06/06/2026

"Sem a paixão de Babenco pelo livro, o filme não existiria", diz autor de Ironweed

“Se não fosse pela paixão de Hector pelo livro acho que o filme não existiria”, contou o escritor em entrevista ao Cineweb em São Paulo, onde esteve depois de passar 5 dias na FLIP, em Paraty.

Quando o assunto é o filme Ironweed, baseado no seu romance mais famoso, os olhos do escritor norte-americano William Kennedy brilham e sua fala fica cheia de orgulho. “Quando me procuraram querendo comprar os direitos eu achei estranho. Pensava que outros livros meus eram mais cinematográficos, como Legs e
O grande jogo de Billy Phelan. Mas, até agora só ‘Ironweed’ chegou aos cinema”. Isso aconteceu em 1987, quatro anos após a publicação do romance, pelas mãos do argentino radicado no Brasil Hector Babenco.

“Se não fosse pela paixão de Hector pelo livro acho que o filme não existiria”, contou o escritor em entrevista ao Cineweb em São Paulo, onde esteve depois de passar 5 dias na FLIP, em Paraty. “Ele me ligou e conversamos muito. Ele queria dirigir a adaptação. Os produtores não o queriam, mas depois do lançamento de O Beijo da Mulher-Aranha, todo mundo o queria para dirigir filmes, mas ele continuou firme no propósito de adaptar meu livro”.

Jack Nicholson, que interpreta o protagonista, um morador de rua alcoólatra, foi o primeiro a entrar para o elenco. “Acredito que ele também convenceu Meryl Streep [que faz o principal papel feminino]. Ela está fantástica, é uma das melhores interpretações dela”. Kennedy conta que via as gravações diárias, e foi uma experiência maravilhosa. A primeira vez que viu o filme pronto foi uma cópia em vídeo não finalizada. “Hector me disse que precisava cortar pouca coisa, alguns segundos, e pediu a minha ajuda. Era uma cena perto do final, e eu não via motivo para cortar nada, porque estava tudo tão bonito, tão honesto”. No fim, o autor acabou ajudando na edição do diálogo.

O escritor lembra que quando Babenco foi mostrar o filme para ele estava preocupado. “Ele pensou que seria traumático para mim. Que ia até precisar de uma ambulância. Mas, com se vê, não me fez nenhum mal, pelo contrário”, lembra rindo do episódio.

Agora, o autor de “Ironweed” espera por uma nova adaptação de alguma obra sua para o cinema. Segundo ele, a Paramount tem os direitos de Roscoe, o mais recente livro do escritor. “Martin Scorsese já se mostrou interessado, e Tom Hanks também. Eles têm mais de um ano para trabalhar no filme antes que o direito expire”.

Kennedy assinou apenas um roteiro original, Cotton Club, que escreveu com Francis Ford Coppola, que dirigiu o filme, lançado em 1984. “Eu fiz muitos tratamentos de roteiros, mas disso não se leva crédito. Mas sempre fui muito bem pago. Para trabalhar por 50 minutos num roteiro eu ganhei mais dinheiro do que dando aula ou publicando um romance”. O escritor não quer mais trabalhar em roteiros, mas confessa que não vê a hora de ter mais um romance adaptado para o cinema.

Kennedy, que já foi crítico literário e de cinema, diz que acompanha os lançamentos de perto, até porque é um dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, ou seja, um votante no Oscar. “Estou doido para ver ‘A Origem’. Leonardo Di Caprio é um grande ator, e o diretor [Christopher Nolan] também é bom”. Outro filme que o impressionou recentemente foi “Avatar”, de James Cameron. “É um tipo de coisa diferente. Vivemos numa época da manipulação digital, tudo é manipulado. O filme explora muito bem isso”.

De Albany para Cuba

Kennedy é famoso pelo seu ciclo de romances situados em Albany, cidade natal do escritor e capital do estado de Nova York. Fazem parte da série “Ironweed” e “O Grande Jogo de Billy Phelan” – já publicados no Brasil pela Cosac Naify, que também promete para o próximo ano Velhos Esqueletos. Atualmente, no entanto, ele abandonou temporariamente Albany, e trabalha num romance que tem como pano-de-fundo a Revolução Cubana. “A cultura norte-america tem muita influencia de Cuba, na música, na dança, na literatura”.

O escritor trabalhou no Miami Herald, nos anos de 1950, e depois foi editar um jornal em Porto Rico. “Muita gente diz que Cuba e Porto Rico são duas asas do mesmo pássaro. Fiz muitas reportagens sobre o período, sobre Fidel, Batista. As lembranças desse período estão me ajudando a compor o romance. Creio que já tenho uns 80% dele pronto”.

Apesar do ciclo de Albany contar com sete romances, Ironweed ainda é o mais famoso, e o que rendeu mais prêmios a Kennedy – o Pulitzer, na categoria ficção, e o prêmio dos críticos literários. Kennedy diz se lembrar com clareza daquela tarde em abril de 1984 quando recebeu uma ligação de um programa de televisão dizendo que era um dos finalistas do Pulitzer, e que se ele ganhasse gostariam que ele desse uma entrevista à noite. “Logo ao redor da minha casa ficou cheio de carros de televisão, fotógrafos. Quando anunciaram o prêmio dei a entrevista e corri para maternidade. Minha filha estava grávida e meu neto nasceria naquela noite. No dia seguinte, estou na capa do New York Times segurando o bebê no colo e comemorando o prêmio”, brinca.