário, o diretor explora as fronteiras culturais e políticas que separam o Brasil, o Peru e a Bolívia. Em entrevista ao Cineweb, ele fala de seu trabalho.
- Por Neusa Barbosa
- 26/02/2010
- Tempo de leitura 8 minutos
Filho de Glauber Rocha, Eryk Rocha inventou para si personalidade cinematográfica própria ao tornar-se documentarista, assinando filmes como Rocha que Voa (2002) – em que o tema era uma série de entrevistas do pai – e Intervalo Clandestino (2006), sobre a campanha presidencial de 2002.
Seu terceiro longa, também um documentário, é Pachamama, em que o diretor explora as fronteiras culturais e políticas que separam o Brasil, o Peru e a Bolívia – com um foco mais pronunciado no processo político instalado neste último país depois da vitória do primeiro presidente indígena do país, Evo Morales, em 2005, reeleito em 2009.
Pachamama estreia nesta sexta (26-2) em São Paulo e no Rio e, numa iniciativa inédita em termos latino-americanos, já tem data marcada para entrar em circuito também na Bolívia – 7 de abril. “É uma coisa muito importante, que me deixou muito feliz. É quase como devolver para eles alguma coisa que eles me deram. Está garantido pelo menos um mês em cartaz. Depois disso continua ou não, depende do público”, antecipa Eryk ao Cineweb.
Em entrevista a Neusa Barbosa, o cineasta detalha a produção de Pachamama, resultado de uma viagem de jipe de 14 mil quilômetros pela América do Sul em 2007. E adianta também informações sobre Transeunte, seu primeiro longa de ficção, que conta a história de um aposentado (o ator de teatro Fernando Bezerra) que tenta reinventar sua vida.
Cineweb - O que te atraiu no processo político boliviano?
Eryk Rocha - O que está acontecendo na Bolívia é especialmente novo, não só no aspecto latino-americano. É uma cultura ancestral atuando hoje na sociedade e repensando a política, criando outros modelos. É o encontro do ancestral com o contemporâneo e da cultura com a política. Isso está gerando algo novo, ainda em movimento e que não se sabe muito bem o que é. Está em processo, mas merece ser pensado e estudado com muita atenção e calma, sem rótulo nem esquizofrenia.Se você for analisar, é o sonho da geração de 1960, da geração do meu pai, que tentou fazer uma revolução cultural, do Cinema Novo.
Cineweb - Como assim?
Eryk Rocha – A geração de 1960 queria que a cultura fosse o carro-chefe de uma revolução social no Brasil e na América Latina. Se você vê agora o que está acontecendo lá na Bolívia é isso. É a cultura – no sentido mais essencial da palavra, que é cultivar a terra – que está fertilizando a política, o pensar político, de uma forma empírica, espontânea. Isso sem idealizar. Pachamama reflete uma perplexidade, um olhar com muito afeto e muito cuidado para esse processo. Com todas as contradições que ele tem e todos os perigos. Mas existe alguma coisa em ebulição, em nascimento ali. O filme incorpora impressões disso e provocações.
Cineweb - Você filmou em 2007. Você acha que aquilo que você captou permanece, três anos depois?
Eryk Rocha – Tentei fazer um filme que não ficasse datado. Na montagem, tentei privilegiar questões mais de fundo, que tem a ver com esse olhar do viajante que está se surpreendendo com aquelas realidades.
Por exemplo, essa questão do conflito entre Santa Cruz (região que luta por autonomia da Bolívia) e La Paz, por exemplo, é secular. Vem desde os espanhóis. O que existe ali são dois países diferentes. Vai demorar muito ainda para ser superada.A questão dos movimentos sociais em La Paz, também. A chegada do Evo Morales ao poder, que é um fato inédito, está afetando os países em volta e redirecionando a história política boliviana. Não quis fazer um mero testemunho de um determinado momento.
Cineweb - Numa sequência, as pessoas te chamam de “gringo”. Você teve problemas para filmar lá, por ser louro e de olhos claros?
Eryk Rocha – Duas questões que em algum momento tive que superar lá: convencê-los de que sou brasileiro e não norte-americano e de que não sou jornalista, sou cineasta. É uma desconfiança natural, que depois foi superada.
Cineweb - O Brasil tem peso menor por filme. Isso foi proposital?
Eryk Rocha – Existe realmente pouca presença física, o território brasileiro está pouco no filme. Isso se deve a algumas razões. Primeiro, a uma ansiedade de chegar à América do Sul, nas fronteiras, no Peru e na Bolívia, uma ansiedade de saber o que estava acontecendo lá. Por outro lado, quem está filmando é um brasileiro. Acho que o deslocamento para outros lugares é uma forma muito poderosa de ver seu próprio país e você mesmo. O filme tem de alguma forma esse desejo de olhar o Brasil através desses países da América do Sul.
Também foi uma opção de montagem porque eu tinha muito material e achei mais importante me concentrar nesse olhar brasileiro, nesse olhar viajante em busca dessa América indígena profunda.
Em nenhum momento me preocupei em fazer um filme simétrico, objetivo, conclusivo, nessa linha de cinema documental que tenta abordar fatos e fazer uma coisa mais fechada e homogênea. É um olhar do viajante que está tentando sentir as pulsões dessa parte da América do Sul hoje, sem tentar definir o que é o continente.
Também foi uma opção de montagem porque eu tinha muito material e achei mais importante me concentrar nesse olhar brasileiro, nesse olhar viajante em busca dessa América indígena profunda.
Em nenhum momento me preocupei em fazer um filme simétrico, objetivo, conclusivo, nessa linha de cinema documental que tenta abordar fatos e fazer uma coisa mais fechada e homogênea. É um olhar do viajante que está tentando sentir as pulsões dessa parte da América do Sul hoje, sem tentar definir o que é o continente.
Cineweb - O filme nasceu de uma minissérie feita para o Canal Brasil. Você já tinha trabalhado com televisão antes?
Eryk Rocha – Sim, eu tinha feito alguns Retratos Brasileiros para o próprio Canal Brasil, um sobre Walter Salles, outro sobre Geraldo Sarno e também uma série sobre Cinema e Pensamento.
Agora estou fazendo outra série com eles sobre o Cinema Novo, que para mim é um tema que ainda não foi estudado e discutido o suficiente, o que existe não está à altura do que foi esse movimento. Já estou filmando as entrevistas, por enquanto no Brasil, mas vou também para fora, para dar a dimensão transcultural do Cinema Novo, que não foi nem só cinematográfico nem só brasileiro.
Cineweb - Quem você vai entrevistar no exterior?
Eryk Rocha – Quero viajar para falar com (Jean-Luc) Godard, (Bernardo) Bertolucci, (Francis Ford) Coppola, (Martin) Scorsese, os críticos italianos. Vai ter uma versão disso tudo numa série, que deve ir para o ar no próximo ano. Depois quero fazer uma versão em longa para cinema, como fiz com Pachamama.
Cineweb - E seu primeiro filme de ficção, Transeunte, está pronto?
Eryk Rocha – Estou montando. Estou chegando ao primeiro corte do filme, na semana que vem. A idéia é ficar pronto no meio do ano, em julho ou agosto ter uma cópia. E aí, imagino, ter um percurso em festivais. E depois lançar, vamos ver.
Cineweb - Você sentiu algum estranhamento nessa passagem do documentário para a ficção?
Eryk Rocha – Sim e não. Me sinto muito feliz de ter feito três longas documentários antes de ter filmado a ficção, porque me fortaleceu muito. Desde o modelo de produção do filme, a quantidade de pessoas na equipe, a dinâmica de produção e de criação, a hora de pensar o filme, a estratégia de filmagem, na hora de dirigir os atores, de pensar a câmera, de pensar a linguagem do filme. Isso realmente me deixou muito livre, me deu muita fortaleza e inspiração, porque Transeunte é um filme que está dialogando muito com o documentário também. A gente trabalhou muito com cenários naturais, a cidade é um personagem do filme. Foram quatro semanas no Rio e uma semana em Paulínia, onde ganhamos um edital.
Cineweb - Então, você não sentiu nenhuma diferença?
Eryk Rocha – Houve uma diferença na questão dos atores. Essa foi uma experiência nova, que eu tinha tido muito pouco, só com curta. Foi uma descoberta apaixonante o trabalho com os atores. O filme nasce também dessa simbiose. Me interessa muito essa troca, esse corpo a corpo, descobrindo o filme junto com os atores. Isso é um grande diferencial e a precisão. A gente filmou em película. Eu tinha feito os documentários em digital. Então para mim isso foi uma dificuldade também, porque agora eu estava coordenando vários movimentos simultâneos. Em Pachamama, sou eu e a câmera diante da realidade. Em Transeunte, somos eu, os atores, o fotógrafo, o som, a direção de arte, o documentário que está interferindo com a ficção, porque é um filme aberto. São muitos movimentos para articular e ainda tem esse do acaso. A ficção tem uma coisa de dança. O diretor é a pessoa que tem o papel de comandar o mistério daquela dança. Com tudo ali em movimento, você tem que fazer a dança acontecer.
