06/06/2026

“O Palhaço” encerra crise pessoal de Selton Mello

O ator está dirigindo seu segundo longa, "O Palhaço", no qual reflete sobre a crise de identidade de um artista que acha que não sabe mais fazer rir.

PAULÍNIA - Um sentimento pessoal de dúvida, até em relação à própria profissão, dividia o ator e diretor Selton Mello, enquanto atuava em Jean Charles, de Henrique Goldman, no ano passado. “Tinha tudo para estar bem e não estava. Não me sentia feliz com aquilo tudo”, descreveu, em entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira (15/3), em Paulínia, onde ele está filmando seu segundo trabalho como diretor, O Palhaço. Orçada em R$ 5 milhões, a produção tem filmagens previstas até 12 de abril e estreia projetada para março de 2011.

O protagonista da história, o palhaço Benjamin, que usa o nome artístico de Pangaré (interpretado pelo próprio Selton), na verdade, nasceu nutrido por esta crise pessoal, dentro do roteiro assinado por Selton e Marcelo Vindicatto (que dividiu com ele os créditos de sua estreia como diretor, o drama Feliz Natal, de 2008). Como o ator, este palhaço tem dúvidas sobre o próprio ofício, acha que não sabe mais fazer rir. E viverá os dilemas dessa crise ao lado do pai, o palhaço Valdemar, ou Puro-Sangue (Paulo José, que pela primeira vez contracena com Selton).

O ator esclarece que, a partir de um determinado momento, o personagem ganhou vida própria, com suas próprias questões. Portanto, é um personagem “mais metafórico do que autobiográfico”. “A crise foi só um ponto de partida. Ele tem pensamentos que não são meus”, acentua.

Num determinado ponto da pré-produção, Selton cogitou de não atuar, apenas dirigir. Assim sendo, convidou primeiro o ator Wagner Moura, depois Rodrigo Santoro, para este papel. Mas os dois estavam envolvidos com outros projetos, Moura em Tropa de Elite 2, e Santoro, em Heleno, sobre o jogador de futebol Heleno de Freitas. Aí Selton decidiu defender ele mesmo o papel que conhecia melhor do que ninguém, assumindo, ainda, o desafio de atuar e dirigir ao mesmo tempo - o que não foi o caso em Feliz Natal, que só dirigiu.

Nem por girar em torno de uma crise de identidade O Palhaço terá um tom dramático muito carregado, diferindo bastante de Feliz Natal. “Meu desejo pessoal é que seja um filme solar, legal de ver, um filme que possa ser classificado como uma comédia sonhadora, impregnada de candura. Nos dias cínicos e duros que vivemos, é a coisa mais louca, mais ousada que posso querer”, frisa Selton.

Ao seu lado, Paulo José acrescenta: “Este filme tem uma coisa quixotesca. Aborda o tema da decadência, mas trata como se essa crise não fosse uma coisa definitiva”.

Influências

No processo de pesquisa da história, ao longo do último ano, Selton assume que incorporou influências e que diversas delas marcarão a trajetória dos personagens. “Tem Oscarito, Didi Mocó, Bye Bye Brasil, muita coisa”, antecipa.

Parte dessa pesquisa incluiu entrevistar palhaços, como Cochicho, que mora em Goiânia e trabalha no circo de Beto Carreiro. Cochicho, segundo Selton, acabou tornando-se um “personal palhaceiro” da equipe, orientando nas gags físicas fundamentais ao desempenho dos atores.

O diretor explica que os nomes dos dois protagonistas homenageiam dois grandes palhaços: Benjamin de Oliveira, um ex-escravo que virou um dos mais importantes profissionais do circo, e Waldemar Seyssel, mais conhecido como Arrelia.

Indagado se agora a crise passou, Selton comenta: “Filmar é bom, porque você fica pensando em coisas mais alegres, figurinos, sapatos, atores”. Nas filmagens, o diretor terá 14 atores em cena praticamente o tempo todo, inclusive ele mesmo, misturando novatos a profissionais experientes, como ele, Paulo José, Cadu Fávero, Erom Cordeiro, o cantor Thogun e Teuda Bara, do grupo Galpão. O picadeiro, no estúdio em Paulínia, está montado. Ali, serão três semanas. Depois, o final da história será filmado em Ibitipoca (MG).

(Neusa Barbosa)