06/06/2026

“O cinema francês precisa de uma nova revolução”, diz diretor de documentário sobre a Nouvelle Vague

“Não dá para pensar como seria o cinema hoje em dia se não tivesse ocorrido a Nouvelle Vague”, disse ao Cineweb o cineasta e escritor francês Emmanuel Laurent. Em sua passagem por São Paulo, para divulgar seu novo filme, o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”, ele fez um balanço dos 50 anos do movimento francês, que tem como marco inicial o filme “Os incompreendidos”, de François Truffaut, lançado no Festival de Cannes, em 1959, de onde saiu com o prêmio de direção.

Inicialmente, o documentário de Laurent seria sobre a Nouvelle Vague, o movimento, seus filmes, estéticas e a revolução que introduziu no cinema mundial. Aos poucos, Laurent percebeu que precisava concentrar-se em duas figuras: Jean-Luc Godard e François Truffaut. “Eu estava um pouco perdido, em meio a muita informação. O crítico Antoine de Baecque, que escreveu uma biografia de Truffaut [com Serge Toubiana, lançada em 1996], estava trabalhando num livro sobre Godard [lançado em março passado na França]. Acabamos nos associando para fazer o documentário. E percebi que a amizade e a posterior separação entre Godard e Truffaut seriam o foco para o nosso filme”.

O trabalho de Baecque foi complementado por uma pesquisadora, Christine Loiseau, com quem Laurent trabalhou por anos. O resultado é um vasto material, reunindo jornais, revistas, arquivos particulares e de canais de televisão, sobre os diretores e a Nouvelle Vague. O documentarista não queria a ideia do presente revisitando o passado, e sim que o espectador viajasse numa máquina do tempo. “Ver imagens de publicações daquela época é dar ao público a chance de descobrir os filmes, os diretores e a efervescência daquele cinema, da mesma forma como as pessoas puderam descobri-lo no final dos anos 1950”.

Em “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague” não há uma entrevista feita nos dias de hoje. As únicas imagens contemporâneas mostram a atriz Isild Le Besco folheando publicações da época ou andando pelas ruas de Paris. “Ela é como um guia para o público dentro do filme. As descobertas dela são as mesmas de quem está assistindo ao documentário. Ela não sabia muito sobre a Nouvelle Vague e foi se maravilhando com aquilo que via diante de si”. O documentarista gosta de ressaltar que não fez o filme exatamente dirigido para os cinéfilos. “Eles devem saber muito mais do que eu sobre as obras e os diretores. O documentário é para o público”.

O processo de montagem do longa levou cerca de 12 semanas – fora a pesquisa. No começo, Laurent conta que teve dificuldade de encontrar o formato ideal, devido ao acúmulo de informações e imagens. “O trabalho só começou a dar certo quando percebi que devia descartar tudo aquilo que não se relacionasse com a amizade de Godard e Truffaut e o ‘filho’ cinematográfico deles, o ator Jean-Pierre Léaud”.

“Rever a amizade de Godard e Truffaut foi revisitar a história da França nos anos da década de 1960 à de 1980. Eles representam a divisão política que caiu sobre o país nesse período. Godard era rico, tinha uma formação intelectual profunda. Já Truffaut era filho da classe operária, sabia que a utopia política era apenas um sonho. Essa diferença foi uma das causas que os levaram a uma ruptura”, opina.

Uma nova revolução no cinema francês

Embora conte que seu filme preferido da Nouvelle Vague é “Lola” (1961), de Jacques Demy, o diretor diz que acompanhava com ansiedade a todos os lançamentos, especialmente os de Truffaut. “Ele me inspirou a ser cineasta. Seus filmes falavam das coisas que estavam acontecendo comigo e me interessavam, como a entrada na vida adulta, a descoberta do amor. Léaud [ator alter ego de Truffaut em vários filmes] era o meu irmão mais velho”

Quanto a cinema contemporâneo, porém, Laurent se mostra um tanto cético. “Está na hora de o cinema francês fazer uma nova revolução. Há um comodismo muito grande por parte dos cineastas. Poucos são capazes de criar algo realmente memorável. A única exceção na França, atualmente, é Claire Denis [diretora de filmes como “Beau Travail”, “35 doses de rum” e “White Material”, exibidos no Brasil apenas em festivais].”

Para ele, os novos cineastas franceses precisam bater de frente com o stablishment em vigor na França. “Os diretores parecem ter se tornado empreendedores e não artistas. A maior parte dos filmes são caretas, quadrados, acadêmicos, sem qualquer frescor e ousadia. Ou então, são cópias baratas de filmes americanos”, dispara.

“Hoje em dia, qualquer cineasta já se acha um autor, sem ter qualquer conhecimento sobre cinema, arte e a história do cinema. Mas eu não vejo no cinema mundial muita gente com as mesmas qualidades artísticas dos verdadeiros autores, como Godard, Truffaut, Rohmer. Aonde eles estão?”.