06/06/2026

A lady do povo

Disseram que a vida da dançarina Rita Cadillac daria um filme. Na verdade, daria vários, a começar pelo documentário que estreia nesta sexta-feira, dirigido por Tony Venturi.

Rita Cadillac não para nunca. É essa a sensação que passa a dançarina, sex symbol, rainha dos presidiários, dona do mais aclamado bumbum do Brasil, entre tantos outros apostos que seguem o nome da artista. Enquanto dá uma entrevista ao celular, ela sugere caminhos ao taxista, paga contas e não poupa gentilezas. Mas ela mesma faz questão de frisar que pouca gente conhece seu lado verdadeiro, a Rita de Cássia.

Isso tem tudo para mudar a partir desta sexta-feira, quando entra em cartaz em diversas capitais do país (exceto Rio e São Paulo, onde estreia dia 16) o documentário Rita Cadillac – A Lady do Povo, de Toni Venturi. “Quando me procuraram para fazer o filme, achei que fosse pegadinha da televisão. Mas depois o Toni chegou com câmera e tudo, e vi que ele era um diretor sério”, contou ao Cineweb.


A dançarina nem parece mais se surpreender quando dizem se sua vida daria um filme de ficção. “Sabe que mais de cinco pessoas já falaram isso nos últimos dias? Eu acho que podia dar um bom filme mesmo”. E quando perguntada quem poderia interpretá-la no cinema, ela tem a resposta na ponta da língua. “Cléo Pires podia fazer a personagem jovem. Depois, eu acho que podia ser a Marisa Orth ou até a Regina Casé, falam que sou parecida com ela”.

Já para fazer o documentário Rita Cadillac – A Lady do povo ela conta que precisou criar uma cumplicidade com Venturi. A dançarina confiou tanto no diretor, que, no filme, faz confidências que prometem gerar polêmica – diz que passou “duas noites de amor” com Pelé e que chegou a fazer programas para sobreviver.

Para Rita, fazer o documentário significou revisitar todo o seu passado. “Foi uma terapia que eu fiz de graça. Esse filme me ajudou a superar diversos traumas, encarar assuntos que eu não tinha coragem de rever”, conta, rindo.

O diretor Toni Venturi, por sua vez, acha que, para a dançarina, Rita Cadillac – A Lady do Povo foi bastante especial. “Ela estava no auge do filme pornô. E eu acredito que esse documentário ajudou até na auto-estima dela, porque transmite uma dimensão humana da pessoa. A proposta era desmistificar”. E a retratada concorda que Venturi conseguiu alcançar seus objetivos: “Rita Cadillac é uma personagem. Eu sou a Rita de Cássia, mas quando precisa, eu sou a Rita Cadillac”.

A personagem foi criada na década de 1970, quando Rita era uma chacrete no programa de televisão do Chacrinha. Ela não nega que tem muito carinho pelo “velho guerreiro” e sente que se até hoje é famosa, deve isso a ele. “O Chacrinha foi a coisa mais importante que aconteceu na minha vida. Sou a Rita Cadillac por causa dele”.

Venturi conta que construiu o filme em cima de justaposição de depoimentos: “Não é a minha versão dos fatos ou da vida da Rita. São diversas pessoas que contam a história dela.”. O diretor comenta que não foi difícil encontrar pessoas que quisessem dar depoimentos sobre a biografada. “A Rita é muito amiga, carismática, generosa. As pessoas querem ficar amigas dela para sempre. Por isso, que não foi difícil encontrar o primeiro amor da vida dela, um rapaz que ela namorou quando tinha 15 anos. Eles são amigos até hoje”.

No filme, além de rever a carreira, Rita visita lugares da infância, como a escola em que estudou e o apartamento onde morou com a sua avó. “Foi uma volta ao passado que tinha sido apagado. Isso me deixou muito emocionada; eu não visitava aqueles lugares há mais de 30 anos”. Ao longo do filme a vida de Rita também passou por transformações. Ela conheceu uma meia-irmã e casou-se com seu namorado. Hoje, três anos depois, o casamento já acabou, mas ela ainda é amiga do ex-marido.

Quando o filme ficou pronto, antes de sua primeira exibição, no Festival do Rio, em 2007, Venturi conta que chamou Rita para assisti-lo, mas ela se recusou. “Ela não quis. Queria ver no cinema junto com todo mundo; viu ao meu lado e chorou o tempo todo, emocionada”. Para a biografada, “o filme é um filho do Toni. “Eu não quis ver antes para nem pensar em tirar alguma cena, mudar alguma coisa. Eu dei completa autonomia para ele”.

No documentário, o cineasta Hector Babenco, que trabalhou com Rita no longa Carandiru (2003), comenta que “na próxima encarnação quer ser Rita Cadillac”. Quando se lembra disso, ela ri e concorda: “Eu também. Se tiver de ser gente, quero ser de novo Rita Cadillac”.
(Alysson Oliveira)