Animação brasileira fará releitura pop da história do país
- Por Alysson Oliveira
- 17/06/2010
- Tempo de leitura 4 minutos
“A história do Brasil é pouco vivenciada pelos brasileiros. O processo de aprendizagem na escola ocorre praticamente de forma institucional, o que a torna pouco atraente”. É dessa forma que o premiado roteirista Luiz Bolognesi (As melhores coisas do mundo, Chega de Saudade) explica uma das razões que o motivaram a fazer a animação Lutas, sua estreia como diretor.
O filme, que, segundo Bolognesi, é voltado para o público juvenil e adulto, acompanha 600 anos na História do Brasil, tendo como guia nessa viagem um personagem imortal, dublado por Selton Mello. “Estamos trabalhando com uma linguagem e um visual de história em quadrinhos. A animação, para um roteirista, é muito estimulante, porque é possível deixar a criatividade correr livre, sem se preocupar com os custos que algumas cenas teriam se fizéssemos um filme com atores e cenários de verdade”, disse Cineweb.
O que guia a narrativa de Lutas é uma história de amor, vivida por um personagem masculino e outro feminino – este dublado por Camila Pitanga. “Ele não morre jamais, e ela morre e renasce ao longo dos séculos. Os dois se reencontram, mas algum episódio histórico atrapalha o amor deles”. Os fatos históricos, segundo o diretor, são inspirados em momentos verdadeiros de nossa história. “A trama começa com os indígenas, depois caminha para uma revolução no Maranhão do século XIX e segue, então, a época da ditadura, com estudantes e a luta armada. Acaba num futuro, quando o Rio de Janeiro está tomado por água e há uma inversão demográfica: os ricos moram nos morros, que não foram alagados, e os pobres nos prédios”.
Bolognesi trabalha no filme há cerca de dez anos, desde que terminou Bicho de Sete Cabeças, dirigido por sua mulher, Laís Bodanzky. Todo esse período foi consumido em pesquisas para elaboração do roteiro, até o início concreto da produção, em 2006. O diretor ressalta que pretende dar um tratamento épico para a história do Brasil. “Nossa história é feita de lutas, guerra. A violência social que temos atualmente não é gratuita, é um reflexo de tudo o que o país passou ao longo dos séculos. Estou levando esses personagens fictícios para o centro dessas disputas”. Em última instância, explica, o título do longa também reflete um caráter pessoal dos personagens que precisam lutar para que seu amor não seja esmagado pelas engrenagens da história.
Para escrever o roteiro de Lutas e compreender um pouco como o Brasil atual reflete o do passado, Bolognesi, em parceria com Daniel Augusto, entrevistou políticos, filósofos, sociólogos e pessoas envolvidas em projetos sociais. O resultado é uma série de documentários de cerca de meia hora chamados Lutas.doc, exibidos na TV Brasil no início do ano, que servirão de extras quando o filme for lançado em DVD.
Com orçamento em torno de R$ 4,3 milhões, Lutas está em processo de produção, com o trabalho diário de cerca de 40 pessoas. As vozes já foram gravadas e os animadores as utilizam para compor os personagens. “O engraçado foi que a personagem feminina ficou a cara da Camila Pitanga. Nem era para ser, mas acabou ficando parecida, porque quando se pensa numa mulher bonita, morena e com traços bem brasileiros, a imagem da atriz é a primeira que vem à cabeça. Quando adicionamos a voz ao desenho, era impossível não associá-la a ela”.
Já o personagem masculino, segundo Bolognesi, também ganhou uma dimensão épica na interpretação de Selton. “Mais tarde, quando convivi com os índios, para escrever o roteiro de Terra Vermelha [de Marco Bechis, lançado em 2008], descobri que há um mito Tupinambá de uma figura que morre e renasce, exatamente como o personagem do filme”.
A música terá um papel fundamental em “Lutas” e foi composta pelo Instituto, que também fez a trilha de “O invasor” e da série “Alice”, entre outros. “A presença da música no filme será bastante forte. Além disso, a Camila [Pitanga] gravou uma canção, e já estamos trabalhando num videoclipe. Ela gostou muito, diz que quer até seguir carreira de cantora”.
