06/06/2026

Protagonista de Hadewijch fala das dificuldades e alegrias de interpretar uma personagem densa

Um dos filmes mais polêmicos do Festival Varilux de Cinema Francês é o novo trabalho do diretor francês Bruno Dumont (A vida de Jesus, A Humanidade, Flandres), Hadewijch O filme marca a impressionante estreia de Julie Sokolowski, interpretando a protagonista. A jovem é uma garota mística que tem uma sensibilidade bastante aguçada. Seu amor por Cristo é tão grande, que as freiras do convento onde mora pedem para ela viver a vida do lado de fora da instituição por um tempo, ‘encontrar seu verdadeiro eu’.

Para Julie, que nunca teve nenhuma religião, e nem acredita em Deus, fazer a personagem foi um grande desafio. “Tive de me servir de minha própria experiência amorosa para tentar entender a personagem”, explicou ao Cineweb durante sua passagem por São Paulo, onde participou da abertura do Festival na noite de quinta. Ela conta que foi uma busca interna muito forte, e que lhe trouxe diversas mudanças. “Foi muito enriquecedor. Assisti a O Martírio de Joana D’Arc [de Carl Theodore Dreyer] várias vezes. Acredito que existam muitos paralelos entre as personagens”.

O trabalho com Dumont, um celebrado diretor francês, surgiu por acaso. Julie foi ao cinema com um amigo ver Flandres, e o diretor participava da sessão. Depois da projeção, conversaram um pouco, e trocaram contatos. Meses depois, ele mandou um e-mail a convidando para fazer o filme. Julie estava de viagem marcada para os Estados Unidos. E o cineasta a esperou. Quando voltou, praticamente foi direto para os sets de filmagem, em fevereiro do ano passado.

Sem qualquer experiência como atriz, Julie diz que se sentiu intimidada na frente das câmeras num primeiro momento. “Dizer as falas era muito estranho. Tanto que o Bruno preferiu tirar todos os meus diálogos das primeiras cenas. Demorou um tempo até eu me sentir confortável e natural para poder conversar na frente das câmeras”, explica. Para a preparação para o personagem, o diretor enviou para ela vários textos de Hadewijch, uma poetisa e mística do século XIII, cujo amor por Deus estava acima de tudo. “No começo eu não entendia muito do que aqueles textos expressavam. Foi muito difícil, foi um trabalho árduo, para o qual contei com a ajuda do diretor.”

Ao longo do processo de Hadewijch, Julie percebeu que ela e Dumont tinham bastante em comum quando o assunto era religião. Como ela, ele também não acredita em Deus, mas tem uma fé, um interesse pelo místico. “Ele busca o que há de místico nas pessoas. Os filmes dele são sobre essa busca. Nós visitamos diversas igrejas, nunca para rezar, mas para procurar uma força, uma energia”, explica.

Um dos temas do filme é o fundamentalismo religioso, a forma como a religião ganha dimensões na vida de uma pessoa. “Para tentar entender isso, para deixar a personagem verdadeira, fui buscar as minhas próprias feridas de amor dentro de mim para que tudo viesse à tona”. Para Julie, o mais difícil, no entanto, foi um momento na qual ela precisava mergulhar num lago. “Estava gelado, e precisamos repetir a cena muitas vezes. Foi humilhante, em alguns momentos. Eu sabia que não ia me afogar, mas precisava fingir isso”.

Julie tem acompanhado a carreira do filme na França e fora dela. Conta que há pouco tempo foi ao México, onde o longa teve uma recepção bastante calorosa. “Na França, o público e a crítica se interessaram mais pelos aspectos sociais do filme, sem dar muita atenção ao lado religioso, místico. Acredito que no Brasil, será como no México, as pessoas têm uma religiosidade mais aguçada, e terão mais sensibilidade para compreender nosso trabalho”.

Aos 22 anos, Julie trabalha num restaurante e não pensa em seguir carreira de atriz, apesar da estreia elogiada e dos vários convites que recebeu. “Não quero fazer nenhum trabalho como atriz pelo qual não me interesse de verdade”, explica.