06/06/2026

Impacto urbanístico e humano do Minhocão é tema de documentário

Duas semanas depois de a prefeitura de São Paulo ter anunciado a intenção de derrubá-lo, o Elevado Costa e Silva, conhecido como Minhocão, foi palco da pré-estreia gratuita do filme "Elevado 3.5", no domingo (30), às 19h, entre a Rua Helvetia e Alameda Glete, no centro de São Paulo.

Dirigido por João Sodré, Maíra Buhler e Paulo Pastorelo e vencedor do prêmio de melhor documentário brasileiro no 12º "É Tudo Verdade" (2007), o filme traz um mosaico de personagens que habitam casas e apartamentos ao longo dos 3,5 km de seu traçado. São histórias de vida ligadas de formas diferenciadas não apenas à via, mas aos impactos que ela promoveu na região.

“Sempre acreditamos que as trajetórias de vida de cada uma dessas pessoas, suas histórias vividas naquele lugar, seus sonhos e desejos dizem algo além do pensamento funcional que costumamos manter com a cidade”, afirma Paulo Pastorelo.

Segundo ele, o Minhocão está situado em um lugar-chave para se pensar o modo e a forma com que a cidade de São Paulo se desenvolveu e, principalmente, os conflitos que fizeram e fazem parte desse processo. “Está tudo concentrado ali: o deslocamento da burguesia do centro da cidade, a opção pelo urbanismo rodoviarista, a apropriação popular do centro como reivindicação do direito à cidade, a guetificação de espaços das minorias e até as pressões do capital sobre a produção do espaço, com a especulação e o mercado imobiliário”, analisa

Nesse contexto, o desejo do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), de criar um
projeto que poderá culminar com a demolição do elevado, veio em um momento oportuno, na opinião de João Sodré. Depois de dois anos para liberar a distribuição comercial do filme, para ele “foi uma coincidência” o elevado voltar às manchetes dos jornais. ”Já havíamos fechado as datas de estreia comercial (4 de junho) da produção”, afirma.

No entanto, para o documentarista, que também é arquiteto e urbanista, não há qualquer novidade ou surpresa em projetos sobre o fim da via. “A cada quatro ou cinco anos alguém divulga que pretende derrubar o Minhocão”, lembra Sodré.

O cineasta está certo. Menos de cinco anos depois de inaugurado por Paulo Maluf, o elevado já era motivo de preocupação do prefeito Olavo Setúbal (1975-79). Foi sucedido por Jânio Quadros (1985-89), que queria transformá-lo em jardim suspenso.

Mais tarde, Luiza Erundina (1989-1993) decretou a proibição não apenas do tráfego noturno de automóveis, como também aos domingos e feriados. E, finalmente, Marta Suplicy (2000-04) e José Serra (2004-06), também se disseram contrários à manutenção da via expressa, mas nada fizeram.

Nos três meses de pesquisa de campo, o trio de documentaristas encontrou personagens que simbolizam os quase 40 anos da construção do elevado e as vontades frustradas dos gestores públicos. Pelo que se vê na tela, as pessoas se resignaram a viver ali, por opção ou não, vizinhas à obra considerada “uma das mais feias da cidade”, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha, em 2004.

“Durante as entrevistas, as respostas foram surpreendentes e mostraram quão complexas são as relações entre as pessoas e os espaços em que vivem”, afirma João Sodré.

Um exemplo é Luis Vieira da Costa, cujas janelas dão de frente para o Minhocão. Ele é categórico ao dizer que sente falta do som de buzinas e de motores nos fins de semana, quando a via é ocupada por bicicletas e pedestres. No mesmo apartamento, Erotides de Lima diz preferir os automóveis às pessoas, pois elas ficam gritando em sua janela.

“Nunca quisemos transformar as entrevistas em justificativas das nossas visões pessoais e particulares. ‘Elevado 3.5’ é um filme em aberto. Ele funciona como um diálogo com o público, sempre retornando novos questionamentos que nos fazem repensar nossas posições. Escutar o outro, suas histórias e visões de mundo, é sempre uma surpresa”, acredita Pastorelo.

Questionado se é contra ou a favor do fim do Minhocão, João Sodré é reticente e alega que
não é este o objetivo do filme. “Posso dizer que o tema não deveria ser tratado apenas por decreto”, conclui.