“É mais difícil fazer um morto do que um vivo”, confessa Paulo José
Aos 73 anos, Paulo José não se importa com a idade e o que quer mesmo é trabalhar. Ele é incansável até mesmo no papel de um morto, como em "Quincas Berro d'Água", que estreia dia 21.
- Por Alysson Oliveira
- 10/05/2010
- Tempo de leitura 5 minutos
Sem nenhum exagero, Paulo José é um dos maiores atores do cinema brasileiro. Mas ele próprio parece não se dar conta disso ou, se dá, parece nem se importar. Quer mesmo é trabalhar e, aos 73 anos (44 na frente das câmeras de cinema e televisão ou num palco), diz que ainda tem muito para aprender. “Estamos sempre aprendendo, até com uma criança a gente tem o que aprender, porque a vida é um aprendizado”, disse o ator ao Cineweb, enquanto divulgava tanto seu novo filme Quincas Berro D’Água, de Sérgio Machado, que entra em cartaz no país no próximo dia 21.
A carreira de Paulo José confunde-se com a história do cinema brasileiro. Desde sua estreia em 1966, com O Padre e a Moça, o ator esteve sob a direção de grandes nomes, como Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma), Walter Hugo Khouri (As Amorosas), Domingos Oliveira (Todas as mulheres do mundo, o recente Juventude) e Leon Hirszman (Eles não usam black-tie). Mas nada disso se compara ao desafio de interpretar um morto, o que faz no filme de Sérgio Machado, baseado em livro de Jorge Amado.
“É muito mais difícil fazer um morto do que um vivo. O mais importante para o ator é o olhar. Mas percebi que o Quincas, com os olhos fechados, está olhando para dentro. Ele é um morto mais atento do que muitos vivos”, diverte-se. As dificuldades do personagem não eram apenas a de estar de olhos fechados o tempo todo. Paulo José confessa que foi preciso muito esforço físico, e ele não se refere apenas à necessidade de prender a respiração, o que ele é capaz de fazer por pouco mais de um minuto. “Eu era arrastado, puxado para todo lado. Até me machuquei algumas vezes.”
Durante o filme, Paulo José dispensou tanto dublês quanto os dois bonecos idênticos a ele feitos especialmente para substituí-lo. Mas o ator queria fazer todas as cenas, para desespero do diretor Sergio Machado. “Boneco não tem graça. É inerte, não tem a mesma maleabilidade”, argumentou o ator. Essa energia toda para atuar vai ao encontro de algo que Paulo acredita ser fundamental no cinema: a vivência. “O cinema te dá a chance de viver várias vidas e o personagem te traz novas experiências, a descoberta de possibilidades do ser humano”.
Para criar o morto-beberrão Quincas Berro D’Água, Paulo José contou com a ajuda da preparadora de elenco Fátima Toledo, que trabalhou com os atores do filme, que também inclui Flavio Bauraqui, Luis Miranda, Irandhir Santos e Frank Menezes. Ao lado do protagonista, os quatro formam um grupo de vagabundos divertidos que vagam pela boemia de Salvador. Segundo Paulo José, o trabalho de Fátima contribuiu para estreitar os laços de amizade entre o grupo e uniformizar as interpretações. “Ela fez um laboratório em torno da perda, da morte. Depois de dois meses, todos nós já éramos os personagens. Ficamos muito próximos”.
O quarteto vê Quincas como uma figura paterna, uma relação que se reproduziu entre e os jovens atores e Paulo José. O próprio confessa que se afeiçoou aos seus colegas. “Acho que por eu ser mais velho, mais experiente, assumi a frente do grupo”. Os outros atores e o diretor contam até que Paulo José, mesmo deitado num caixão, os ‘dirigia’ em cena, brincando com eles quando exageravam no tom da comédia, mandando retirar o nariz de palhaço.
Brasilidade
Algumas pessoas comparam Quincas Berro D’Água a um dos personagens mais famosos que Paulo José fez no cinema, o malandro Macunaíma. O ator encontra algumas semelhanças entre os dois – especialmente na “brasilidade deles, nas falhas trágicas”– mas gosta de aproximar o beberrão aos personagens de Charles Chaplin. “Eles são vagabundos, mas se sentem grandiosos, finos. No fundo, têm o essencial, que é a vida”.
O ator conta que só aceita fazer filmes em que acredita. No caso de Quincas Berro D’Água, uma das razões para aceitar o convite foi o diretor, Sérgio Machado. “Ele é muito talentoso. Gosto muito do primeiro filme dele, um documentário sobre Mário Peixoto, chamado Onde a terra acaba”.
Outro fator que pesou foi ser um personagem de Jorge Amado. Esta é a segunda vez em que Paulo José trabalha numa adaptação do autor. A primeira foi no final da década de 1980, na novela Tieta, mas era uma pequena participação – só agora faz um protagonista. “Os grandes personagens da obra dele são femininas. O Quincas é uma exceção. Além de tudo, eu estou na idade certa para fazer o papel, quase nem preciso de maquiagem”, ironiza.
Agora, além de trabalhar no lançamento do filme, Paulo José estreia neste final de semana em São Paulo a peça Um navio no espaço ou Ana Cristina César em que assina a direção e atua ao lado da filha Ana Kutner. “Foi muito gostoso. A gente ensaiava em casa.” Segundo ele, não podia estar num momento melhor em sua carreira. Em breve, começa a gravar uma participação na minissérie Justiça para todos, da Rede Globo, que deverá ir ao ar no segundo semestre.
No programa televisivo, Paulo José será um juiz aposentado muito querido por seus colegas que de vez em quando visita o tribunal. “Ele sempre ajuda os advogados mais jovens, dá conselhos. Tem muita experiência”. Ou seja, nada muito diferente do Paulo José na vida real.
Alysson Oliveira
