Diretor fala da experiência de levar ícone da cultura pop francesa para o cinema
- Por Alysson Oliveira
- 10/06/2010
- Tempo de leitura 5 minutos
Nunca é fácil levar um ícone da cultura pop para o cinema. O cineasta francês Laurent Tirard que o diga. Quando convidado por seu produtor para levar para o cinema o Pequeno Nicolau, um dos personagens mais famosos da literatura infanto-juvenil do século XX, ele foi categórico. “Era responsabilidade demais para mim. Na França, todo mundo ama esse menino, e eu também. Eu não tinha coragem de mexer nesse ícone”, contou entre risadas ao Cineweb durante sua passagem por São Paulo, onde participa do Festival Varilux de Cinema Francês.
“Mas quando acabei aceitando o trabalho, descobri que não devia deixar me contaminar pelas expectativas do público. Não devia pensar em ‘fazer um filme para o público’. Confiei apenas nos meus instintos, e fiz o filme que eu gostaria de ter visto quando era criança”, explica. Olhando para trás, as decisões de Tirard, que em seu currículo também tem “As aventuras de Molière”, parecem ter sido todas certas. O Pequeno Nicolau estreou na França em setembro passado, e fez mais de 5 milhões de ingressos no país, e se transformou na maior bilheteria nacional de 2010. “Acho que o sucesso é fruto da honestidade com a qual fizemos o filme. Fomos honestos com o personagem, inventamos uma história divertida, combinamos muito humor. Agradou a crianças e adultos”, especula.
O personagem foi criado no final da década de 1950, pelo escritor René Goscinny (o mesmo de Asterix) e ilustrado por Jean-Jacques Sempé. Desde, então, diversas tentativas de adaptação para o cinema foram feitas r nunca daram certo. Tirard conta que não foi fácil convencer a filha de Goscinny a vender os direitos, e ela só aceitou quando viu um roteiro que a agradou. “Os livros do Pequeno Nicolau, na verdade, são compostos de episódios. Fiquei procurando uma linha narrativa que pudesse construir num filme. Nicolau é filho único, o reizinho de sua casa, o conflito mais assustador que poderia acontecer em sua vida é a chegada de um irmão, que seria uma ameaça”.
Com essa trama, Tirard escreveu um roteiro, com Grégoire Vigneron (As aventuras de Moliére), e mais tarde trouxe o comediante Alain Chabat para injetar mais humor no filme. “Algumas das cenas mais engraçadas foram invenções dele, como uma num jantar em que a mãe do protagonista bebe além da conta e só dá gafes”.
Compor o elenco infantil de O Pequeno Nicolau também exigiu instinto e esforço. Tirard e seu diretor de elenco testaram mais de 900 aspirantes. “Colocamos até anúncio em jornal. Vieram crianças da França inteira, mas, apesar de tanta opção, nunca é fácil. Para todos personagens ficávamos entre dois ou três atores. Espero que tenhamos feito a escolha certa”, brinca.
Se fazer a seleção de elenco foi difícil, dirigir as crianças foi mais complicado ainda. “O set era uma loucura, criança correndo para todo lado o tempo todo. Eles enlouqueciam os adultos. Para piorar, eles têm um déficit de concentração. Logo esquecem o que a gente fala. Depois que eu dava as instruções da cena tinha que rodar imediatamente na sequência, senão, esqueciam tudo”, se diverte. Tirard compara o seu trabalho a um parto. “No momento foi penoso, agora, a gente olha para trás e se diverte”.
Entre os pequenos atores do filme, havia um mais especial, e com ele o diretor confessa ter sido mais severo. Trata-se de Virgile Tirard, filho de cineasta, que interpreta um dos colegas de escola de Nicolau. “Ele quis fazer o teste, e eu deixei, mas avisei que não teria nenhum favorecimento. Ele acabou conseguindo um papel menor, mas no set eu era muito duro com ele, mais do que com os outros. Os meninos até se assustavam com o tratamento que eu dava a ele, que não tinha nada de especial. Mas fiz isso para o ajudar. Se não estivesse muito bem no filme, todo mundo iria comentar que só havia conseguido o papel porque é filho do diretor”.
Atualmente, Tirard trabalha numa adaptação de outro ícone da cultura pop: Asterix. E ele confessa que escrever o roteiro para uma nova aventura do gaulês não é tão fácil como foi o de O Pequeno Nicolau. “Para o outro filme eu só precisava voltar no tempo, lembrar da infância. Dessa vez, para mim, é praticamente um território estrangeiro. Preciso trabalhar muito nesse roteiro, me apropriar do personagem. Só vou me sentir confortável para fazer o filme quando o Asterix for meu”.
Fã de Woody Allen e Steven Spielberg, Tirard diz que sempre acompanha o cinema brasileiro quando chega à França. Recentemente viu Carandiru e O Invasor, e ficou impressionado com esse filme. Para ele, o cinema latino, em especial o brasileiro e o mexicano, e o asiático são as maiores expressões artísticas do momento. “O grande cinema e a criatividade vêm da necessidade. Na França, o cinema está acomodado, há muito pouca ousadia por causa desse conforto que os cineastas encontraram para fazer e exibir filmes”, pondera.
