06/06/2026

Em “Sonhos Roubados”, diretora Sandra Werneck dá voz às meninas das favelas

Para realizar Sonhos Roubados, seu novo filme, que estreia hoje, a diretora Sandra Werneck (Cazuza – O tempo não pára) teve que deixar de lado uma série de conceitos sobre as garotas moradoras de comunidades populares no Rio de Janeiro. “Aprendi que as meninas de comunidade têm filho não só por falta de informação. Aprendi que as meninas, mesmo quando fazem sexo por dinheiro, não são prostitutas. Aprendi que esse filme poderia se passar na Polônia, porque trata de uma questão universal. Aprendi também que o papel do homem é praticamente nulo, os pais, muitas vezes, são ausentes. Aprendi, especialmente, que se a gente não olhar para essas meninas, teremos sérios problemas com as gerações futuras do país”, revela, em entrevista ao Cineweb.

No seu filme anterior, o documentário Meninas (2006), Sandra acompanhava um grupo de adolescentes grávidas de uma favela carioca. Seu novo filme, apesar de uma ficção, parece investigar o que acontece com essas garotas tempos depois da gravidez – como é o caso da personagem central Jessica, vivida por Nanda Costa. Mãe solteira de uma criança pequena, ela vive com o avô e se prostitui para pagar as contas e criar a filha.

Sandra também tem certeza de que Meninas foi uma grande ajuda quando ela procurou a jornalista Eliane Trindade para comprar os diretos do livro-reportagem As Meninas da Esquina – Diário de Seis, publicado em 2005, que serviu de base para o roteiro. “Várias pessoas já a haviam procurado, mas ela não havia cedido ainda. Ela queria uma mulher para fazer o filme. Quando viu meu documentário, creio que se convenceu de que eu seria uma boa diretora para lidar com o tema”, conta Sandra.

Para dar vida a essas meninas de comunidade, a diretora não queria atrizes famosas. Começou a fazer testes com iniciantes e novatas, até que chegou a Nanda que havia participado de uma novela (Cobras & Lagartos), além de um pequeno papel no filme Querô (2006). No seu elenco, Sandra combinou jovens atrizes com veteranos, como Marieta Severo, Nelson Xavier e Ângelo Antonio. “As meninas estavam muito ávidas para aprender e os outros atores foram muito parceiros dela a ponto de darem até conselhos técnicos. Tentei deixar todos no mesmo patamar”.

Para preparar as jovens atrizes para seus papéis, que incluíam cenas de sexo e nudez, além de uma alta voltagem emocional, a diretora contou com o trabalho dos preparadores de elenco Rogério e Ricardo Blat e Camila Amado. “A gente fez muita preparação antes para na hora de filmar elas estarem bastante seguras. Foi um trabalho de tirá-las de si mesmas para receber o novo personagem”. O resultado, além das boas interpretações, foi o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio 2009 para Nanda.

Aliás, no mesmo festival, o filme se consagrou com o prêmio do público – o que deixou Sandra segura de como Sonhos Roubados pode se comunicar com plateias mais variadas. “Acho que o filme traz algo de adolescente, de vontades e desejos que é inerente a qualquer classe social, a pessoas de qualquer idade”.

O filme foi totalmente rodado em duas comunidades do Rio, Curicica e Ramos. Sandra dispensou figurantes profissionais, chamando os próprios moradores para fazer figuração no seu filme. Segundo a diretora, eles viram “Sonhos Roubados” no Festival do Rio, no ano passado, e adoraram. No filme, estreia como ator o famoso rapper MV Bill – que, ao lado de Celso Athayde, em 2006, lançou o livro e o documentário Falcão – Meninos do Tráfico. “Eu o conheci quando fazia pesquisas para o filme. A gente conversou muito e um dia um assistente meu sugeriu que ele fizesse um teste para atuar. No começo ele nem queria, mas acabou dando certo”, comemora.

Além interpretar um presidiário com quem a personagem de Nanda se envolve, o rapper ajudou muito a diretora no realismo do filme. “É um universo que ele conhece bem. Em vários momentos ele me sugeria mudanças porque as coisas não aconteciam como a gente tinha pensado. Ele ajudou a trazer muita veracidade”.

Atualmente, a diretora está em fase de captação para seu novo longa, “O lugar do desejo”, que espera rodar no começo do próximo ano. Novamente, estão em foco personagens femininas, mas de outra faixa etária e classe social. “É a história de duas mulheres e uma sonha com o lugar da outra”. Sandra acredita que sua predileção por personagens femininas tenha a ver com o que considera a capacidade das mulheres de ter esperança. “Acho que isso até ajuda a gente a viver mais. À mulher foi dado o direito de sonhar, ao homem, o poder de trabalhar e sustentar”.