Atrizes de “Sonhos Roubados” mergulham na realidade dos morros para viver personagens
- Por Alysson Oliveira
- 20/04/2010
- Tempo de leitura 5 minutos
Quando falam de suas personagens, as três atrizes centrais do drama Sonhos Roubados, de Sandra Werneck, não as tratam como uma criação ficcional de um filme, mas sim como pessoas de carne e osso. Isso nem se deve apenas ao fato de que o roteiro do filme se baseia num livro-reportagem de Eliane Trindade, mas tem mais a ver com a imersão que elas fizeram no universo retratado pelo longa – o dos morros cariocas. “Eu abri meu coração para entrar a fundo. Não queria fazer a Jéssica. Eu queria ser a Jéssica”, disse ao Cineweb Nanda Costa que, com esse trabalhou, arrebatou o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio do ano passado.
Atualmente, ela está na novela Viver a vida, no papel de Soraia, uma moça sem muito caráter que não pensa duas vezes antes de puxar o tapete de qualquer pessoa, até da própria prima. Algo um tanto diferente da personagem do filme, que se mostra cheia de escrúpulos, embora nem sempre saiba o que fazer com eles. O prêmio no Festival do Rio, segundo a atriz, ajudou seu trabalho na novela. “Meu personagem começou pequeno e foi ganhando força. Acho que o Maneco [Manoel Carlos, autor da novela] quis ver até onde eu sou capaz de ir com atriz”, acredita.
Suas outras duas colegas em Sonhos Roubados, que estreia em circuito nacional no dia 23, são a estreante Kika Farias e Amanda Diniz, que em seu currículo conta com a Narizinho, na versão de 2006 de O Sítio do Picapau Amarelo. Na tela, as atrizes dividem cenas com veteranos do peso de Marieta Severo (Cazuza – O tempo não para), Nelson Xavier e Ângelo Antonio – a mesma dupla que esteve em Chico Xavier, e que, aqui, não contracenam. “É legal trabalhar com outros estreantes porque você descobre junto. Mas com veteranos você descobre mais ainda. Eles nos receberam de forma extraordinária”, conta Amanda. Já Nanda ressalta: “Quando você não conhece bem as técnicas, é tudo mais natural e intuitivo. Elas trouxeram esse frescor ao filme”.
Para compor os personagens, três adolescentes que moram numa comunidade carioca e se prostituem, as atrizes tiveram de deixar de lado muitas coisas – uma delas foi a vaidade. O figurino, de roupas coladas no corpo, era ultrassensual. “O filme pediu para a gente deixar o ego de lado. Essas meninas têm outra relação com o corpo, diferente da nossa. Para elas, quem está mais bem vestido é quem usa menos roupa”.
A aparência das personagens também fez com que as atrizes mudassem radicalmente o cabelo. Nanda usa trancinhas e Amanda teve de alisar e tingir o cabelo de loiro platinado. “A gente percebeu que as meninas da comunidade têm muita preocupação com o cabelo. Junto com a Sandra [Werneck, diretora] pensamos como poderia ser o visual dessas três garotas. No meu caso, as tranças pesavam, me incomodavam. Esse incômodo serviu como uma transferência de tudo aquilo que perturbava a personagem. Eu transferi a raiva dela para o físico”, conta Nanda.
Para Kika, que nasceu em Recife e foi para o Rio em busca de trabalho como atriz, as roupas foram uma das coisas que mais a ajudaram a compor o personagem. Fora isso, as cenas de sexo e nudez foram o primeiro grande desafio de sua carreira. “A gente fez muita preparação antes, não só para entrar no clima. O fato de ser dirigida por uma mulher me ajudou muito. A Sandra foi muito delicada”. No filme, a personagem da atriz, Sabrina, tem um caso com um traficante, vivido por Guilherme Duarte.
Dolores Duran e baile funk de verdade
Antes de começarem a filmar, as atrizes se prepararam passando um tempo numa comunidade carioca, visitando bailes funk e grupos de dança. Amanda foi morar com uma tia no Vidigal, para entrar em contato com a realidade da sua personagem, Daiane. Kika, por sua vez, teve contato com comunidades em Recife. Quando se mudou para o Rio, começou a frequentar o grupo de teatro Nós do Morro.
Quando foi ao seu primeiro baile funk com a colega de trabalho, Amanda se surpreendeu: “Aquelas coisas que a gente só vê na televisão, como as armas, estão tudo lá e são de verdade. No primeiro momento, eu fiquei assustada. Foi um choque de realidade”, lembra a atriz. Mas ela não nega que essa experiência era primordial para poder fazer o filme. “Eu tinha de pegar o jeito da Sabrina. Tinha que vivenciar isso e deixar essa realidade se impregnar em mim”.
Já Amanda diz que as pessoas no set a ajudaram muito em suas cenas mais complicadas. Sua personagem é abusada sexualmente pelo tio com quem mora. “Algumas cenas foram difíceis, mas o que me deixa mais assustada é saber que casos como esses existem de verdade”. Quando começou a rodar o filme, a atriz, como sua personagem, tinha 14 anos, e também, como Daiane, completou 15 enquanto fazia o longa.
Amanda e Kika passaram por diversos testes para conseguirem seus papeis. Já Nanda foi convidada a fazer um teste depois que a diretora a viu num especial na televisão, interpretando a cantora Dolores Duran. “Foi curioso a Sandra ver a Jéssica na Dolores, até porque o visual é bem diferente, até meu cabelo estava mais curto”.
Atualmente, Nanda se prepara para rodar outro longa. Ela estará em Meu tempo é agora, de Johnny Araújo (O magnata), sobre o Rio dos anos de 1980. Mas o grande sonho da atriz é fazer um filme de Pedro Almodóvar. “Adoro tudo que engloba o cinema dele, a fotografia, a direção de arte, as cores. Além das personagens femininas serem fascinantes”.
