João Moreira Salles filma o Brasil delicado em "Nelson Freire"
- Por Neusa Barbosa
- 30/04/2003
- Tempo de leitura 18 minutos
Fotos de Luiz Vita
A última coisa que o diretor João Moreira Salles gostaria que pensassem de seu novo filme, Nelson Freire, é que se trata de uma produção restrita ao gueto dos amantes da música clássica. Diretor do contundente Notícias de Uma Guerra Particular (1999), um denso mergulho nas razões da violência no Brasil, Salles entende que, ao filmar o cotidiano do pianista mineiro Nelson Freire, um dos maiores músicos do mundo na atualidade, retratou uma outra veia do Brasil profundo, que é tão real quanto a violência instaurada pelo tráfico nas favelas. Para falar deste novo trabalho, o diretor concedeu entrevista exclusiva a Cineweb, falando de sua estratégia de aproximação com o pianista, de seu novo documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de suas restrições ao estilo bombástico do documentarista americano Michael Moore, vencedor do Oscar 2003 por Bowling for Columbine.
Cineweb - De onde surgiu a idéia de um documentário sobre o Nelson Freire? Você já o conhecia?
João Moreira Salles - Foi uma sugestão de Flávio Pinheiro, jornalista que tem um profundo conhecimento de música. Dele veio a idéia de fazer dois documentários, um sobre um mestre incontestável da música popular e outro sobre um mestre incontestável da música erudita. O da música erudita acabou sendo o do Nelson Freire. Eu não o conhecia. O Flávio marcou um encontro na casa do Nelson e eu fui propor o filme a ele. Ele pensou durante um mês, um mês e meio, e disse sim.
Cineweb - Da sua parte, você não sentiu também uma necessidade de um tema mais leve depois de Notícias de Uma Guerra Particular?
João - Não, não houve isso. Foi uma coisa que aconteceu, como quase tudo na minha vida, nunca é uma coisa programada. Mas é claro que o teu interesse por um assunto nunca é despertado impunemente, é porque alguma coisa está ali de antemão. Acho que o que estava ali era uma vontade de olhar para o Brasil de uma outra maneira. Continuar falando do Brasil, mas de outro modo. Notícias é desordem, é distopia, é anarquia, é tudo aquilo que não funciona, a feiúra. Nelson Freire é o inverso. É a ordem, a beleza, o compromisso com ela, é a vida devotada a produzir a beleza, o respeito pela beleza. Então está claro que isso acabou sendo fundamental para que eu me empolgasse com a idéia. Como documentarista, o desafio de fazer um documentário sobre um antipersonagem também era grande.
Cineweb - O Nelson quase não fala...
João - Ou fala e é divertidíssimo mas só para os amigos. Eu não tinha essa intimidade. Não é que o Nelson seja uma pessoa que atravesse a vida com muita dificuldade de verbalizar. Ele verbaliza e muito bem. Mas só para os íntimos e ele não quer aumentar esse círculo. Ele tem uma coisa assim preciosa, são esses amigos e ele não precisa de mais.
Cineweb - Como a Martha Argerich.
João - Como a Martha. Eles têm uma relação de tantos anos, que é tão profunda, mas ela não é verbal. Eles se entendem pelo olhar. Isso era um desafio interessante também. Na minha cabeça é um filme sobre o Brasil e sobre valores que estão em toda parte neste País. Essa maneira não-cerebral de se relacionar com as coisas, mas profundamente afetiva, acho que esse é um valor muito importante e que o Nelson tem.
Cineweb - E você começa o filme nos bastidores, que é justamente o oposto do mito. É aquele cara que fica torcendo as mãos, uma pessoa comum...
João - Com todas as angústias e medos que nós também temos no nosso trabalho. Não é um herói, é alguém que nasceu com um dom absolutamente privilegiado mas carrega esse dom com muito esforço. Quer dizer, nada é fácil.
Cineweb - Você mostra bem isso naquela parte em que ele treina um trecho difícil.
João - E a angústia que ele tem de enfrentar uma platéia. Acho que esses são valores importantes para o Brasil. O Nelson nunca faz nada pela metade, ele sempre faz integralmente, da melhor forma possível. Não tem jogo amistoso com ele, é tudo final de campeonato, é tudo decisão. E são valores importantes que estão em todo lugar. Estava pensando nisso nesse documentário que eu fiz agora sobre o Lula, que o Eduardo Coutinho fez também.
Cineweb - Como foi que vocês dividiram esse trabalho?
João - A gente está colaborando, ele filmou os peões do ABC. É linda a maneira como essas pessoas falam da profissão delas, o orgulho do trabalho bem-feito, o orgulho de uma dedicação à excelência, a excelência de fazer uma peça perfeita, de saber que essa peça foi bem-feita, bem-torneada. Voltando ao Nelson, acho que isso é um valor que independe do talento dele. É um valor de trabalhar sempre da melhor forma possível, de ser sempre o melhor possível.
Cineweb - Até por ser tão talentoso, ele poderia ter uma atitude mais relaxada.
João - É, ele podia não estar nem aí, ser assim: "Vou tocar de qualquer maneira, o público vai aplaudir de qualquer jeito". Mas não é.
Cineweb - Uma prova disso é aquela briga que ele tem para afinar o piano num concerto na Sala São Paulo.
João - E isso acontece num concerto beneficente. É um amistoso. E o rigor dele é o mesmo que teria se estivesse entrando pela primeira vez no Carnegie Hall. Tudo tem que ser perfeito, ele se exige isso. Então isso é um valor importante, como eu acho importante o valor do afeto, a relação sempre intermediada pelo amor nas coisas, seja com a música, seja com outras coisas.
Cineweb - Nesse sentido é que cabe aquela cena da cachorra, do olhar de amor dela por ele.
João - É. No meio do horror cotidiano do Brasil é bacana afirmar esses valores. Eu acho que o Nelson afirma. E eu acho que por isso me deu tanto prazer fazer esse filme e eu não o considero um filme Caribe, um filme-férias...
Cineweb - Tipo "descansei da batalha"?
João -É, tipo "descansei da batalha". É sobre o Brasil também, um Brasil tão vigoroso quanto o de Notícias de uma Guerra Particular, que também é um Brasil verdadeiro. Não é um para negar o outro, os dois fazem parte do País. Isso me animou a fazer e eu acho que Nelson Freire tem uma relação com Notícias pelo avesso, ele é o espelho do Notícias, a imagem tanto dos nossos horrores quanto das nossas maravilhas.
Cineweb - Para obter esse resultado do filme, quanto tempo de observação isso te exigiu, já que você não conhecia o Nelson?
João - Essa observação eu acho que foi fundamental. E isso talvez seja uma das diferenças entre o procedimento do jornalista e o do documentarista. O jornalista, por dever de ofício, está lá para conseguir o fato, a informação, e isso tem de ser feito rápido. Não há como ele ficar dois anos atrás de um personagem. Para mim, o fato não interessava, a informação não interessava. Interessava a alma do personagem e o filme teria que ser isso, que fosse apenas pequenas impressões do Nelson, sem nenhuma obrigação de contar a história inteira. Quer dizer, se tivesse que ter lacunas, não teria problema nenhum. Se tivesse que não dizer nada, que não dizer tudo, não teria nenhuma obrigação. Mas teria uma obrigação de conseguir traduzir o afeto do Nelson pelas coisas, traduzir as angústias dele. E isso você só faz aos poucos. É uma descoberta lenta. Você não consegue se instalar do dia para a noite na subjetividade do personagem, porque assusta. Principalmente alguém como ele. Não basta ele dizer: "Eu aceito o documentário". Porque ele pode perceber no segundo dia de filmagem que aquilo é uma invasão terrível. Então aí tem uma estratégia de se aproximar lentamente. É um processo de descoberta, minha também, da equipe, que é lento, gradual.
Cineweb - E quanto tempo levou esse processo?
João - Concretamente, significa que a gente levou pelo menos uns seis meses para conseguir aproximar a câmera a essa distância que eu estou de você. No início a gente ficava muito longe do Nelson. As primeiras gravações eu punha sempre uns cinco, seis metros entre a câmera e o Nelson. E eu não me dirigia a ele. Ficava observando o que ele fazia no camarim, no bastidor, no teatro. Eu tentava ser quase imperceptível e aos poucos, aos poucos, ia me aproximando. A aproximação maior aconteceu no último dia, depois de dois anos de convívio. Aquela entrevista é literalmente a última coisa que foi feita no filme. Ela atravessa o filme inteiro mas foi feita toda num só dia.
Cineweb - Depois de dois anos.
João - Não dois anos contínuos, evidentemente. A gente filmava duas, três, semanas, interrompia por quatro, cinco meses. Mas ele já tinha estado se relacionando com a gente por dois anos e o dia em que ele se sentiu preparado para essa conversa, eu já tinha de certa maneira me colocado afetivamente próximo a ele. Isso é importante. É por isso que muitas vezes as entrevistas de jornalistas não funcionam com o Nelson. Não por uma deficiência do jornalista, mas por uma deficiência do Nelson, que não sabe como responder apenas factualmente. Ele precisa ter uma relação afetiva senão não funciona.
Cineweb - E você como jornalista não tem o tempo de criar essa relação.
João -Exato. A filmagem do concerto que atravessa o filme inteiro, que são os ensaios na Rússia, também acontece no final daqueles dois anos. Por isso a gente consegue se aproximar tanto dele. Os primeiros concertos aqui eram sempre filmados muito distantes. A gente não tinha como se aproximar. Então houve essa estratégia da aproximação lenta, gradual e suave, respeitando ele.
Cineweb - Até você encontrar de que maneira iria se apropriar desse teu objeto.
João - Inclusive confrontar o que não cabe perguntar, o que cabe a ele responder, o que ele não quer responder e entender que no filme só haverá aquilo que ele quer dizer. Eu não quero revelar nada, quer dizer, não quero nenhum fato novo. O fato novo não interessa. Interessa a personalidade dele. E isso eu acho que ninguém conhece ou conhece pouco. Isso se exprime tanto verbalmente com determinadas pessoas como em silêncios, no caso dele. Ele às vezes diz tanta coisa só com o rosto, só com o olhar, parando uma frase no meio.
Cineweb - Inclusive a gente como jornalista sente como deve ter sido difícil para você lidar com esse discurso interrompido.
João - Na verdade não foi tanto porque, por causa desse convívio de dois anos, eu percebi como era eloqüente o silêncio. E toda vez que ele falava e concluía uma idéia era menos forte do que o silêncio. O caso clássico foi o da Guiomar Novaes. Eu tolamente pedi a ele para falar da Guiomar e exprimir em palavras o amor, o afeto, a admiração que ele tinha por ela. Ele topou. Mas dizia as frases que todos nós dizemos, que era a maior pianista do Brasil. Isso não tem força. Aí ele disse: "Não, agora você vai entender". E pegou o disco e me pôs para ouvir a Guiomar. Aí eu percebi que a grande homenagem não era fazê-lo falar, mas fazê-lo ouvir. E aí ele fica comovido ouvindo a Guiomar Novaes e você entende, através do rosto dele, como ela era grande.
Cineweb - Eu achei interessante também a maneira como você capturou esses acasos da filmagem, como o repórter francês. É a sorte. Porque ele é tão idiota nas suas intervenções que parece estar seguindo um texto [risos]
João - É chato, também, você colocar num filme um sujeito que vai ser ridicularizado. Mas aconteceu diante da câmera e tem ali um certo desprezo pelo Brasil, uma maneira de tratar o Brasil de forma estereotipada.
Cineweb - Como quando ele pede ao Nelson que diga o nome da cidade francesa com sotaque.
João - É. Quer dizer, se você vem do Brasil não pode falar bem francês, não é isso o que se espera dos nativos do Brasil. E você não pode ser um músico incontaminado pelo calor tropical. É isso que vai definir a sua música e não a sua percepção profunda de uma partitura. É a pergunta que ele faz ao Nelson: "Como é que o calor afeta a sua maneira de tocar ?". Então aí eu achei que era justo incluir a participação do repórter. Documentário tem isso de deslumbrante. É uma das coisas que o distingue da ficção. Você tem de interpretar o mundo à primeira vista. As coisas estão acontecendo e você se pergunta porque filmar isso, será que isso está dizendo alguma coisa. O sujeito está fazendo uma entrevista sem a menor importância com o Nelson, será que vale a pena filmar, será que não vale. Esse exercício de interpretar o mundo na hora em que o mundo está acontecendo é muito legal. É a adrenalina.
Cineweb - Isso é inclusive o que une o jornalista ao documentarista. Você capta a cena e guarda aquilo, não sabe se vai servir ou não à sua história. Depois até chegar à sala de montagem você descobre o valor de certas cenas. Além disso, eu acho que até a cultura da celebridade que a gente tem hoje no jornalismo está muito patente na atitude dele.
João - É um jornalista de programa da variedades, que pula de Nelson Freire para Britney Spears e dela para o último livro do Vargas Llosa e daí para a última moda culinária. Tudo se equivale, tudo é igual a tudo.
Cineweb - Num outro sentido, achei interessante também a maneira como você usou o encontro do Nelson com os fãs. Isso é uma outra coisa que está acontecendo ali na sua frente.
João - Como a maioria dos meus documentários, ele é um documentário que, se tudo correr bem, você volta para casa com um filme que você não supôs que pudesse fazer. Não porque ele é melhor ou pior, mas porque você não podia imaginá-lo de antemão. Você não sai com o roteiro, você não tenta adestrar o mundo. O mundo ocorre e você o aceita do jeito que ele acontece. O que é uma maneira de você trabalhar. Existem outras.
Cineweb - E o tom que ele deve ter você vai descobrindo ao fazer.
João - Sim, no processo. Também fazendo uma análise crítica da história do documentário, não me interessava mais fazer cinebiografia, em que o crítico aparece e fala que o Nelson Freire é um extraordinário pianista. Isso não tem força, não me interessa. Eu sabia que o que eu queria eram pequenos fatos. Qualquer história valia contanto que fosse afetivamente interessante. Acho que no caso do Nelson tinha de ser isso. Então, desde o olhar da cachorra, que é uma seqüência que dura dez, quinze segundos, até seqüências maiores, como a da carta do pai, que leva uns dez minutos. Que é linda aquela carta e que no filme cumpre um papel fundamental porque é um momento em que você tem uma informação biográfica, só que não de forma desapaixonada.
Cineweb - E aí você percebe toda a renúncia que a família fez em favor dele.
João - Tudo. E aí meu prazerzinho menor foi chamar o Eduardo Coutinho para ler a carta. Ele leu muito bem. Ele mesmo diz que tem uma voz meio fora do tempo.
Cineweb - Falando do Eduardo, o que você pode falar dos filmes sobre o Lula que vocês fizeram? Já estão prontos?
João - Não. A gente está em processo de edição, tanto ele quanto eu. Ele está muito mais adiantado. Por várias razões. O meu material é muito maior. Tenho 170 horas de material. Estou no meio do processo, o Eduardo está quase terminando. São dois filmes independentes mas que nós imaginamos que sejam parte da mesma obra. O que eu quero dizer com isso? Quem ver um vai se beneficiar muito se vir o outro.
Cineweb - O Eduardo ouviu os colegas do Lula?
João - Não necessariamente os colegas mas os peões do ABC que surgiram e participaram ativamente das greves de 79 e 80. Nenhuma liderança mas os caras que estavam ali enchendo Vila Euclides. Foi feita uma extensa pesquisa iconográfica para tentar identificar os anônimos, os caras que estavam ali segurando bandeira, fotografia, reivindicação. E aí a história desses caras no mesmo momento em que o Lula surgiu para a vida nacional. Ele acompanha essas pessoas, eu acompanho o Lula. O filme dele e o meu devem provavelmente estrear juntos e eles ocupam sessões alternadas nos cinemas. E quando forem lançados em DVD serão lançados juntos.
Cineweb - E você já tem uma idéia de quanto o seu filme vai ter de duração?
João - O Eduardo vai fazer um filme de 1h50 mais ou menos. O meu é um mistério de Fátima [risos]. Eu tenho tanta coisa, é um material tão extenso. É muito difícil fazer um filme que não seja muito longo ou então dois filmes. Talvez um filme até o primeiro turno e outro até o segundo. Acontece tanta coisa extraordinária diante da câmera, não por virtude minha mas apenas pela câmera estar lá. E eu tive do Lula um acesso que eu jamais supus que pudesse ter. Eu estava realmente ali em todos os momentos. Eu estava presente nos vôos de avião, no hotel, todos os comícios, a produção dos programas eleitorais. Eu tenho o momento em que ele sabe que ganhou a eleição. É um material muito rico.
Cineweb - E o Lula é um personagem bem diferente do Nelson, é o cara que tem o dom da palavra, que tem o carisma.
João - Avassalador. O Nelson é um cara que tem carisma mas é de outra maneira. Mas eu acho que as pessoas saem do filme muito comovidas, gostando dele, tendo por ele um imenso carinho.
Cineweb - Outro dia, ouvindo você falar, tive a impressão de que você tem reservas ao estilo Michael Moore de documentarista, esse estilo meio guerrilheiro. O que você acha dele?
João - Tem duas coisas na minha relação com ele. É curioso o Michael Moore porque ele é um documentarista, do meu ponto de vista, das causas corretas. Quer dizer, tudo o que ele diz eu acho também. Mas isso não é o suficiente para que eu tenha admiração pelo trabalho dele. Eu acho que ele fez um primeiro filme, Roger & Me, e esse é um filme que eu acho extraordinário, porque foi uma novidade. É um filme sobre a vida dele, sobre o fechamento da fábrica da GM na cidade em que ele nasceu. O pai dele era um operário da GM e a GM fecha as fábricas ali e vai produzir mais barato no Terceiro Mundo. O filme é sobre a tragédia que esse fechamento produziu na cidade dele. Esse é um documentário extraordinário. Depois ele se encantou com a própria personalidade.
Cineweb - Inclusive em Bowling for Columbine?
João - Acho que tem duas coisas em Bowling for Columbine. A primeira é que é muito mais um filme sobre o Michael Moore do que sobre qualquer outro assunto de que o filme esteja tratando. Ele é mais importante do que o fato. Em segundo lugar, acho que o Michael Moore é um demagogo de esquerda, um populista de esquerda. Ele se comove com a dor do outro mas você não sabe se ele está se comovendo mesmo. Tem uma cena desse filme em que ele vai entrevistar uma senhora que é a diretora de uma escola de periferia, que é uma guerrilheira da educação, que luta pelos seus alunos. Nessa escola houve uma tragédia, uma criança de seis anos matou outra de quatro anos. E ele chega lá um mês depois e essa senhora começa a contar a história e chorar. Aí ele se levanta, vai para diante da câmera, abraça ela, e chora junto, chamando a câmera para ele. Ele sequer dá a ela o direito de se emocionar sozinha, ele invade e desrespeita. Isso eu acho imperdoável. E ainda tem uma terceira coisa que o Michael Moore faz que é o documentário de emboscada.
Cineweb - Como ele fez com o Charlton Heston em Columbine.
João - Quando ele faz isso com o Charlton Heston, você até pode dizer - "Bom, o Charlton Heston merece, porque é um sujeito poderoso...". Mas ele está sempre emboscando a arraia miúda das empresas. Então quando ele entra na loja que vende as armas e não está falando com o presidente da empresa, está humilhando o pobre do funcionário que está tentando viver também e que tem que falar daquela maneira, ele é o gerente. Então, a estratégia do Michael Moore é desagradável, eu diria. Mas as causas são corretas. Talvez seja bom que ele esteja lá fazendo esses filmes, essas coisas precisam ser ditas. Mas poderiam ser ditas de outra maneira.
Cineweb - Então o que você está fazendo é uma crítica de postura, apenas.
João - É uma crítica de postura muito mais do que qualquer outra coisa.
Cineweb-1/ 5/2003
