06/06/2026

Daniela Thomas e Felipe Hirsch exploram diálogo entre as artes

Parceiros em projetos teatrais, Daniela Thomas e Felipe Hirsch realizaram seu primeiro filme juntos, "Insolação" – uma obra em que a fronteira entre as artes são confrontadas.
Parceiros desde 2001 em projetos teatrais, Daniela Thomas e Felipe Hirsch realizaram seu primeiro filme juntos, Insolação – uma obra, aliás, em que as fronteiras entre as artes, como literatura, cinema e teatro, são confrontadas. A inspiração para o roteiro, de autoria dos norte-americanos Will Eno – dramaturgo indicado ao Pulitzer pela peça Thom Pain – e Sam Lipsyte, vem da literatura russa, o que rende uma dramaticidade intensa a personagens sempre no limite, em busca de amor, independente da idade.
Nesta entrevista, concedida a Neusa Barbosa
em Veneza, durante o festival de 2009, onde o filme foi exibido na mostra Horizontes, os diretores comentam aspectos desta obra.

Cineweb - Uma coisa que me chama a atenção no filme é que os dois personagens adolescentes (Antonio Medeiros e Daniela Pepszyck) estão em pé de igualdade com os adultos em termos de busca amorosa, o que não é muito comum.

Daniela Thomas – Meu marido comentou exatamente isso – eu nunca tinha visto o interior da alma de uma criança retratado como o de qualquer outra pessoa. E acho mais: o que essas crianças estão sofrendo é do que o filme trata. Essa coisa avassaladora do primeiro amor, que é uma utopia que você passa a vida inteira sem realizar, é o que está movendo todos esses personagens, Essa é a principal emoção deste filme.

Felipe Hirsch – É um acontecimento traumático, mas feliz. Nunca será lembrado com tristeza. As pessoas confundem muito isso. O primeiro amor é triste?

Daniela – Vendo o filme, também, me dei conta do quanto a Daniela é carismática...

Cineweb – A Daniela é um pouco de alívio cômico, a coragem dela de ir atrás do Leo (Leonardo Medeiros), como qualquer outra mulher. É uma ousadia, porque vivemos tempos muito moralistas, em se fala tanto de pedofilia.

Felipe – Pedofilia é exatamente o contrário disso. O desejo na criança é pura paixão. É o momento mais pleno e mais bonito.

Daniela
– Este é o desejo dela.

Felipe – É lógico que para fazer uma cena dessas, a gente tem que ter uma delicadeza muito grande. Quando a gente confiou isso ao Leonardo Medeiros, era o ator que sabíamos que faria isto lindamente, ele é pura proteção. Mesmo que ele a machuque verbalmente depois.

Cineweb - Como trabalharam os diálogos – se decorou muito, improvisou muito?

Felipe – Para começo, antes de chegar aos atores, houve três tratamentos de roteiro. Os roteiristas são extremamente rigorosos. O Will Eno é comparado ao Beckett, você imagina o que é mudar uma vírgula desse homem. E a gente mudou muitas. Só que a gente sabia que precisava disto. Não pelo roteiro, porque o roteiro é brilhante. Mas cinco anos buscando um sentimento, como filmar uma emoção, você não pode se dar ao luxo de ter um objeto fechado. Cada dia de filmagem você precisava acrescentar alguma coisa.

Cineweb – Mas como foi o trabalho específico com os atores?

Felipe Hirsch - Fizemos várias leituras com os atores. Eles sabiam muito pouco. A gente escolheu as pessoas que sabíamos que poderia viver aquela aventura com a gente.

Daniela Thomas - E que confiavam, achavam que se imbuíssem daquele sentimento daquela maneira, ia dar certo. Estavam em mãos seguras. Eles todos estão falando aquelas coisas como se fossem as mais normais do mundo e com um sentimento que está claro.

Felipe - Não existiu um laboratório, só uma vivência emocional instantânea para fazer o filme.

Cineweb – O que mudou no set depois que chegaram os atores?

Felipe – A primeira coisa é que você tem que trazê-los, a gente tinha que afastá-los de qualquer tipo de manifestação performática. Não se tratava disso. A gente tinha que ser muito íntegro emocionalmente, senão perdíamos o filme. Ele tinha que ser muito simples, mas muito verdadeiro. A partir do momento que se conseguia isso, esses atores queriam saber desse sentimento. Era como uma busca em tempo real. Eles tinham que interpretar ao mesmo tempo que buscar o sentimento.
Agora, existem alguns atores enfeitiçados. O Paulo José é um ator que carrega não sei que compartimentos, não são mais racionais. Quando ele chegou, ficou uma noite inteira e eu não conseguia falar com ele. Ele estava atormentado. Depois, durante o processo, não tinha mais uma relação que não fosse com o personagem.

Daniela – Ele é tomado pelo personagem.

Felipe – Tenho muito orgulho desse filme também por esses atores. Você consegue de maneira harmônica andar dentro do filme.

Cineweb – Apesar da dificuldade, vocês filmaram bem rápido, não?

Felipe - Menos de cinco semanas. Mas o filme tem cinco anos. Não só o roteiro, mas os conceitos, a delicadeza que a gente tinha que ter com o tema.

Daniela – Tem certas coisas que só sobrevivem no tempo. Várias cenas morreram pelo caminho.

Felipe – Eu que estou fazendo meu primeiro filme não posso afirmar que aprendi nada, tudo pode ter sido só esta vez. Mas uma coisa que me impressionou muito é que esse tempo de cinco anos no teatro não existe, não pode existir. Eu nem sei como esse filme é vivo assim. O cinema tem esse tempo de maturidade mesmo.

Cineweb – E você, gostou da experiência com cinema, quer repetir?

Felipe – Eu já queria repetir antes de fazer o primeiro! (risos). E a Daniela é uma criança. No set, ela fica ainda mais iluminada do que já é, acorda duas horas antes do resto da equipe sem precisar. É uma relação profunda. Ela gosta de todas as etapas. Nós temos ideias, elas podem parar na tela do cinema ou no palco. Ou podemos ser parceiros de uma Bienal de Arte, nado sincronizado (risos).

Cineweb – Vocês gostam dessa mistura entre as artes...

Daniela – Acho que o próprio cinema pede isso, querendo se libertar do realismo, acho que há uma coisa mais híbrida vindo aí. Cinema em várias telas, vai haver um cruzamento maior daqui a pouco, vai havendo uma contaminação. E a gente vai acabar achando engraçadas essas convenções de hoje, TV, filme, teatro, instalação, quando olharmos para trás....